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Francisco Osório: 3 Fragmentos

Francisco Osório nasceu em 1987 em Lisboa, estudou arquitetura, desenho, pintura e fotografia entre Portugal, Itália e Reino Unido. Da reunião destas diversas disciplinas surge um trabalho que assenta num processo experimental de recolha, de catalogação e de representação do espaço e dos objetos que o materializam. O artista apresenta a sua próxima exposição individual Along The Line And Out, no Espaço Real, Lisboa, com curadoria de Diogo Ramalho.

Este texto resulta de uma conversa informal entre artista e curador e materializa-se em três fragmentos. Reescritos ainda na primeira pessoa, configuram-se como imagens do percurso e do trabalho do artista.

 

I – O espaço, a arquitetura e uma cidade desconhecida

(espacialidade e experimentação)

Sempre tive uma relação forte com o espaço. E penso que foi na tentativa de o conseguir manipular que segui arquitetura. No entanto, sempre hesitei entre esta e as artes plásticas. Olhando agora para trás, chego à conclusão de ter estado num limbo entre as duas até me ter mudado para Londres. Entrar na Chelsea College of Arts, em 2015, foi o início de um processo contínuo de crescimento e o meu trabalho atual surgiu daí. Ao contrário do que teria alguma vez imaginado, foi lá que comecei a explorar todas as técnicas e suportes que me eram apresentados. Isto fez-me questionar uma diversidade de elementos e repensá-los de outros modos. Foi um período de transformação. De um momento para o outro, dei por mim a viver lá, rodeado por todo um conjunto de novos códigos de uma cidade que eu praticamente desconhecia. Tudo me chamava a atenção, e queria apoderar-me rapidamente de tudo aquilo que via.

Comecei espontaneamente com o telemóvel e logo de seguida a querer captar de outras formas todas aquelas composições que me eram em nada familiares. Foi aí que surgiu a fotografia no meu trabalho.

 

IIUma mesa, uma banheira, uma gaiola de pássaros

(metodologia de trabalho e arquivo)

Sempre tive uma relação forte com os objetos. Recolho vários objetos que vou encontrando na rua e levo-os comigo para o atelier. Disponho-os em estantes ou espalho-os no chão. Imagino que eles estão lá a conversar uns com os outros. Peso-os, fotografo-os, crio-lhes uma ficha e arquivo-os. Deixo-os a repousar, a olhar uns para os outros e saio. Depois, há um dia em que entro de novo e interajo com eles, de forma espontânea, agrupo-os e dou-lhes novas interpretações. Sinto, a partir daí, que podem ir parar às mãos de outra pessoa, que já cumpriram o seu papel e que a minha ação sobre eles está terminada. Gosto da ideia de que os objetos circulam, que deles reste a ação que tive sobre eles. De onde surgiu este fascínio pelos objetos? Penso que tudo começou quando era pequeno, na cave dos meus avós. Em todas as séries do meu trabalho retorno àquela cave, e encontro sempre lá qualquer coisa: uma mesa, uma banheira, uma gaiola de pássaros.

 

III‘Along The Line And Out’

(multidisciplinaridade e exposição)

Sempre tive uma relação forte com aquela piscina. Recentemente voltei àquele espaço, às piscinas onde aprendi a nadar. Fui-me deparar com um espaço completamente abandonado. Lembro-me de pensar que há uns anos era pequeno, estava lá a aprender a nadar e tudo era perfeito, tinha tudo pela frente, e agora, de repente, já nada era igual. Vi ali uma necessidade de observar, de captar, de me apropriar de novo daquele espaço.

O meu foco não é no retrato do espaço que ali está, mas sim na forma como ele me permite chegar a novos entendimentos, a um outro mundo. A descontextualização que crio é o que me interessa, é a possibilidade de chegar a novas perguntas. Os vários media que utilizo sobrepõem-se e complementam-se. À crueza do espaço na fotografia, acrescenta-se a ação performativa no vídeo e, por outro lado, a pintura abre outros caminhos para uma maior abstração, funciona como uma libertação.

 

A exposição Along The Line And Out encontra-se patente no Espaço Real, em Lisboa, de 19 de setembro a 19 de outubro.

 

Por Diogo Ramalho

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