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Karōshi [kaˈrəʊʃi], s. m. morte por excesso de trabalho (do jap. ka, “excesso” + rō, “trabalho” + shi, “morte”)

“In the past the man has been first; in the future, the system must be first”. Foi Frederick Taylor quem o disse, em 1911, no seu Principles of Scientific Management. O Taylorismo, mais tarde prosseguido pelo Fordismo, transformou em ciência os sistemas de gestão do trabalho. O objetivo era claro: atingir o máximo da capacidade de produção das indústrias. O homem transformava-se numa das peças da máquina, desempenhando o seu trabalho mecânico e previsível. Permanentemente supervisionado. A empresa devia ser entendida como um sistema fechado, sem influências externas. O conforto do trabalhador surgia como fundamental para assegurar o máximo da sua capacidade de trabalho, no menor tempo possível.

Foi há um século atrás. Em Karōshi, podemos brincar ao “descobrir as diferenças”, sobre o mesmo pano de fundo que é o capitalismo. Não creio que seja justo para com os escravos falar-se em “escravatura” para caracterizar o mundo do trabalho contemporâneo. Mas é inquestionável a necessidade de se definirem novas nomenclaturas para se falar com sinceridade sobre os processos que lhe são inerentes. Karōshi, em japonês, significa morte por excesso de trabalho, e foi inventada nos anos 70. A sua inclusão no Oxford English Dictionary em 2012 fê-la atravessar fronteiras de outros territórios.

Neste paradigma dos sistemas e dos processos, repercutido na sociedade burocrática que tão bem Kafka já caracterizou, a nossa ação é formatada para e pelo procedimento. A regra, as instruções, as normas emitidas pela sociedade não sei do quê, são tidas como lei. No sonho da personagem representada por Rita Cabaço, ela não entra no paraíso porque, apesar de a porta estar aberta, era preciso tocar à campainha, e ela não a encontrou. “Ridícula”, pois bem. É a palavra certa para quem perde a vida a achar que está a fazer o que deve ser feito, por um terceiro lhe ter dito que era o certo a fazer.

A ser certa, a peça teria acabado com a morte de Bob. Limpar-se-ia o seu posto de trabalho em silêncio, e apressar-se-iam a substituí-lo. Porque “ninguém é insubstituível”, alguém dizia. Qualquer outro cenário representaria perder tempo, e tempo é dinheiro. Daquele trabalhador não rezaria a história.

Bob queria morrer cansado, mas terá acordado cansado demais para viver.

Karōshi é a nova produção do Teatro da Cidade e estará em cena no Teatro D. Maria II até 24 de novembro, com espetáculos às quartas-feiras e sábados, às 19h30, às quintas e sextas-feiras, às 21h30, e aos domingos, às 16h30.

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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