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Délio Jasse mostra o lado oculto da fotografia

A convite de Susan Bright, comissária da exposição PhotoEspanha 2019, Délio Jasse colaborou com outros artistas, procurando inspiração nas tradições e ideias artísticas do passado. O objetivo da curadora foi mostrar trabalhos relevantes no presente, capazes de demonstrar a “deslocação e a mudança da forma como hoje se entende e utiliza a fotografia. Ela sugere a quem as observe que se debrucem mais sobre o mecanismo como atuam as fotografias do que propriamente sobre o que aparece na superfície.

Susan caracteriza de forma expressiva o trabalho de Jasse: “mostra-nos que a memória não é interessante por aquilo que nos conta, mas por aquilo que nos oculta. Além disso, o artista tem explorado a temática da colonização/descolonização através da fotografia como arquivo de memória, mas com o intuito de desenvolver leituras contemporâneas viradas para o futuro através do suporte da fotografia, criando instalações peculiares, na maior parte das vezes envolvidas em espaços cenográficos sempre diferentes, que convidam o observador a um outro tipo de apreensão da imagem.

No conjunto aqui apresentado, O Outro Capítulo [The Other Chapter] misturou vários processos e utilizou os negativos das fotografias, oferecendo-lhe uma nova vida. Nesta série, as imagens trazem anotações: carimbos, vistos, autorizações em cores vistosas, marca e técnica, aliás, do seu estilo que faz parte da sua escrita. Nesse espaço expositivo vêm-se grandes impressões feitas a partir de uma centena de diapositivos adquiridos na Feira da Ladra, em Lisboa, que reproduzem uma panóplia de cenas do quotidiano. Essas imagens escondem algo e tornam-se até mais importantes do que aquilo que mostram, ao utilizarem uma espécie de estratégia para confrontá-las com o seu próprio contexto com o objetivo de as potenciar.

“Interessa-me contar a história de outra maneira. Tenho de entrar na vida das pessoas. No meu estúdio, tenho de estar meses e meses rodeado por elas”, Délio Jasse

Ele cultiva, assim, a fase do processo de criação de imagens, num mecanismo singular de não revelar apenas o resultado final, alargando o campo visual à discussão. “Não me interessa fazer impressões de imagens antigas. Há mais coisas por trás que eu próprio não conheço, nem sei interpretar”, refere.

A mostra é constituída por projetores de slides espalhados pela sala, que disparam imagens incessantemente para criar sobreposições que dão corpo à série Nova Lisboa, a partir de um espólio de dispositivos captados no tempo do colonialismo em Angola e Moçambique. Nesse amontoado de fotografias estão representados bairros que simulam montanhas de chapas de zinco, prédios em ruínas, casas modernistas prestes a serem demolidas, para no seu lugar serem construídos edifícios com financiamentos vindos de outros Países, naquilo que o criador entende como uma nova forma de colonialismo.

As fotografias desse período histórico tentam esconder a vida da maioria das pessoas de Angola e Moçambique. Na verdade, hoje a “bolha é a mesma, só mudou o tempo e a atitude.

O autor retoma um dos eixos fundamentais da sua obra anterior no questionamento do arquivo enquanto mecanismo de formação de imagens, questiona a sua natureza, sublinhando as discrepâncias entre a história e a memória, num discurso político/sociológico.

Jasse é um dos artistas atuais que abrange um vasto leque de nomes, que tem vindo a investigar a imagética colonial e a infinitude de questões relacionadas com esta problemática. Para Délio será necessário fazer reflexões sobre o apagamento da imagem de africanos na imagética colonial portuguesa, evidenciando a sua presença sempre escondida. Segundo o artista, “a fotografia não é objetiva e muitas vezes é mais importante o olhar de quem fotografa do que o objeto fotografado. A imagem coloca-se assim num espaço que nem é completamente real nem fictício, nem realidade nem memória”.

 

Délio Jasse foi um dos três finalistas do Prémio BESPHOTO em 2014, no qual apresentou dois ciclos: Ausência Permanente e Além-mar. Nesse mesmo ano, fez uma exposição individual Terreno Ocupado, no espaço da Galeria Baginski. Presentemente encontra-se a viver e a trabalhar em Milão.

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.

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