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Cabra Cega, na Balcony Contemporary Art Gallery

Cabra Cega é a exposição que assinala o segundo aniversário da galeria Balcony. Para a ocasião, o artista Tiago Alexandre foi convidado a apresentar um projeto curatorial e fê-lo de maneira curiosa. O momento proporcionado não é tanto de exultação, muito menos de farra, pelo contrário, a exposição é pautada pelo tom misterioso e introspetivo. A decisão é estimulante e parece pôr o tónico no facto de a Balcony ainda/já ter dois anos.

No fim da escadaria que conduz ao andar inferior, a entrada é feita por um buraco rasgado na parede e as regras são estipuladas: o lugar é inóspito, o ambiente é outro que não o da galeria e é a escassa iluminação que impede que o percurso seja verdadeiramente feito “às cegas”. Há caixas de mudanças, de transporte, bustos em barro, pinturas, mobília, ratos – os da artista Sara Mealha, entenda-se –, enfim, um vasto leque de objectos e obras que se fundem entre si, e com o espaço, tornando dúbia a sua interpretação.

Um sótão; um esconderijo redescoberto, forjado ou tomado de assalto; a relação com o jogo infantil que premeia o tacto em detrimento da visão. A indefinição do lugar mantém-nos o tempo todo agarrados à planta da exposição, qual mapa do tesouro em busca pelas obras dos doze artistas, que em silêncio nos observam permanentemente dos bustos em barro, tirados através de moldes, da autoria, do curador e artista, Tiago Alexandre.

Cabra Cega é um momento bastante singular. A própria escolha das peças acentua o facto de esta não ser uma exposição coletiva para dar a conhecer a produção dos artistas em causa – para tal houve e haverá outras ocasiões. Neste caso, os trabalhos expostos apontam para uma direção concreta, pretendida pelo curador, notoriamente baseada no íntimo conhecimento do trabalho de cada um dos seus convidados.

O deslocamento espacial e a profusão de materiais de diferentes tipologias – lembrando o trabalho curatorial de Paulo Mendes, por exemplo – ocorre dentro da própria galeria, dando seguimento às sucessivas manipulações a que esta tem estado disposta, desde o seu início, em função das especificidades de cada exposição e de cada artista.

É, portanto, difícil falar da presente exposição sem estabelecer o devido paralelismo com a própria trajetória da jovem galeria, que parece procurar a sobriedade de um rumo, na irreverência e no arrojo das propostas apresentadas. Essa visão talvez seja um dos motivos da clarividência desta exposição, que reúne algumas e alguns das/os grandes responsáveis pela continua construção da galeria ao longo dos últimos dois anos – Ana Vidigal, Binelde Hyrcan, DeAlmeida eSilva, Fernão Cruz, Horácio Frutuoso, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Nikolai Nekh, Nuno Nunes-Ferreira, Sara Mealha, Tiago Alexandre e Vera Mota.

Até dia 17 de novembro, na Balcony Contemporary Art Gallery.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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