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COSMO/POLÍTICA #4: Quando as Máquinas Param

O ocaso das almas modernas dá-se quando as máquinas param. 1 minuto depois, as bolsas colapsam; 2 minutos depois, o tráfego aéreo desaparece sob céus que se abatem; 10 minutos depois, o pânico global instala-se em pilhagens, guerrilhas e motins; 1 mês depois, decreta-se a emergência global de um mundo sem lei, sem princípios, entregue à sobrevivência dos dispositivos básicos e rudimentares das civilizações.

A sociedade moderna é indissociável da máquina. Uma é consequência da outra e é impossível pensar-se a ontologia do homem moderno sem o peso e a omnipresença da máquina e das suas variações tecnológicas e algorítmicas. Soçobramos sem a sua presença, angustiamos na sua ausência. A máquina é extensão do homem – membros trans-humanos de uma genética em sílica, metal e minérios de sangue.

Ou seja, homem e máquina são um e o mesmo. A máquina tornou-se adjetivo qualificador do verbo humano. Somos máquinas dentro de um grande sistema oleado – por vezes com as suas pontuais avarias – que é o do Estado neoliberal – cálculos e rodas dentadas de uma engrenagem fria que nos ultrapassa.

É este mesmo Estado que transformou o homem numa máquina produtiva e aditiva. Tornou-se condição da existência, trabalhar, computar, produzir. A vida moderna rege-se sob os ponteiros atentos de uma máquina suíça: os gestos devem ser precisos e os gastos mínimos. Sem trabalho, o homem-máquina perde o seu propósito existencial e mergulha num marasmo que alimenta por um lado a depressão e, por outro, a indignação.

A quarta exposição do ciclo COSMO/POLÍTICA adota o título do telefilme de Pedro Belo e Luís Filipe Costa, Quando as Máquinas Param (1985), uma reinterpretação da peça de 1967 do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos que concebe o desemprego como catalisador da ação. Segue-se um ensaio dramatizado sobre os problemas e as causas do desemprego e a forma como este afeta o homem e a vida conjugal. O corpo cede à apatia, à indiferença e a personagem masculina redunda no laxismo. Nas suas mágoas confessa, “ele é um dono; os donos das coisas estão sempre bem. (…) O que eu quero é ter sossego. O que eu queria era sentir-me seguro, ter trabalho, dinheiro certo, no fundo é o que toda a gente quer.” E no fundo é também o problema quotidiano de muitos homens e mulheres, cuja segurança social, laboral e económica se vê ameaçada mercê de políticas que promovem a desregulação destes setores e nutrem de forma sibilina a exclusão e a injustiça sociais.

É neste quadro narrativo e político, de uma obra escrita durante a repressão ditatorial brasileira, que Catarina Botelho, Eduardo Matos e Vasco Costa trabalham a exposição Quando as Máquinas Param, com a curadoria de Sandra Vieira Jürgens e Paula Loura Batista. Com uma paisagem industrial comum a todos, as obras abraçam a condição precária da modernidade, cujos projetos políticos falharam na implementação de Estados transparentes, justos e imparciais e começam agora a colher os frutos de políticas erráticas comandadas sob o desígnio ínvio do capitalismo selvagem e do neoliberalismo.

Numa obra que recebe o mesmo título da exposição, Catarina Botelho investiga o arquivo fotográfico pessoal como construtor inesgotável de linhas discursivas. Fotografias de paisagens industriais áridas mostram-se ao lado de manifestações populares. Se noutros casos é o conjunto de personagens que importa, neste é impossível não notar o peso de uma manifestação que se faz apenas de mulheres. De facto, são elas o elo mais fraco do capitalismo e da força laboral que o ancora, o que leva a supor que este capitalismo é realmente, como muitos teóricos postulam, uma invenção do homem, para o homem.

A atmosfera lúgubre das paisagens ferrugentas e decaídas, contrasta com um grito de revolta em tudo condizente com a recente consciencialização da necessidade alternativa a este modelo económico, eventualmente um que nasça das mulheres e que contemple todos os sistemas da vida e do frágil tecido que os une. Afinal, e como tão bem demonstrado pelas teorias da biopolítica, a política é indissociável da biologia, e a economia e a alta finança também. Basta pensar que os mercados globais são comandados por picos de testosterona encerrados em salas de Wall Street ou da City, e as crises precipitadas por um desarranjo no equilíbrio químico e hormonal.

Contudo, e sem esquecer a obra que a informa, Botelho vai também ao encontro da fragilidade da mulher da peça de Plínio Marcos, que se vê confrontada com os caprichos do homem e da velha narrativa da masculinidade ameaçada que se torna possessiva e irascível. Encerrado numa realidade celular e individual, o homem deixa de conseguir ultrapassar o trauma, arrastando a mulher para um marasmo que é só dele.

Comungando das paisagens de Botelho, mas também das de Eduardo Matos, a instalação de Vasco Costa atende às qualidades hápticas da arte, ao mesmo tempo que concilia a inutilidade da arte à sensação de inutilidade da personagem masculina da peça de Plínio Marcos. A betoneira já só existe na sua componente escultórica e a pele que a cobre, nada mais é que um despojo orgânico de um corpo esquartejado. É nestes campos de opostos, entre metal frio e pelagem quente, entre animal e maquinal, que Um Camelo no Alaska concebe “um universo pré-máquina, uma cosmologia natural, que nos leva a uma memória vaga de origem e uma certa ideia de pureza e calor”.

Finalmente, em Desvio_O Intervalo, Eduardo Matos releva o poder da água como força apaziguadora, capaz de devolver um equilíbrio natural aos territórios construídos, ocupados e posteriormente abandonados pelo homem. É com a banda sonora do rumorejar e borbulhar da água que Matos nos apresenta a aparente quietude das construções industriais abandonadas. A água é o tempo tornado fluido, um rio que flui indiferente a tudo; a água consome, lava e decompõe os objetos produzidos pelo homem e tem todo o tempo do mundo e da história para o fazer. Contudo, o artista outorga outro poder à água nesta instalação: o poder da transformação e, com ela, a possibilidade de qualquer outra coisa. É deste modo que se apresentam os objetos de lama expostos em cima da mesa: o esvaziamento das suas utilidades corresponde a um novo olhar sob as construções humanas que viram sedimentos de um período da história da humanidade e das civilizações.

Como tem sido aliás comum a todas os momentos do ciclo COSMO/POLÍTICA, Quando as Máquinas Param é uma exposição exigente que propõe reflexão e debate, sem esquecer as características interessantes a uma exposição. Entre o mistério e o devaneio, o espetador é desafiado a redefinir o seu posicionamento político – não panfletário, nem partidário – no mundo e na vida coletiva. E pese embora a natureza soturna do conceito em que se firma, parece assumir, todavia, uma esperança nas grandes forças ativas da sociedade, do tempo e da natureza. Afinal, quando as máquinas param, uma nova era começa. Pejada de dúvidas, certamente. Repleta de ânsia. Mas apostada numa nova e necessária revisão ontológica do homem, do cosmos e da política.

Até 29 de setembro, no Museu do Neo-Realismo.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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