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We Didn´t Mean To Break It (But It’s Ok We Can Fix It), na galeria Pedro Cera

We Didn´t Mean To Break It (But It’s Ok We Can Fix It). O tom provocador do título ecoa ao longo da galeria Pedro Cera, através das obras dos cinco artistas (Haiyang Wang, Joyce Ho, Poklong Anading, Mak Ying Tung 2, Filippo Sciascia) em exposição, que abordam questões relacionadas, sobretudo, com a experiência de estar vivo nos dias de hoje.

Segundo a curadora, Cristina Sanchez-Kozyreva, o motivo principal para a escolha do conjunto de artistas foi o facto de residirem no continente asiático, partilhando por isso singularidades criativas, fruto da semelhança dos respectivos contextos locais. Esse elo pode parecer um pouco frágil, uma vez que a distância entre os diferentes países em causa é considerável, tanto geográfica como política e culturalmente. Ainda assim, ou por viverem na Ásia, ou pela selecção das obras, a tensão entre tempos antitéticos – o da tradição ritualística e do lavor técnico, e o da engenharia mecânica massificada – é transversal ao conjunto de trabalhos expostos, que evocam ainda questões como a urbanização massiva, ou a afectação comportamental dos indivíduos no mundo contemporâneo – temas abrangentes a todas as sociedades actuais, tal como refere ainda Cristina Sanchez-Kozyreva.

O mote é dado pela peça Lumina Clorofilliana de Filippo Sciascia, na qual o artista italiano, residente na Indonésia desde 1997, acopla a escultura de uma cabeça de dragão balinesa, a um poste de ferro industrial. A atitude é quase inversa na obra Homage to Homage no. 16, em que Poklong Anading cobre com aço espelhado um andaime improvisado, convertendo-o num objecto escultórico modular, de aparência requintada. O pendor satírico é novamente evidente no ambiente de casa-de-banho criado por Mak Ying Tung 2, onde através do escárnio, e pelo seu carácter exageradamente onírico, reflete acerca do comportamento humano, enfatizando a artificialidade do desejo, actualmente estimulado por via de imagens reconhecidamente falsas. Pelo meio, a exposição conta ainda com um conjunto de aguarelas e uma animação, da autoria de Haiyang Wang, nas quais a vulnerabilidade humana é explorada de diversos ângulos, que vão desde o desejo à finitude, através da construção de narrativas surrealizantes e viscerais.

Para completar o grupo, resta mencionar, a artista Joyce Ho, que se destaca pelo divertido modo como é capaz de aliar a simplicidade formal à sofisticação quer técnica, quer conceptual das obras apresentadas. É o caso de No Surprises onde o objecto, que se assemelha a uma estante de partituras, reproduz o vídeo de um grande plano de uns dedos (que se presumem) a escrever num teclado. A conjugação é insólita, pela forma como a artista se serve de um gesto mundano e quase robótico, transformando-o numa dança fascinante. A procura de criar tensões nas relações entre objecto-imagem é constante, e para tal utiliza uma lógica semelhante à dos jogos de palavras, onde a junção de dois termos próximos, mas inusitados, tem um resultado ambíguo e risível. Compete, assim, ao público a incumbência de interpretar o duplo sentido sugerido por muitas das suas obras. Em Charging um objecto ligado à tomada parece recarregar a bateria ao mesmo tempo em que apresenta um pequeno clipe que foca a inquietação de alguém. A fluidez da conjugação de um imaginário actual e do cruzamento de diversos campos artísticos torna bastante estimulante o trabalho da artista baseada em Taiwan, que se distancia assim do hermetismo transversal a muita da arte contemporânea, totalmente absorta nos seus próprios códigos.

Em We Didn´t Mean To Break It (But It’s Ok We Can Fix It) é quebrada a monotonia, como em qualquer outra ocasião em que se conhece algo, ou alguém, novo. O que não é pouco, sobretudo quando há momentos de entusiasmo.

A exposição estará patente na galeria Pedo Cera, em Lisboa, até ao dia 14 de Setembro, sendo que encerrará para férias de 1 a 26 de Agosto.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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