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Atrizes. Criadoras – Descentralização

Este é o primeiro de três artigos dedicados a atrizes, criadoras, encenadoras, performers e ativistas em Portugal. São mulheres de vários pontos do país, que enveredaram pelas artes performativas e se esforçam em tudo o que fazem, seja mais n o trabalho educativo, desde a infância até uma idade sénior, seja pela criação de um objeto artístico, subvertendo velhas e novas dramaturgias apresentadas em espaços convencionais e não convencionais, situados em locais mais urbanos ou rurais.

A força de cada uma destas mulheres encoraja qualquer um a não ter medo, a não pedir desculpa por existir e a acreditar que a liberdade se constrói diariamente, colocando-nos em causa, mas com a convicção que o conhecimento aliado à inteligência emocional que possuem só poderá mesmo tornar cada lugar que habitam (e onde produzem) num lugar definitivamente progressista, estimulando quem as rodeia.

Neste artigo o foco é a descentralização e a Umbigo falou com Ana Luena (codiretora da Malvada Associação – Évora), Isabel Craveiro (Diretora Artística do Teatrão – Coimbra), Maria João Luís (Atriz e Diretora Artística do Teatro da Terra – Ponte-de-Sor) e Tânia Leonardo (Atriz e Diretora Artística do Teatro da Pessoa – Caldas da Rainha).

Ana Luena viveu no Porto durante 24 anos, onde tinha a Companhia Teatro Bruto, tendo então feito a mudança para Évora para aí fundar a Malvada Associação Artística que codirige com José Miguel Soares. Como a própria refere, foi uma mudança com a ideia de eventualmente “dar aulas, algo que já fazia e que gosto muito. Entretanto acabei por ser convidada passado um ano para dar um semestre na Universidade de Évora. Já cá estou faz quase três anos e ainda não se repetiu. Não estou a dar aulas, mas tenho desenvolvido muitos projetos aqui em Évora. Continuo com a relação privilegiada com o Porto, cidade onde criei raízes muito fortes e onde vários programadores conhecem o meu trabalho. Com a Malvada fazemos criações próprias incluindo a colaboração com artistas que não sejam só de Évora, mas que vêm cá trabalhar connosco num contexto de Residência Artística e possam usufruir do sítio onde moramos. Situa-se a 5km do centro da cidade, numa freguesia de Évora, mas que no fundo é rural. Acaba por ser um contexto privilegiado, porque o tempo é diferente, as questões da movimentação são diferentes em comparação com Porto e Lisboa.”  Ana Luena refere também que Évora tem mais oferta cultural do que tinha três anos antes, quando se mudou. “O Festival Artes à Rua acontece no verão e tem dado outra movimentação cultural, programado pela Câmara Municipal a par com o crescendo da programação do Teatro Garcia de Resende, sendo que a ideia não é estar só aqui, mas criar uma relação com Lisboa e Porto, e outras cidades.” Em 2020 irão apresentar no Teatro São Luiz de 27 de março a 5 de abril o espetáculo Bonecas, “que parte de um texto de Afonso Cruz, residente no Alentejo, escrito por mim, cruzando o universo da pintora Paula Rego e experiências que tivemos com mulheres vítimas de violência doméstica. Uma Coprodução entre o Teatro Nacional São João, o Teatro Municipal São Luiz e a Câmara Municipal de Évora.”

Isabel Craveiro fala-nos também do percurso do Teatrão, que desenvolve e dirige em Coimbra, envolvendo a cidade e os que nela habitam. “O Teatrão começou por ser uma companhia de teatro para a infância e hoje em dia o seu ADN mantém-se como uma estrutura que trabalha com uma preocupação muito grande de proximidade com as pessoas e o público. As salas estão sempre cheias e isso está muito relacionado com o trabalho que tem sido feito desde a origem deste projeto, com a população. O facto de ter um serviço educativo e uma data de propostas que passam pela formação regular na área do teatro mobiliza muitas idades diferentes, desde jovens, crianças e até para seniores, tendo também parcerias com as universidades e com os centros de produção de conhecimento, criando ligações fortes dos alunos com a nossa estrutura.”

