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Renate Graf, do pensamento à imagem

Renate Graf apresenta a sua primeira exposição em Lisboa, The Photographer’s chronicles: thoughts become images 1992 | 2019, um arquivo das imagens da fotógrafa das últimas três décadas. O seu trabalho configura-se como um processo contínuo de documentação das suas viagens, nomeadamente Itália, França, Marrocos, EUA, India, entre outros.

Através da fotografia a preto e branco, Renate apresenta-nos um trabalho de recolha, pesquisa e de sucessivos mapeamentos de uma natureza antropológica. É um processo do início ao fim; é um testemunho de vários espaços, de várias culturas. As suas imagens são documentos de uma realidade concreta e abstracta em simultâneo, do diálogo constante entre sagrado e profano. Estão intimamente ligadas ao seu próprio entendimento do mundo, reflectem um percurso intimista e pessoal.

Renate não se considera uma fotógrafa no seu sentido clássico, mas sim uma viajante que capta com a sua câmara o “aqui” e o “agora” desses vários espaços e momentos que percorre. A sua fotografia recorre a métodos artesanais, que se assumem como um ponto fulcral da estéticas das suas imagens. Tem um forte carácter editorial, no sentido em que o livro se materializa como uma continuação do pensamento e do acto instantâneo de fotografar. A imagem fotográfica interliga-se ao texto, estas duas compõem-se em livro. Nem o texto se assume como legenda da imagem, nem a imagem como ilustração do texto. Existe uma presença maior, uma simbiose dos dois que cria uma nova interpretação, uma nova linguagem. Em conversa no Palácio Anjos, onde decorre a exposição, a autora fala sobre o seu percurso e trabalho, sobre a exposição e sobre o que virá a seguir.

 

Diogo Ramalho – Começando pelo início do seu trabalho, como surgiu a Fotografia?

Renate Graf – Comecei por estudar Filosofia em Viena, de onde sou, e continuei os meus estudos nos EUA. Entrei no meio artístico simplesmente por trabalhar em galerias ou em revistas.

E parece uma anedota, mas alguém a certa altura ofereceu-me uma pequena Canon, uma câmara automática. Sempre viajei bastante e comecei a tirar fotografias de todas essas minhas viagens. A primeira longa viagem que fiz foi em 1992 ao deserto de Taklamaka, na China. Foi assim que tudo começou. Não segui isto como uma carreira; entendi como uma documentação da vida, como um diário de imagens.

DR – Não se apresenta como uma fotógrafa no sentido clássico. Como se posiciona no mundo da Fotografia e da Arte?

RG – Não, não sou … no entanto tudo é possível hoje. É sempre uma reinterpretação das coisas que se vê ou se faz. Eu sempre gostei do “aqui” e do “agora”, do espírito do momento. O que mais aprecio é a fluidez das coisas, a transparência. Interagir com o “aqui” e o “agora”, com o que está a acontecer no momento.

DR – Os paradigmas da Fotografia estão em mutação, com a internet e as redes sociais. Como vê esse novo lado da fotografia? Existe uma desconexão com esse lado no seu trabalho?

RG – Não muito. Eu acredito na consciência colectiva. Todos nós, europeus, fomos criados na ideia clássica da beleza grega, e de repente, fomos todos catapultados para um mundo em que as nossas referências culturais estão em confronto com um contexto maior. Ao viajar-se com frequência, tornamo-nos cada vez mais conscientes disso. Se estivermos, por exemplo, na Índia, as coisas importantes para nós nada significam lá. Portanto, precisamos encontrar uma linguagem mais unificadora, o que é uma das vantagens reais da internet ou da virtualidade. Quero ser capaz de comunicar com outras culturas usando imagens que eles entendem. Também utilizo estes processos artesanais a preto e branco no meu trabalho, gosto de usá-lo nas minhas imagens, é tudo sobre as minhas viagens, a minha vida e as minhas experiências. E, tal como acontece com qualquer outro artista, isso faz parte da criação do meu próprio mundo. Iniciei este processo há 20 anos atrás e é um medium que resultou.

