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Entrevista a José Taborda

Numa tarde do mês de agosto o José Taborda recebeu-me no seu ateliê. Falámos sobre trabalho, motivações e a exposição que vai inaugurar no dia 12 de setembro Elástico, na Zaratan; enquanto conversávamos, as obras repousavam à nossa frente, à espera de serem finalizadas.

Francisco Correira – Concluíste a licenciatura em pintura na FBAUL mas curiosamente o teu trabalho desde cedo enveredou por outros géneros artísticos como a fotografia, o vídeo ou a instalação. Ainda assim, pensas haver algum “vestígio” dessa tua formação no modo como pensas e concebes as tuas peças?

José Taborda – A experimentação de outros meios, como o vídeo e o som foi bastante natural. Independentemente do género artístico, ou do suporte, há sempre algo que se quer dizer, para mim, o importante é dizê-lo do modo que mais me entusiasme, e não através de um material específico. Por isso, simplesmente senti a necessidade de alargar o leque de meios através dos quais tento transpor as minhas ideias.

FC – Referiste a relevância da “ideia” na conceção dos teus trabalhos. Além da materialização dos objetos, as ideias que lhes são adjacentes parecem-me igualmente visuais e funcionam como elemento provocador que interpela quem vê. Para tal apelas a um imaginário abrangente e atual.

JT – Exato, muitas das peças que faço são pensadas para que sejam tentativas de interpelar as pessoas e provocá-las. Sobretudo porque não me identifico com muitos dos caminhos que a arte atualmente toma, revelando falta de originalidade pela repetição de trilhos vezes sem conta e distanciando-se bastante o público. Pessoalmente considero importante que todos – mais ou menos habituados a lidar com arte, com ou sem formação – sejam capazes de retirar algo das peças que faço.

A provocação permite estimular uma reação genuína por parte de quem vê, daí a utilização de elementos com os quais convivemos no dia-a-dia, pois a nossa relação com eles é direta e muitas vezes tão familiar que nem a questionamos.

FC – Vários dos trabalhos que apresentaste recentemente jogavam com a utilização de elementos digitais e objetos encontrados, ou por ti intervencionados. Interessa-te explorar a fricção resultante desse encontro entre materiais com diferentes graus de sofisticação ou não fazes sequer essa distinção?

JT – O fundamental é perceber o melhor modo para exprimir uma ideia, tendo em conta a quantidade infindável de tecnologias que temos hoje à nossa disposição – somos privilegiados nesse aspeto e por isso tento estar atento a todo o tipo de materiais e técnicas novas.

Daí não considero que exista uma separação entre os meus trabalhos mais e menos digitais, todos eles fazem parte da mesma forma de conceber as ideias que tenho. Há elementos que desenvolvo especificamente e outros que me suscitam tanta curiosidade que tenho de os ter; ou ter 10 iguais; talvez tenham de ser 50! É uma necessidade estranha de materializar, sob que forma for, coisas que me fascinam. E o meu trabalho é também sobre isso: acentuar o quão diversas e fascinantes são as coisas que habitualmente nos rodeiam.

FC – Em setembro inaugura na Zaratan a tua nova exposição, Elástico. Como podes defini-la?

JT – A exposição será uma continuação, no que toca ao universo temático que tenho abordado. Será composta por um conjunto de obras inéditas, que queria realizar há bastante tempo. Foi muito bom poder passar tempo no ateliê a trabalhar neste projeto.

FC – Estas peças, pelo carácter identificável e pela sua escala, estabelecem todas uma tensão entre objeto pseudo-utilitário e objeto escultórico. É algo que te interessa?

JT – A escala para mim é algo bastante importante, precisamente por ser uma ferramenta de identificação de formas. Interessa-me explorar alterações subtis que sejam capazes de transpor para outros sítios os tais objetos mundanos. Se eu aumentar vinte vezes um determinado objeto, essa diferença de escala passará a ser o ponto principal da peça e todas as outras ideias seriam ofuscadas. Interessa-me um equilíbrio entre o lado estético e o sensorial. Tento que um não desregule o outro. É sem dúvida um dos aspetos mais desafiantes durante a elaboração das obras.

FC – As características do espaço da Zaratan acabaram por ser determinantes na conceção das peças que irás mostrar?

JT – Devo ter centenas, ou milhares, de peças que quero realizar, por isso o espaço, dadas as suas características particulares, acabou por ter alguma preponderância, tal como a relação entre o conjunto, uma vez que, como já referi, as peças foram feitas propositadamente para esta exposição. No entanto, no decorrer do processo vão sofrendo alterações e surgem as tais relações entre si e com o espaço que requerem alguns ajustes.

FC – Aquando da licenciatura, estiveste também na Bauhaus em Weimar, na Alemanha. O teu percurso por lá abriu-te portas para que continues a expor no estrangeiro. Enquanto jovem e artista, em Portugal, como te colocas em relação à quantidade de oportunidades que surgem fora do país? 

JT – Acho que atualmente é formidável a possibilidade de estar em permanente contacto com pessoas de outros países. Quando exponho em Berlim ou Erfurt, por exemplo, o meu trabalho chega a pessoas com outro tipo de mentalidade e foi bastante curioso perceber que por vezes o próprio contexto ou a situação do país influenciam o modo como as pessoas o interpretam.

Por agora espero manter o meu ateliê aqui em Portugal e simultaneamente estar ligado a projetos lá fora. Portugal tem a particularidade de ter uma população relativamente pequena, logo o público também é inevitavelmente reduzido, no entanto, é incrivelmente atento e interessado. Penso que é saudável para os jovens artistas explorarem novos sítios e oportunidades, pois é fulcral para que possam manter processos de constante auto-reinvenção.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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