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Please (do not) touch, de Inês Norton

Viveu a vida em imagens; pensava através de imagens. Provou todos os sabores e respirou um armário de perfumes comprados ao longo da vida. Mas foi com o toque que soube a quem e onde pertencia. Foi o toque o instante do sentido.

A pele é um lugar que se habita. Por vezes com prazer, outra vezes com um desconsolo imenso. Entre a pele física e a psíquica, o sujeito constrói uma identidade mediada por este órgão maior. Das sensações térmicas às sexuais, da dor ao afago suave, da defesa ao desarme, a pele é um mapa vivo, a cartografia do desejo, do medo e dos tempos. Na era da compulsão visual e da dessensibilização do olhar, a pele é o órgão das emoções, o amplificador estésico dos grandes momentos individuais e até coletivos.

A era tecnológica tem vindo a desenvolver uma relação estranha com o tato. Se por um lado o solicita e dele depende para se ativar, por outro, na sua reconhecida assepsia, encontra no toque a amaça do corpo estranho, microbiano, sujo e impuro. O tato serve agora mais para conhecer o corpo plástico e silicoso do que para conhecer toda e qualquer prega, poro, penugem e textura do corpo biológico. O sonho tecnológico é a libertação do toque e haverá o dia em que o toque é só um sonho ou uma memória diáfana do que foi para o homem e o conhecimento do mundo.

Please (Do Not) Touch, de Inês Norton, com a curadoria de Adelaide Ginga e Emília Ferreira, é em parte a rememoração desse sentido e das tensões geradas pelo avanço do digital como sentido que substitui todos os outros. Norton estica uma pele imaginária, dobra-a, protege-a ao mesmo tempo que a envolve em objetos. Cada obra assinala a desconstrução da pele e do tato, sem que nenhum material orgânico seja utilizado. Afinal, tudo assenta na ideia de emulação dos dispositivos reais do toque. Não há rugosidade e tudo é consentâneo com a lisura e polimento da modernidade: o latex, o metal, o ecrã do tablet, o plástico. Tudo é suave, sem atritos nem rugosidades desagradáveis.

A exposição retoma também a dupla aceção da palavra sentido, muito explorada na língua francesa e pelos fenomenologistas: estabelece uma ligação direta entre sentidos do ponto de vista da sensorialidade, da sensação, e sentido numa perspetiva racional, de pôr em sentido, em ordem, determinada matéria. Não é de estranhar, portanto, se a alienação do homem aos sentidos, mercê de uma avatarização do corpo num território virtual, venha a coincidir com o estranhamento e a suspeição das verdades de outrora. A perda de contato com as sensações e com o mundo, equivale a uma perda de sentido do mundo, da sociedade, da natureza, da política.

The Interlude of Surface tem uma natureza quase sexual. O tecido que pende sobre a armação em latão convida ao toque pela mão e pelo braço. O mesmo sucede em The Interlude of Surface ou em Collected by a Toucher, em que a escala próxima à da mão apela ao manuseamento e à compreensão das formas pelo tato.

Em Contactless, esses convites são sonegados ao espetador. O corpo nu é envolto numa película plástica que protege, mas também higieniza e impede, o contato com o corpo alheio. A nudez é plastificada, como plastificado se torna o sexo na era digital. Na verdade, encontramos rememorações desta ideia um pouco por toda a exposição, por vezes de forma mais explícita, outras menos.

A obra que talvez se destaca do conjunto, aquela na qual o espetador poderia estar horas a contemplar, é Three Doses of Visual Seduction. Uma cortina suave confere um grau de intimidade ao utilizador – palavra que aqui se usa com toda a propriedade. No interior, sob uma consola em fibra de vidro, brilhante, lisa e da cor da carne, um tablet simula um órgão viscoso que os dedos conseguem menear, distorcer, remexer, sem, no entanto, sentirmos a textura real da carne, do sangue e da gordura. A cada toque deseja-se escavar, escarafunchar, abrir ferida, entrar num corpo orgânico, purulento e pegajoso. A tendência assética da sociedade moderna, cria em nós vontades profundas, quase violentas, de voltar ao primordial, à natureza. O renovado puritanismo da sociedade plástica e distante, cava um fosso interior de procurar exatamente o seu contrário.

Please (do not) touch é, portanto, um regresso ao toque, por um lado pela supressão do mesmo, por outro pelo convite a tocar nas peças. No fundo, a exposição acaba também por trazer ao debate a inversão da perceção das obras de arte no museu, operando uma reinterpretação das leis e dos paradigmas museológicos nas quais o ótico dá lugar ao háptico, no que isso tem de positivo e de perverso. Doravante, é cada vez mais certo que os museus se vão deparar com os problemas trazidos pelo toque. Por favor, não tocar; por favor, tocar com cuidado; por favor, toque e interaja – são expressões legendadas que, para além de uma certa ironia e comicidade, abrem questões sérias dentro da comunidade e da rede de museus. A tendência para o toque, implica uma mudança no entendimento da arte que os museus devem acautelar, não só do ponto de vista dos conceitos históricos e da própria história, mas também do ponto de vista conservação e do restauro.

Até 27 de outubro, no Museu Nacional de Arte Contemporânea.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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