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Jimmie Durham: Acha que minto?

“Claro que não, jamais mentimos um ao outro;

quando é necessário, usamos apenas palavras que mentem por nós”.

José Saramago

 

Anunciada como a segunda etapa do projeto de longa duração intitulado Chain Reaction, esta exposição tem por base uma anterior, intitulada Brief History of Portugal, que ocorreu em 1995 na Galeria Módulo.

Para este projeto inicial, o artista americano criou várias peças poéticas e lúdicas, construídas a partir de objetos heterogéneos encontrados nas ruas de Lisboa, como ramos, pedras, conchas, elementos em madeira, metal, plástico, vidro, cerâmica e tecido. Os objetos site-specific recebem citações coladas ou manuscritas, retiradas de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, livro publicado em Lisboa no ano de 1984.

A exposição tem como objetivo traçar e mostrar estes trabalhos, os primeiros apresentados em Portugal, mergulhados nos contextos literário, social, político e histórico português. Assente na fusão entre realidade e ficção de Saramago, numa obra que narra o último ano de vida de um dos mais famosos heterónimos de Fernando Pessoa, Durham evidencia uma certa confusão entre verdade e ficção, entre natureza e artifício, entre realidade e representação, algo que está no epicentro da sua vida e trabalho pessoal, cunhados pela imaginação artística, pela criatividade e pela produção no geral.

Um excerto áudio de 2006 concede à exposição um ambiente único, pautado pelo som de vidros estilhaçados (vidros que embatem contra o chão e a parede, pelas mãos do próprio artista). O efeito sonoro de fundo amplia a fragilidade das peças. Algumas surgem como uma espécie de talismãs simbólicos e mágicos, numa combinação entre as esferas vegetal, mineral, animal e humana, juntamente com componentes rústicos e refinados. Enquanto homem disposto a participar de forma plena no mundo tal como ele é, em toda a sua diversidade e riqueza, Durham expressa a mesma curiosidade e encanto perante tudo aquilo que chama a sua atenção, sem fazer distinção, sem recorrer a uma escala de valores e sem qualquer discriminação.

Uma nova escultura, especificamente criada para esta exposição, foi também adicionada aos trabalhos inicialmente criados em 1995, numa ponte entre esse momento crucial no passado de Durham e o seu recente e prolífico trabalho. Vencedor do prémio Leão de Ouro de 2019 na Bienal de Veneza na categoria ‘Lifetime Achievement’, Durham é um incansável crítico das várias narrativas, prerrogativas e intrusões ocidentais, questionando sempre, na sua poesia, ativismo político e produção artística, as questões relacionadas com as construções de identidade, estruturas de violência e exploração.

Com curadoria de Delfim Sardo, Chain Reaction é um projeto que resulta de uma colaboração entre a Fidelidade Arte e a Culturgest. A proposta tem como objetivo envolver os artistas na seleção dos seus pares, para que estes tenham também as suas obras expostas na Fidelidade Arte Lisboa e na Culturgest Porto. Delfim Sardo iniciou este ciclo com Ângela Ferreira (Maputo, 1958) que escolheu Jimmie Durham como seu sucessor. Por sua vez, Durham selecionou Elisa Strinna (Pádua, 1982) como a artista seguinte. No final do ano, será publicado um livro que compila a memória dos três eventos artísticos que integram este projeto.

A exposição decorre no espaço Fidelidade Arte, Largo do Chiado, até ao dia 30 de agosto.

Katherine Sirois é historiadora de arte e autora freelance canadiana nascida em Montreal. Formada em Estudos de Artes na UQÀM (Mtl), onde foi assistente de ensino e de investigação, foi doutoranda na EHESS (Paris), com a orientação de Daniel Arasse, e no Departamento de Estética da Universidade de Paris I-Panthéon Sorbonne. Está actualmente associada ao Instituto de História da Arte da Universidade NOVA de Lisboa. É co-editora e curadora do e-magazine de arte contemporânea Wrong Wrong e é membro da equipa de curadoria do projecto Ymago. Foi recentemente incluída na equipa dos colaboradores da Umbigo.

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