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Visionary Writing, a celebração da vida e obra de Antonio Lopez

“It’s all there—all through history we’ve been there; but we have to claim it, and identify who was in it, and articulate what’s in our minds and hearts and all our creative contributions to this earth.”

Larry Kramer, The Normal Heart (1985)

 

A história mal contada do mundo da moda é que deve muito – se não tudo – aos homossexuais. Deve a ousadia, o talento e o artifício; deve a graciosidade e o grotesco, a força e a fragilidade, a sedução e o desprezo; deve a saturação, as festas, a celebração da vida e a mágoa da morte.

Apesar dos seus muitos talentos, os estilistas e designers hétero não tinham a seu favor a marca da flamboyance. Não tinham (têm) o cromossoma fictício do género fluido, ou do género sem género. Não têm o exagero nem a desmesura que agitam a imaginação das formas e das cores em modos que poucos compreendem.

A moda é o território dos gays: um lugar de aceitação, de descoberta e autodescoberta, de libertação, de delírio nas épocas em que o delírio colheu e ceifou posteriormente. A SIDA matou muitos antes atingirem aa plena maturação; interrompeu a vida de muitos que não chegaram a ser.

Em armários de roupas que não significavam solidão e amargura, aqui os gays são o que durante tempos imensos esconderam. A moda escancarou, certamente num jeito menos vocal e objetivo que as palavras de Harvey Milk, ou as lutas violentas de Stonewall, as portas do armário global, para mostrar ao mundo a beleza das suas criações.

Dos costureiros aos designers, dos modelos aos fotógrafos, dos estilistas aos artesãos, a moda foi, e continua a ser, o lugar de todas e todos, o lugar da inclusão. É claro que se neoliberalizou. É claro que tudo isso é apenas possível numa franja da população mundial, endinheirada e com contactos. Mas a moda, desprovida dessa máquina que a governa, é apenas e tão só uma arte de fazer, de ornamentar corpos, sejam eles quais forem, de onde forem, em que circunstâncias estejam. A moda, outra coisa por dizê-lo com clareza, é o desejo e o sonho tornados materiais, objetos.

Mas a máquina é vasta e tentacular e um agente isolado pouco consegue se não tiver uma entourage por trás a apoiá-lo: financiadores, aduladores de ego e, claro, revistas e editores que promovem e divulgam o trabalho em várias plataformas. E esse lado é pouco mostrado nas muitas exposições que se têm organizado em torno do tema.

Antonio Lopez (1943-1987) foi um célebre ilustrador porto-riquenho cujo talento foi dado a conhecer mediante revistas e essa arte tão frequentemente esquecida como a ilustração. No auge da sua carreira, os anos 60 e 70, a ilustração, sobretudo na moda, não era tida como uma arte menor, literalizante, de tornar objetivo e figurado o que era suposto manter subjetivo e sugestivo. Na moda, a ilustração era uma forma de escrita ou, alternativamente, de tradução de formas, gestos, jeitos e movimentos que, ou serviam de memória, ou serviam de expositor imediato de um léxico que nem todos dominavam. Antonio Lopez sabia-o e devotou toda a sua vida a essa prática, trabalhando no nicho das publicações de revistas.

Então, o mercado publicitário e das publicações prosperava. Vogue, Harper’s Bazaar, Elle, Interview e The New York Times, revistas de referência em todo o mundo, outlets de conhecimento, arte, prazer e lazer que criaram e fizeram indústria. Foi aqui, nestes suportes aparentemente caducos, descartáveis e datáveis, que Antonio Lopez criou portefólio e foi com eles que alcançou o interesse de grandes nomes da moda, da arte e da cultura americana. Foi neles que formou e criou gostos, com os seus traços limpos e precisos, numa elementaridade que era em tudo enganadora.

Visionary Writing é a exposição que reúne parte desse portefólio e expõe vários desenhos e fotografias que celebram a sua obra, mas também a sua vida. Há, de facto, uma verve celebrativa, delirante, que perpassa por entre as polaroids, as ilustrações e os esquiços. Não são apenas os corpos: são os corpos e o seu comportamento no espaço e no tempo, a cadência do andar, o movimento, os maneirismos identitários – a pose. Lopez não escreveu apenas a vida através dos seus registos. Escreveu também uma vivência e um modo de estar característicos de uma elite e de uma franja da população que, quando não é vilipendiada, é esquecida. A cultura queer e LGBT está aqui em pleno. Os retratos de Divine são exuberantes como a personagem; Jean-Charles a imitar Mae West é a personificação do trash e do drag; e, depois, claro, a elite da moda, da pop e da disco, como Grace Jones, Andy Warhol, Karl Lagerfeld, entre muitos outros.

E não obstante a trágica morte aos 44 anos (muito mais teria para dar), não há dúvida que Antonio Lopez viveu a vida na plenitude possível, rodeado do que amava, lesto como os traços que desenhava, com o poder e a bravura dos vários stilletos com que a exposição nos brinda inicialmente. E qualquer leitura que se faça do seu legado, jamais poderá ser separada da sua vida e da sua identidade.

Visionary Writing, no Centro Cultural de Cascais – Fundação D. Luís I, até 12 de outubro.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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