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Servitudes – Circuits (Interpassivities), de Jesper Just

A sala oval do MAAT é, à semelhança do que acontece em variados museus europeus, uma sala mais dedicada à experimentação, ou seja, a trabalhos artísticos que não se adequam a salas mais comuns ou que necessitam de tal transfiguração, que seja necessário criar barreiras. É o que acontece nesta sala oval, já de si pouco comum do ponto de vista espacial, agora completamente recriada por Jesper Just (n. 1974) com a sua instalação de vídeo em oito canais, Servitudes. Aqui, Just apropria-se do espaço da sala, povoando-o com múltiplas projeções de vídeo que transmutam o espaço, com a ajuda de andaimes e que criam um novo percurso, incluindo um novo piso a meio da sala.

Os oito filmes que compõem Servitudes mostram, sempre através da mesma atriz a relação que se pode estabelecer e se estabelece entre o ser humano e a tecnologia. Com uma estética futurista e melancólica que nos lembra o 2001 Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, vemos num dos vídeos uma rapariga que, com próteses nas mãos, come uma espiga de milho à dentada. Este vídeo provoca-nos uma imensa assintonia: as próteses remetem-nos para uma imagética futurista ao mesmo tempo que a espiga de milho é um alimento arcaico cujo cultivo existe há cerca de 7000 anos, e o ato de comer com as mãos é uma forma rudimentar de alimentação. Para além de uma certa crítica intrínseca à nossa evolução, e das questões que levanta ao visitante, há também uma preocupação estética e artística com a forma como está filmado e apresentado este vídeo. Disposto em dois écrans diferentes, onde começa a imagem de um, acaba a do outro; existe um confronto físico, apesar de significarem uma continuação imagética. Há, aliás um diálogo entre os vários vídeos que compõem a exposição. Se num vemos a rapariga a comer com próteses nas mãos, noutro vemos as mãos de uma menina que tem uma atrofia nos dedos e que toca piano (Opus 17 de Frédéric Chopin), uma melodia que ecoa em toda a sala e que, a espaços, rouba o protagonismo sonoro aos outros vídeos.

Circuits (Interpassivities) é a outra obra multimédia exposta, numa espécie de sala-bunker construída na sala oval, que interpela a nossa passividade. Uma obra em que o dispositivo construtivo está à vista e se confunde com a própria obra que origina. Um instrumento que evoca o interior desmontado de um piano, toca sozinho e remete-nos para a imagem da criança a tocar em Servitudes. Um vídeo numa estrutura que está propositadamente desmontada emite imagem e som em que bailarinos se abandonam a estímulos elétricos para se mexerem.

Para que possamos usufruir de Servitudes, é criado um novo percurso, todo construído em andaimes protegidos, a espaços, por tela. Estes andaimes e a própria tela são modeladores de um novo percurso expositivo. Principalmente no caso da tela, onde são projetadas imagens, e que se expande para lá dos andaimes para criar obstáculos visuais que nos obrigam a redirecionar o olhar. No fundo, o percurso é também um fio narrativo que devemos seguir. O facto de esta estrutura ser feita em andaimes de obras, e não num material mais nobre ou até mais estável, remete também para a noção de inacabado e para uma certa vertigem melancólica que perpassa também em algumas imagens de paisagens urbanas desoladas: estamos presos nas cidades que construímos da mesma forma que estamos presos nos andaimes. A única saída é para a frente, o futuro, porque voltar para trás implica deslocação mais difícil.

Tudo em Servitudes – Circuits (Interpassivities) é manipulação espacial, visual e sonora. Do mesmo modo que Jesper Just levanta questões que só podem ter respostas internas e individuais, nunca deixa de expressar a sua opinião de forma mais ou menos óbvia ou de nos obrigar a encarar a grande pergunta da atualidade: onde nos leva este presente que já está em excesso tecnológico? Que solidão é esta que sentimos em locais onde nunca houve tantas pessoas como agora?

A vontade de voltar ao início do andaime, na procura de respostas, é tentadora.

Até 2 de setembro, no MAAT.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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