Sobre a forma de criação do Teatrão, Isabel realça que o mesmo “é muito eclético nas formas que procura para criar os seus espetáculos, mas o traço do seu trabalho é sempre um olhar muito crítico sobre o tempo presente, sobre o que se passa no mundo e a forma como reagimos ao que se está a passar. É um projeto muito engajado, que procura discutir as coisas através das suas criações. Estamos sempre à procura de parceiros, trabalhamos com toda a gente na cidade, somos uma estrutura aberta. E estamos também sempre muito atentos às outras pessoas e sempre à procura de quem nos desafie. Acho que isso também tem muito a ver com espaço que habitamos na cidade porque o facto de termos uma black box permite-nos fazer tudo. Leva-te sempre a querer criar espetáculos diferentes, a arriscar mais na relação com o público e a plateia. Seja em jeito de percurso, arena, passerelle, virado ao contrário, de cabeça para o ar, em espaços muito pequenos ou muito grandes ou mesmo na rua. Nós fazemos ou já fizemos isso tudo, com ou sem música ao vivo, cruzando dança com o teatro. Tem sempre muito a ver com uma interpretação do tempo presente e com aquilo que nos inquieta. O Teatrão carrega no seu ADN essa inquietude, essa vontade grande de chegar às pessoas e provocar alguma coisa. Faz pouco tempo que terminámos a segunda temporada de uma adaptação do Ricardo III que foi muitíssimo feliz na sua relação com o público de Coimbra e que vai fazer digressão neste ano e no próximo.”

Maria João Luís refere-se ao Teatro da Terra como a concretização de um sonho. “É por isso que fazemos encenações e fazemos estas coisas, e é também por isso que andamos nesta dificuldade permanente de procurar melhores condições. Quando sonhei fazer isto, que começou por um projeto que tinha que ver com uma saída de Lisboa, foi com o objetivo de trazer um teatro profissional para o interior! Fazer produções como se tivesses um teatro em Lisboa, com três produções por ano e com trabalhos também com a comunidade aqui em Ponte-de-Sor e com as escola. Durante estes dez anos, fizemos variadíssimas ações de dinamização. Inclusivamente demos aulas nas escolas e fizemos workshops. Tínhamos alunos de Abrantes que também vinham aqui finalizar os seus trabalhos e cursos. Este projeto parte sobretudo do sonho de viver também com a minha família fora de Lisboa, embora sempre tenha vivido no campo…, mas queria sair daquele circuito – até do circuito artístico –, da cidade. A minha companhia ficar em Lisboa não era para mim uma coisa muito motivante. Senti que fazia mais sentido fazer então o meu trabalho num outro sítio, trazendo também a minha família para uma zona absolutamente rural. Encontrámos um monte perto de Ponte-de-Sor e depois olhámos para um teatro nesta localidade e pensámos: vamos criar coisas aqui! Vamos propor isto ao presidente da Câmara. Não há uma companhia de teatro, portanto vamos propor isto ao presidente da câmara, vamos tentar! Foi logo aceite a proposta e estamos aqui há dez anos!”

Tânia Leonardo, natural das Caldas da Rainha, onde se situa a associação que dirige, explica-nos que o Teatro da Pessoa – Partilha e Intervenção Cultural, “surge no contexto do laboratório que foi realizado em 2013. Um laboratório de Teatro para alunos que estavam a estudar teatro nas Caldas da Rainha, nomeadamente na ESAD. Alguns desses alunos já estavam comigo desde os seis anos. Desse laboratório nasceu um núcleo de mulheres – curiosamente e ainda bem. O nosso trabalho funciona com os ateliers de expressão dramática para todas as idades, não no intuito de criar artistas, mas sim no intuito de apoiar o desenvolvimento de um ser humano.” Refere-nos que, “Ana Sequeira, vice-presidente da associação, apresentou o projeto ao OPJ, (Orçamento participativo Jovem), em 2018, e venceu. Este é um projeto que contempla a criação de um espaço com estúdios de trabalho, com uma sala de espetáculos, com bibliotecas artísticas de consulta, uma loja social – troca por troca – e galeria de exposições. Estamos agora em fase de concretização e de começar a implementar o projeto paralelamente com os ministérios e com IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude). É daí que vem esse apoio. Desenvolvemos uma metodologia que chama: a Metodologia da Partilha – O Princípio da Verdade. É um processo sempre em crescimento e é um documento sempre em atualização mediante os estudos e as comprovações que eu vou tendo todos os anos”.

 

Por Pedro Sousa Loureiro

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