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Casa São Roque – Centro de Arte

Num recente dia de outubro, marcado por chuvas torrenciais, a cidade do Porto acrescentou um novo local à sua lista de centros de arte.

Próximo da Campanhã, a história da Casa São Roque remonta a 1759, quando funcionava como albergue para a caça e solar para a burguesia local. Com uma escala imponente e um traço elegante, a mansão de três andares foi remodelada pelo arquiteto José Marques da Silva entre 1900 e 1911; já as áreas exteriores e jardins foram desenhados por Jacinto de Matos. O espaço resultante, agora totalmente renovado pelo seu atual inquilino, e recuperado de uma quase ruína absoluta, mantém o estilo eclético precoce, marcado pelo historicismo francês e pela Art Nouveau belga.

A recuperação do edifício, exemplo único da colaboração entre esferas pública e privada, é uma iniciativa do atual proprietário das instalações, a Câmara Municipal do Porto, e do colecionador Pedro Álvares Ribeiro – conhecido também por Peter Meeker –, que colocou em prática, ao longo de dois anos, uma renovação profunda, através da sua fundação Vivercidade; foi-lhe concedido um arrendamento de quinze anos para a criação da nova instituição artística.

Para aproximar os discursos artísticos nacionais e internacionais, Álvares Ribeiro recorreu à curadora e historiadora de arte Barbara Piwowarska como diretora artística da Casa São Roque. Piwowarska foi curadora do Centre for Contemporary Art Ujazdowski Castle (CCA), em Varsóvia, tendo organizado e coorganizado exposições em várias instituições e galerias, incluindo Polish New Wave (Tate Modern, Londres / Anthology Film Archives, Nova Iorque); Polish Socialist Conceptualism of the 70s (Orchard, Nova Iorque). Em 2017, foi curadora do Pavilhão Polaco na 57ª Bienal de Veneza, com Little Review de Sharon Lockhart.

Piworwarska afirma que a Casa São Roque é um “um centro de arte muito específico, inexoravelmente associado ao seu edifício histórico, a nobre casa da burguesia” e irá funcionar como um “anti cubo branco”, ao mesmo tempo que procura um diálogo entre as três principais exposições anuais.

A primeira instalação na Casa São Roque, uma exposição individual de Ana Jotta (n. 1946), intitulada Inventória, exemplifica claramente este conceito. Nos interiores escuros e acolhedores da mansão, a vastidão da instalação surge como uma tentativa de homenagear e reagir a esse ambiente. Constituída maioritariamente por obras da coleção Álvares Ribeiro, Ana Jotta cria um interessante arranjo de esculturas, obras sobre papel, cerâmica e filmes, numa espécie de retrospetiva aumentada por peças site-specific.

Entre as obras mais notáveis, encontramos desenhos temporários (2019) concebidos diretamente nas paredes e escadarias, que aludem a uma vandalização provocatória e softcore do edifício luxuoso. No piso térreo, uma mesa colocada numa alcova, e delimitada por cortinas geométricas em ferro forjado, apresenta um grupo de esculturas antropomórficas e sensuais em bronze, feitas na década de 1990. As suas superfícies ásperas e acabamentos bizarros contradizem com os pristinos pormenores arquitetónicos. A Master’s View (2006) sublinha ainda mais a vontade da artista em inserir na exposição uma vaga subversão anti-burguesa. O abjeto gotejamento de poliuretano ocupa um canto da sala, qual ode ao acampamento numa rígida atmosfera de classe alta. A ambição é punk e a provocação é picante.

Inventória de Ana Jotta, até 8 de março 2020.

 

Por Guillaume Rouchon

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