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Bergen Assembly 2019

As bienais são o fenómeno mais importante e interessante na história da arte contemporânea. Depois da Bienal de Veneza, muitos outros modelos mais ou menos semelhantes foram ensaiados, propondo novas geografias, conceitos e modos de trabalhar a arte, a história, a política e as comunidades. De tal forma que muitas bienais se tornaram instituições.

E tendo em conta o quadro de neoliberalização e capitalização das instituições, ditado pela modernidade e pelas políticas globais, as bienais viraram grandes corporações.

Depois disto, refere a crítica institucional que as bienais – ou grande parte delas – constituem máquinas de normalização cultural: programas talhados em prol do mediatismo; obras, nomes e práticas coniventes com os fluxos sibilinos dos mercados da arte; hegemonização e formas de promover ou perpetuar práticas coloniais ou neocoloniais; o peso político nacional na escolha de certos nomes, comprometendo a necessária autonomia das direções e das equipas de curadoria; etc. Ou seja, aparentemente, e dada a complexidade dos sistemas e das forças democráticas e menos democráticas, as bienais parecem obedecer a programas cada vez mais previsíveis, espartilhados entre as vontades políticas alheias e a necessidade de mostrar resultados objetivos.

Mas esse não parece ser o caso de Bergen Assembly.

Apesar de ser a segunda maior cidade da Noruega, Bergen é uma localidade discreta, desenhada e desenvolvida entre um agradável fiorde. A poente, um mar gelado imenso; a nascente, montanhas verdes e densas que se precipitam num céu frequentemente cinzento e chuvoso. A perpendicularidade das ruas em relação à água são manifesto de um urbanismo que se fez em estreito diálogo com o mar e as atividades marítimas. Bergen, como muitas outras cidades costeiras da Noruega, é indissociável do mar e das míticas e lendárias viagens Viking; é um porto de embarques e desembarques, indiferente à diferença e atento ao exterior, pois que durante séculos acolheu e hospedou estrangeiros e forasteiros e, agora, curiosos e turistas.

A Bergen Assembly espelha esta mundividência de Bergen e constitui uma síntese da capacidade concetual e democrática dos noruegueses em abordar temas atuais, sinuosos, mesmo que coloquem em evidência as contradições e as insuficiências das políticas nacionais ou, lato sensu, das políticas ocidentais. A Bergen Assembly é, deste modo, um projeto crítico, que exclui o termo bienal do seu vocabulário em prol de outro, mais inclusivo e reconhecível, a Assembleia. Dito isto, a Assembleia de Bergen é uma contra-assembleia ao conceber as suas próprias estruturas fundadas no diálogo, no debate, na discussão pública, mas com a arte e a comunidade global como pontos de partida. Na verdade, não é possível identificar um único artista norueguês isoladamente. Esta é uma Assembleia múltipla, transnacional, que prefere os meandros da cosmopolítica – mais complexos, contraditórios e miríficos – aos da simples política. E a horizontalidade sucede-se à verticalidade: há diretores e curadores (Hans D. Christ e Iris Dressler), mas sobre esses não incidem os focos principais. Todas as decisões passam por um grupo constituído, entre outros, por Paul B. Preciado, Pedro G. Romero, Emma Wolukau-Wanambwa, Simon Sheik, Murat Deha Boduroglu, etc.. – todos eles com percursos notáveis na filosofia, nas artes, na curadoria, alguns com passagens pela Manifesta ou pela Documenta.

Actually, the Dead Are Not Dead é o mote da terceira edição da Bergen Assembly. Não é, contudo, sobre a morte; é antes sim sobre a vida e a celebração da vida, do que tem de maravilhoso e trágico, de caótico e linear, de ambíguo e objetivo. Os mortos não estão mortos porque são chamados também à vida, num multiverso de possibilidades, caminhos e seres, de ensinamentos, estórias e histórias, legados e batalhas que são aqui retomados e debatidos.

Nos vários espaços expositivos são muitos os ensaios e projetos que se debruçam sobre as imensas insuficiências das políticas neoliberais e capitalistas. Das teorias marxistas às teorias pós-marxistas, a esquerda é exercitada e explorada em campos pouco discutidos no quotidiano. Em todas as obras há uma dimensão de combate, de resistência. Mas se há algo que tece uma rede comum entre obras, artistas e pensadores presentes na Bergen Assembly é uma espécie de epistemologia – filosofia se quisermos ser mais ousados e abrangentes – “trans”: transgressiva, transexual, transitória, transformadora, transnacional. De facto, é aqui que reside a grande originalidade e força deste evento.

Estruturada em sete grandes programas, a Bergen Assembly não é apenas uma bienal de arte; é uma bienal de coisas. Se temos as práticas mais antigas do desenho e da gravura, com obras de uma delicadeza e força notáveis por Lorenza Böttner, pelo Capital Drawing Group, Robert Gabris, María Galindo ou Goya, temos também práticas que em nada obedecem ao domínio das artes, como por exemplo o projeto do Feminist Health Care Research Group, um grupo que procurou informar as mulheres alemãs sobre saúde e sexualidade, ou o Feminist Gaming Group, uma reunião de mulheres interessadas nos videojogos que encontram aqui um espaço seguro de discussão e pertença.

As questões do colonialismo são amplamente exploradas em obras e projetos transversais. Tanto no Kode 1 como no Bergen Kjott as velhas narrativas de poder e predação são postas em evidência, não só as que derivam da exploração do continente africano, mas também as que residem no próprio território norueguês, no caso dos Sami. O que se julgava ser um país sem práticas coloniais é aqui rebatido e sublinhado, com a Noruega a alinhar-se pelas velhas narrativas históricas europeias, como, aliás, Emma Wolukau-Wanambwa e os Creator of Oi! – em momentos e circunstâncias diferentes – tão bem trabalharam.

Contudo, é o Parliament of Bodies – reavivado aqui depois da documenta 14 de Kassel e Atenas – o programa mais ousado, radical e democrático de todos os outros. Se nos espaços expositivos é a passividade da observação que comanda, no Parliament of Bodies é a intervenção, a ação, a dança e a performance (a nossa e a dos intervenientes) que contam. Com a curadoria principal de Paul B. Preciado e Viktor Neumann, e a instalação sempre mutável de Andrea Angelidakis, este é um parlamento que discorre sobre identidades, sexualidade, corpos, política, vida, morte, neoliberalismo, capitalismo, sempre com o ritmo da palavra e a presença do corpo. Este é sem dúvida o trunfo e o triunfo da Bergen Assembly.

A Bergen Assembly termina a 10 de novembro.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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