DR – As fotografias do seu arquivo e da exposição foram tiradas em todo o mundo, mas assiste-se claramente a uma ligação entre todas elas.

RG – Exactamente, é isso que eu procuro. Por exemplo, a Índia tem todas as coisas importantes para mim, o diálogo entre sagrado e profano é extremamente forte. Na nossa cultura, por outro lado, a separação entre os dois é bastante clara. A mim interessa-me quando interferem um com o outro.

[Referindo-se à exposição] No andar de baixo estão todos os templos, e aqui, no andar de cima, as montanhas no Utah, EUA. Eu adoro esta combinação. A montanha poderia ser uma ruína ou um templo, mas é natureza. Interessa-me descontextualizar e mostrar que isto não é assim tão diferente de como construímos os nossos templos, que a natureza pode também ser um edifício sagrado. É tudo a mesma coisa, essa semelhança visual que interliga todas as imagens. Existe uma continuidade.

DR – O livro tem um papel importante no seu corpo de trabalho. Qual a importância para si em pensar, compor e criar estes livros?

RG – O livro é muito importante porque promove na minha cabeça a continuação de uma viagem. Não é apenas uma imagem, mas sim um fluxo contínuo de imagens e de textos. Durante vários anos, eu própria fazia manualmente os livros, ainda no estúdio onde vivia com Anselm Kiefer. Não faço mais isso, ainda é um processo manual, mas feito agora por outras pessoas. O meu próximo projecto será um filme. Ainda não comecei, mas gostaria de fazer um projeto fílmico, viajar um ano e apenas tirar imagens em movimento do que for captando com o olhar. Este projeto que tenho em mente será como os meus livros.

DR – Como é o seu processo criativo?

RG – Não faço nada por um longo período e, de repente, tudo se altera. Posso viajar sem ver nada por dois meses e, depois, tudo muda. Não vou a nenhum lugar especificamente para tirar uma fotografia. Isso ou acontece ou não. Às vezes, nada acontece! É extremamente aleatório. Não sou uma artista que trabalha arduamente, vamos colocar as coisas deste modo, não tenho um estúdio, apenas uma câmara no bolso e os meus pés. Sou uma viajante. Se for à sala com a série de imagens dos fogos de artifício, encontra um óptimo exemplo disto. Houve umas celebrações com fogo de artifício numa pequena vila perto de Noto, na Sicília. Eu levei uma pequena câmara analógica comigo e, de repente, a celebração começa e o céu ficou rapidamente repleto de confetti. Fiquei completamente fascinada por isso. Tirei 200 fotografias em meia hora. O que realmente gosto neste processo é o facto de este ser um processo de tentativa e erro. É uma abordagem diferente que foi explorada durante imenso tempo e, no fundo, o digital é que é recente.

DR – Como foi apresentar esta exposição em Lisboa?

RG – Em termos de corpo de trabalho, esta exposição já tinha sido mostrada anteriomente na China, exactamente como está aqui. Estava pronta quando me foi feita a proposta. Eu estou em Portugal desde 2006, tenho uma casa na Comporta e adoro estar cá. Não passo muito tempo em Lisboa, mas quando este projecto surgiu, foi realmente incrível, porque um dos meus maiores heróis literários é Fernando Pessoa. E é sempre um prazer fazer esta exposição em Portugal. Portugal tem um papel à parte; os portugueses não olham para a Europa, olham para o mar, o que é uma visão muito poética. É um país calmo, tolerante, musical. É um lugar vibrante, que absorve novas energias vindas de outros países. Aqui temos realmente a sensação de confluência de várias energias, completamente diferente da maior parte do resto da Europa.

A exposição Renate Graf – The Photographer’s Chronicles: thoughts become images 1992|2019 é uma colaboração do Município de Oeiras com a Mirat Gallery, a Rui Freire – Fine Art e Tiago Feijoo, e estará patente no Palácio Anjos (Algés) até 29 de dezembro.

 

Por Diogo Ramalho

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