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Entrevista a Ilaria Bonacossa, Diretora da Feira de Arte Artissima

A Umbigo Magazine falou com Ilaria Bonacossa, diretora do Artissima 2019, sobre a feira, os seus objetivos e como o tema deste ano reflete os tempos atuais.

Na sua 26ª edição, a Artissima debruça-se sobre a dicotomia desejo/censura para explorar noções de corpo, tecnologia e permeação entre o pessoal e o político, no cenário artístico experimental e contemporâneo.

 

Myles Francis Browne – A Artissima ficou conhecida pelo seu experimentalismo. De que forma esse lado experimental está refletido nesta edição?

Ilaria Bonacossa – Este ano tentamos também experimentar novos modelos. Os dois projetos especiais Abstract Sex: We don’t have any clothes, only equipment e Artissima Telephone são exposições que apresentam trabalhos emprestados à feira por galerias e também disponíveis para venda. A primeira é uma seleção com curadoria de Guido Costa e Lucrezia Calabrò Visconti; a segunda é um concurso com as galerias participantes na feira: partindo de mais de 40, Vittoria Martini escolheu 23 obras que abordam o tema de diferentes formas.

MFB – A feira opera na dicotomia desejo/censura. O conceito parece oportuno. Quais foram as suas motivações para debater estas ideias?

IB – Senti que a nossa contemporaneidade é marcada por um sentimento de crescente repressão e ansiedade. Existem mais muros fronteiriços agora do que em 1989, quando caiu o Muro de Berlim! Através da arte, o desejo tem muitas vezes forçado as fronteiras dos mecanismos repressivos ou o status quo conservador, abrindo portas para visões inesperadas e epifanias. Esta dicotomia está na base de toda a produção artística, pois o desejo criativo tem de lidar com a autocensura. Sinto que o tema desejo/censura diz muito sobre como consumimos imagens digitais, o que é mostrado e o que é censurado por algoritmos que não conhecemos totalmente.

MFB – Com que frequência a estética transgressiva consegue quebrar tabus? A censura de obras artísticas inibe inevitavelmente esse processo?

IB – As obras mais transgressoras nem sempre revelam o mais importante sobre tabus; como referi, muitas vezes o pessoal torna-se político, e as histórias pessoais podem ser transgressivas na sua honestidade! A arte contemporânea consegue encontrar formas de contornar a censura, muitas vezes permitindo que esta se torne uma forma de comunicação amplificada. Mais problemática é forma como os algoritmos censuram as imagens ou conteúdos apresentados na web, pois não temos conhecimento daquilo que acontece nos bastidores.

MFB – Quais são as relações entre o Telefone e o desejo e o Telefone e a censura encontrada na Artissima Telephone?

IB – Um exemplo bastante interessante é o trabalho de Shadi Habib Allah, que apresenta uma intrincada série de antigos telefones com a tecnologia 2G conectados entre si, na tentativa de mostrar como os beduínos do Sinai se comunicam e trespassam o território egípcio, protegendo os negócios e atividades com um sistema paralelo de informação.

MFB – De que forma é que esta dualidade converge e coalesce através do Telefone?

IB – Os dois trabalhos que melhor representam essa dualidade são Do you like cyber de Emilio Vavarella, onde o artista partilha ficheiros de áudio de bots conversacionais extraídos de uma famosa aplicação – Ashley Madison – que esteve no epicentro de um escândalo. Descobriu-se que os bots respondiam a mensagens de encontros casuais, o que levou o site a ser pirateado. Os bots passaram a atuar sem condicionalismos, desobedecendo às regras do jogo. O segundo trabalho é …Typing de Axel M., sobre um telefone comprado numa feira da ladra que, nos contatos, tinha apenas um número e uma conversa entre Thea e Max, onde partilhavam mensagens íntimas e cenas de nudez, que o artista transpôs para aquarelas….

MFB – O telemóvel, para mim, é um símbolo da globalização. É uma faca de dois gumes – permite uma conectividade imediata, mas ao mesmo tempo também nos isola; conversação, conexão, a passagem do meio interpessoal para um interface. Estas ideias são sustentadas ou desafiadas pelas obras expostas?

IB – Creio que ambas! Alguns trabalhos falam de uma impossibilidade comunicativa, permitindo ao público, por exemplo, espiar uma conversa bastante íntima; outros utilizam esse meio e brincam com as suas especificidades. Por exemplo, no trabalho de Matthew Attard, escutamos notícias sobre mudanças climáticas de diferentes partes do mundo e somos levados a questionar quais são verdadeiras e quais não passam de falsa propaganda. A obra de Cesare Viel é particularmente íntima: o artista tenta ligar para o pai que já não está vivo e a ligação é constantemente interrompida.

MFB – A feira convida a “reflexões sobre o poder da imagem: ambições e utopias contemporâneas; os impulsos que moldam os nossos tempos”. Quais as ambições e impulsos que definem a Artissima 2019?

IB – Sinto que a arte está a pegar na instabilidade e na atual precariedade social e política. Isso nem sempre implica uma produção negativa ou pessimista, mas sim um questionamento do status quo. Outras obras parecem entrar no abstracionismo, fugindo à política e à vida social que as cercam. Materiais tradicionais como mármore, bronze ou o desenho estão no centro das reflexões dos artistas; já a revolução do telefone digital questiona quem é o fotógrafo e o papel deste na sociedade.

MFB – A Ilaria estratifica o desejo como um espaço liminar entre “o corpo e a sociedade”. Quais são as consequências, nas obras expostas na Artissima, deste estado de existência na sociedade contemporânea?

IB – O ser-se objeto de pensamento e não somente um item da cultura de consumo é um estatuo específico das obras contemporâneas, que exige compreensão para ser valorizado… quando nos deparamos com uma obra de arte, somos colocados na posição de corpos que atuam e desejam na nossa sociedade.

 

Artissima 2019 decorre de 1 a 3 de novembro, na Oval, Turim, Itália.

Myles Francis Browne é jornalista e escritor de arte. Original de Londres, vive agora em Lisboa. Já trabalhou para publicações como Nicotina, TANK e Vogue Portugal. Atualmente escreve para a Umbigo Magazine.

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