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Crioulo Quântico, de Filipa César

Crioulo Quântico, exposição que pode ser visitada no Museu Calouste Gulbenkian – Espaço Projeto até 2 de setembro, resulta de um longo processo de investigação (cerca de dez anos) que Filipa César vem desenvolvendo a partir do território da Guiné-Bissau, e que se tem traduzido noutros projetos como Spell Reel (2017), a primeira longa-metragem da artista/cineasta. É também o resultado da sua colaboração com uma vasta equipa com distintas valências que reuniu um total de cerca de 20 pessoas (músicos, investigadores, atores, designers, entre outros). Trata-se, ainda, da segunda paragem de um projeto expositivo em itinerância que previamente passou pela Haus der Kulturen der Welt (HKW, Berlim) e seguirá, em novembro, para San Sebastián (Tabakalera – Centro Internacional para a Cultura Contemporânea).

O título da exposição com curadoria de Leonor Nazaré, Crioulo Quântico, é o mesmo que Filipa César atribuiu àquela que é a sua obra central: um filme-ensaio, objeto híbrido com aproximadamente 40 minutos, que volta a privilegiar o género documental (ainda que com uma dimensão ficcional associada), bem como o resgate de questões relacionadas com a memória coletiva. Crioulo Quântico tem como principal enfoque a produção artesanal e ancestral dos panus di pinti (em crioulo guineense, “panos de pente” em português) que, na Guiné-Bissau, sempre fizeram parte do imaginário associado à identidade nacional. Os tecidos são utilizados no quotidiano da maioria da população, quer enquanto peças de vestuário (usados, por exemplo, para o transporte de crianças ou nas mortalhas), quer no âmbito de uma dimensão espiritual associada à prática de diferentes rituais. No período colonial os panus di pinti, com motivos geométricos, dupla face e binários em termos de cor, funcionaram também como veículo privilegiado de transmissão de mensagens subversivas apelando à resistência face à ocupação dos tugas. Desde sempre profundamente respeitados, os tecelões (fisiais em crioulo guineense), apesar de não assumirem a autoria dos panos, continuam a ocupar um lugar de destaque na hierarquia social guineense enquanto guardiões de técnicas, memórias e linguagens coletivas.

O filme-ensaio surge integrado numa instalação que o contextualiza e remete para especificidades da tradição cultural guineense através da presença não só dos panus di pinti, como também de outros objetos de natureza etnográfica, caso das cestas manjaca, das esteiras bijagó e das cabaças. Uma carapaça de crocodilo e tartaruga estão também dispostas, numa mesma estrutura minimalista de madeira, em conjunto com materiais associados à tecelagem dos panos como a fibra do tronco da palmeira, o algodão (em rama e em flor) e os rolos de linha em poliéster que, importados da China, passaram a substituir o algodão cujas plantações predominavam no período colonial. O próprio filme, de resto, acaba por abarcar referências mais genéricas às tradições culturais da Guiné-Bissau, bem como fornece imagética que remete para o estado atual do país, nomeadamente a sua urbanidade emergente.

A instalação apresentada em Lisboa diverge da que foi visitada na Haus der Kulturen der Welt na medida em que o filme em exibição na capital portuguesa incorpora, através de um processo de sobreposição de imagens, o registo de excertos de diferentes performances e conferências que Filipa César programou para o dia 12 de janeiro na HKW e que, no total, corresponderam a três horas de intervenções em torno de pesquisas relacionadas com a linguagem. Aliás, um aspeto interessante sobre o qual se reflete em Crioulo Quântico é a proximidade detetada entre os catões perfurados tradicionalmente associados à produção de tecidos e o código binário que se encontra na origem da computação.

Segundo Gomes Eanes de Zurara, guarda-mor do Arquivo Real da Torre do Tombo (entre 1454 e 1475), foram 51 as caravelas portuguesas que, em 1446, chegaram às terras da Guiné. Nuno Tristão, navegador, explorador e mercador de escravos, terá sido o primeiro a alcançar os Rios da Guiné do Cabo Verde. Este não foi, no entanto, o efetivo início da conquista do território e do posterior processo de colonização porque Tristão e os que o acompanhavam foram prontamente liquidados (no rio Cacheu) pelos nativos (do grupo étnico dos felupes) que trespassaram os seus corpos com setas, provavelmente envenenadas, como faziam com os poços de água em que os invasores saciavam a sede. Os portugueses bateram em retirada e só mais tarde voltaram a investir. E este é mais um exemplo de como a narrativa histórica pode ser maquinada segundo a perspetiva de quem a perpetua.

A bravura e a resistência dos povos que sempre habitaram esta região começou então, desde o primeiro momento, a ganhar forma na consciência dos portugueses. A maioria sabe que, na luta pela independência das ex-colónias, o território ultramarino da Guiné-Bissau, sob o comando de Amílcar Cabral (PAIGC), foi onde os combates foram mais brutais e violentos (segundo dados fornecidos pelo Estado-Maior General das Forças Armadas morreram 2240 portugueses). Igualmente desconhecido, à semelhança do destino trágico de Nuno Tristão, será que os mulatos, filhos de mulheres negras com homens brancos (mais concretamente com portugueses condenados ao cumprimento de penas e ao exílio na Guiné, designados como “lançados”) tiveram um papel fundamental, desde o início, no apoio efetivo fornecido à população autóctone no âmbito da resistência à ocupação portuguesa. Crioulo Quântico é também um manifesto político que condena o neoliberalismo e as suas relações, mais ou menos encapotadas, com o passado imperialista e a consequente subjugação e exploração, vergonhosamente exercidas sobre homem negro por parte do pretensioso homem branco.

Licenciada em História Moderna e Contemporânea, possui uma pós-graduação em Gestão Cultural e outra em Jornalismo. Fundou, coordenou e foi redactora da revista Artecapital. Foi redactora principal da revista Artes & Leilões e correspondente da revista Arte y Parte. Actualmente trabalha como mediadora cultural sobretudo no Museu Gulbenkian.

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