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Em conversa com Róisín Murphy

A importância de Róisín Murphy na música eletrónica contemporânea, bem como a relevância da poesia das suas letras. Palavra a palavra.

A exuberante e disruptiva Roísín Murphy passou por Lisboa, dando um concerto integrado na programação do Lisb-on. Uma performance monumental, teatral, onde cada movimento se prolongava no tempo e no espaço com toda a atmosfera criada pelo festival. Cada movimento e beat da sua música, acompanhada pelos seus músicos, estava preparado ao detalhe para depois se intersectar e atingir qualquer um de nós, das mais variadas formas. A dilatação do tempo de presença em cena é qualquer coisa de espetacular, uma espécie de  “novo mundo” que a própria constrói, a partir do qual estamos, todos, inseridos.

Mudanças de roupa rápidas numa sucessão de acontecimentos e ações levadas até ao limite, como fez por exemplo com um boneco prateado, a imitar a figura humana, mais ou menos à sua escala, repetindo um movimento circular, durante (quase) quatro minutos.

A Umbigo entrevistou-a uns dias antes, procurando saber quais as suas referências dentro do universo das artes plásticas, tentando esmiuçar o processo de construção da sua escrita e como ela se intersecta no contexto social em que vivemos.

 

Pedro Sousa Loureiro – Quero dar-te os parabéns pelo teu percurso e pela teatralidade das tuas performances. Como as constróis e qual a tua relação com o público?

Róisín Murphy – Não tenho essa consciência, especialmente porque nunca começo um projeto com um grande orçamento. São ideias simples, começando com a música. Cada álbum ou época, se assim quiseres chamar, dá-te uma sensibilidade estética a partir da música.

PSL – Qual o teu mapa de referências, no que toca a artistas plásticos?

RM – Bem, a Cindy Sherman foi uma grande influência para mim quando adolescente. Foi bom ver uma mulher a celebrar e a usar esse tipo de arquétipos femininos e transformá-los numa espécie de playground, que em vez de um negativo… Quer dizer, é uma atitude muito pós-feminista, onde recolhes as coisas que podem ser negativas e torná-las positivas. Não fui só eu influenciada dessa forma. Acho que muitas pop stars provavelmente deviam estar agradecidas à Cindy Sherman por esse tipo de abertura ao desejo de todas as raparigas mais jovens, e aproveitar e interpretar os seus arquétipos femininos sem se sentirem restringidas.

PSL Por exemplo numa das tuas letras (canto para ela um excerto da música ao telefone): “Got to find somebody, but there’s nobody, to love me” da era Moloko, tinhas consciência da forma como isso iria chegar às pessoas? Faz parte de um leque de musicas intemporais que criaste…

RM – Não tenho a certeza de quantas músicas eu escrevi, talvez cerca de 100 tenham já sido publicadas. Talvez mais. Depende do mood em que estou. Não estou propriamente a pensar como me conectar com o público. Como aconteceu com a última música Incapable. Nunca sonhei que tantas pessoas se conectassem com esta letra “desconectada”. (Risos) Surpreende-me que seja algo com o qual as pessoas se conectem. O mundo é muito egoísta nos dias que correm.

PSL – Demasiado…

RM – Muito narcisista. Não que eu escreva para o público. Tu escreves sobre o que está no teu coração, no momento.

PSL – Quando começo a ouvir musicas tuas é como se o tempo parasse. É mágico.

RM – Obrigado. Digo-te. Não escrevo sobre não precisar de um homem, sobre ser uma mulher independente ou sobre muitas coisas que ouves hoje dia. Não gosto disso. Gosto de escrever a partir de um “espaço inseguro”, sem muita certeza de mim própria. Gosto da área “cinzenta” (referindo-se ao intermédio entre preto e branco como se tudo se situasse só nessas fronteiras) entre as coisas que digo.

PSL – Fora da tua zona de conforto!?

RM – Sim, nem eu consigo ter a certeza absoluta, às vezes estou a escrever uma música e nem sei se é sobre mim, e às vezes anos depois posso estar a cantá-la no palco e aí começa a significar algo para mim. Soa pretensioso, mas as músicas, na melhor das hipóteses, são melhores quando tu és artisticamente criativo. O que tu crias vem através de ti, quase que não és tu.  É como se tudo viesse à tua cabeça e depois segue a partir da tua voz.

PSL Ficcionas a partir do lado biográfico, na tua escrita?

RM – Sim, é uma mistura entre biográfico e fictício. É como se eu nem soubesse onde a ficção e a biografia começam e vice-versa, e esse é o tipo de “lugar”. Se eu chegar a esse “sítio”, sinto que estou a ir bem.

PSL – Quando ouves alguma músicas que escreveste no passado, pensas algo do género: “que sítio diferente este em que eu estava”?

RM – Sim, mas também como já te disse, como  é que ele pode conectar-se agora ?! Algo que escrevi há vinte anos ou dez anos atrás conecta-se de uma maneira diferente agora. De uma maneira que eu ainda não conseguia entender completamente. Parece tonto.

PSL – De todo. É uma questão bastante relevante sobre a contemporaneidade, uma obra mais ou menos datada pode conectar mais contigo do que algo que se tenha criado ontem ou anteontem.

RM – Por exemplo, “Got to find me somebody… to love me” [referindo-se a Forever More da Era Moloko]. Talvez quando a escrevi, tivesse então alguém para amar. Sim, é bom estar num lugar onde há tantas músicas em “catálogo” que é quase como uma pequena (nova?) linguagem.

PSL – Sentes a necessidade, ao repetir as musicas de concerto para concerto, de o fazer de diferentes maneiras?

RM – Não propriamente. Uma música tem o seu lugar, que conheces musicalmente na tua voz. Forever More assenta confortavelmente num determinado lugar na voz.

PSL – É difícil conectar com “o outro”? A música foi a forma que encontraste para te conectares com os outros?

RM – A música é um óptimo conector, provavelmente o melhor de todos. É tão universal, muito mais do que artes plásticas. É elementar como o ar ou algo do género. É muito universal e a música é algo muito especial. Isto parece tão óbvio de se dizer, mas toda a gente precisa de música, todas as outras pessoas criativas precisam de música. Um pintor tem que ter música, ou falas com um cineasta, e vão-te dizer: “a música dá vida aos meus filmes.” Toda esta caminhada que é a vida, precisa de música! Não há ninguém neste planeta que não seja afetado pela música, é elementar.

PSL – Foi um prazer falar contigo, Róisín. Desejo-te o melhor na continuação da tua criação. As tuas letras revelam a tua poesia, faz-nos sentir vivos e mais humanos, mesmo que a vida esteja por vezes condicionada pelas velocidades e ritmos sociais de cada um, com todos os seus paradoxos e complexidades.

RM – Obrigado, também gostei imenso de conversar contigo.

 

Por Pedro Sousa Loureiro

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