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A chuva cai ao contrário, de João Jacinto

23 desenhos de João Jacinto (Mafra, 1966) encontram-se reunidos na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa na exposição A chuva cai ao contrário, com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria e organização da Fundação Carmona e Costa.

Declinado o convite para uma exposição retrospetiva, João Jacinto, em conjunto com os curadores, propõe 23 desenhos executados ao longo de 2018, que representam a mesma imagem – um caminho ladeado por duas massas de árvores, espelho uma da outra, que culmina numa mancha negra.

Ao entrar na galeria, a cegueira. Apenas após contornar o pano de parede branca se avistam os desenhos, todos com a mesma altura, dispostos em friso, em duas paredes frente a frente.

Árvores, caminho, negro, árvores, caminho, negro, árvores, caminho, negro… a imagem é repetida até à exaustão. Mesmo reiterado, cada desenho impõe-se individualmente pela sua diferença. O que esteve na origem do desenho inicial volta a estar na origem do seguinte, sendo que a origem do segundo é poluída pelo desenho anterior. Cada desenho, ao mesmo tempo que continua, destrói, faz e refaz o anterior.

O princípio é também o fim e o fim é, portanto, o princípio, há um eterno retorno à origem sugerido pelo próprio caminho que é representado. Percorremo-lo ficando com a sensação de que chegámos mais à frente sem que, no entanto, tenhamos saído do mesmo lugar. O tempo sugerido pelo percurso adivinha a inevitabilidade da morte evocada através das caveiras representadas a meio de um dos caminhos.

“Eu não acredito em nada que não nos possa provocar a morte”, diria João Jacinto. Já Jean Genet enuncia que “é preciso uma arte dotada do estranho poder de penetrar os domínios da morte”. Será por isso que a experiência de percorrer o caminho representado nos desenhos de João Jacinto poderá ser tão perturbadora quanto arrebatadora?

Esta incessante reincidência em cadeia sobre a mesma imagem, como se o desenho seguinte fosse superar o falhanço do anterior, é recorrente no corpo de trabalho de João Jacinto. Como o próprio refere, Samuel Beckett – falhar, falhar outra vez e falhar melhor. Opera assim na solidão, de que fala também Genet, solidão que habita simultaneamente “a imagem sobre a tela e o objeto real por ela representado”, sendo que é nessa solidão que se conhece a beleza da pintura. Desenho neste caso, ou será pintura? Pouco importa.

Os desenhos acontecem através de uma acumulação de matérias de naturezas diferentes sedimentadas sobre papel – carvão, pastel seco, lápis de cera, giz, óleo, acrílico, tinta spray, cinza de charuto e outros; luvas que caem do céu, panos negros que são corvos, caricas no meio do caminho. Elementos enigmáticos, estranhos e insólitos que entretém mentes, “acidentes” provocados por frustrações e concretizações do dia a dia de atelier impregnam-se de sentido num único instante, perante um olhar e gestos de pintor.

A representação do caminho é estranhamente sombria ao mesmo tempo que intensamente iluminada. As manchas negras são atravessadas por apontamentos ou manchas de cor mais ou menos vibrantes e pautadas por um céu mais ou menos claro gerando atmosferas que assombram ao mesmo tempo que tranquilizam.

Poder-se-á afirmar que o conjunto de desenhos de João Jacinto sugere uma reflexão sobre o mundo, sobre a vida, a sua origem ou o seu termo? Para o artista, a imagem do caminho lembra A origem do mundo que Gustave Courbet pintou em 1866, em que as fileiras de árvores poderiam ser associadas às pernas da mulher de Courbet. Ao caminharmos chegaremos mais longe, estaremos sempre no mesmo lugar ou retornaremos incessantemente ao mesmo sítio? Albert Einstein referiu que se continuamos vivos é porque ainda não chegámos onde devíamos.

Paisagem estranha e insólita, misteriosa, envolta numa obscuridade sedutora que se movimenta ao mesmo tempo que é estática, onde a noite é dia e o dia é noite, que hipnotiza ao mesmo tempo que inquieta, ali, sem dúvida, que a chuva cai ao contrário.

Os desenhos de João Jacinto poderão ser vistos na Sociedade Nacional de Belas Artes até 20 de julho.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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