Top

Ponto de Partida, de Nelson Leirner

Um largo conjunto de obras do artista Nelson Leirner encontra-se, neste momento, presente na Galeria Graça Brandão, numa exposição cuja visita até ao final do mês de novembro é obrigatória. A exposição Ponto de Partida é comissariada por Albuquerque Mendes, a pedido do artista.

Nos anos 60, Leirner surpreendia os críticos de arte brasileiros com o lendário porco empalhado, O Porco, de 1967. A peça consistia no uso de um porco verdadeiro, embalsamado, dentro de um gradeamento em madeira. O artista, quando foi interrogado sobre as razões de utilizar elementos provenientes da técnica da taxidermia (dos Anjos, 2008), respondeu prontamente, dando o exemplo de Duchamp, que utilizara um urinol, ou um secador de copos (dos Anjos, 2008), entre outros objectos nas suas obras. Então, nesse sentido, por que razão não poderia Leirner fazer o mesmo, usando da apropriação de objectos? Por mais inusitados que pudessem parecer?

Mas as obras de Leirner não se esgotam num mero vislumbre. Antes pelo contrário, em Ponto de Partida, é visível o combate inicial do visitante em apreender o sentido das obras apresentadas. Mesmo para os críticos mais atentos, a obra de Leirner  fomenta a diversidade de interpretações, não promovendo a unanimidade das suas análises (dos Anjos, 2008).

Na realidade o artista pretende provocar, com o seu trabalho, uma certa “ambiguidade semântica”, colocando o fruidor numa posição de estranheza e confusão interpretativa.

Na exposição, em posição de desfile, vários objectos são colocados enfileirados, como se tratasse de uma romaria. Pequenas figuras, como patos Donalds, Mickeys, Batmans, Sacis-pererés, Cangaceiros, Nossas Senhoras, Anões de Jardim, pais de santos, corações de Jesus, princesas, S. Jorges entre outros, coabitam lado a lado, rumo a um mesmo destino (dos Anjos, 2008). Dessa miscelânea de objectos, denunciante de contextos simbólicos múltiplos, saem evidenciados os assuntos políticos e sociais  de um país como o Brasil, a sua complexidade, as suas crenças religiosas, a diversidade de culturas, e os seus costumes, dados como certos e seguros. A justaposição das figuras religiosas com figuras de índole popular conduzem o observador, que se apercebe do tom humorista do artista, a uma ideia de que existem várias  verdades possíveis, em contraponto a uma visão unilateralista, ou  uma imposição de crenças ou ideologias universais (dos Anjos, 2008), observadas tanto no seio da cultura e da sociedade, como no próprio contexto da arte.

Ponto de Partida, até 30 de novembro.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

Subscreva a nossa newsletter!


Aceito a Política de Privacidade

Assine a Umbigo

4 números > €24

(portes incluídos para Portugal)