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Canhota, de Mariana Gomes

Canhota, exposição individual que Mariana Gomes apresenta na Fundação Carmona e Costa (prolongada até 20 de julho), destaca-se pelo seu dinamismo e arrojo. É irreverente, disruptiva, afoita, impregnada de humor e despretensiosa. Surpreende, apanha o espectador desprevenido, prega-lhe partidas, desorienta-o e gera nele espanto, roubando-lhe ora um sorriso ora um esgar de estranheza e/ou desconforto – subtis e inseguros porque em Canhota o terreno é assumido e encantadoramente movediço. Leva-nos a questionar os lugares comuns em arte e, por conseguinte, a questionarmo-nos. E tudo isto é muito, especialmente nos dias que correm e em relação ao panorama expositivo nacional.

Em Canhorta, com curadoria de Bruno Marchand, Mariana Gomes mostra um vasto conjunto de obras sobre papel (cerca de 50, de anos distintos) que se materializam em desenhos, pinturas, colagens e objetos de natureza escultórica. Seres sinistros, bizarros e assustadores, como vampiros, bandidos e mostrengos (mais ou menos afáveis), sucedem-se a Cabeçudos, dedos cortados, autorretratos mórbidos em resina, pedras, colunas invertidas, intestinos ou dentes notando-se uma certa componente escatológica na representação. O figurativo, sem qualquer cadência que se intua, dá lugar ao registo abstrato, muitas vezes de natureza gráfica. O painel Le grand accrochage v .2019 merece especial destaque pela energia e força que emana e por poder ser encarado como uma sinopse do muito e diversificado que é dado a ver.

A exposição na Fundação Carmona e Costa é, de facto, representativa do prolífero universo criativo de Mariana Gomes que faz questão de se manter suficientemente híbrido para permanecer aberto e não suscetível de ser hermeticamente categorizado. A marca autoral da artista passa também pela desconstrução do pressuposto de que a mesma é imprescindível para o seu reconhecimento e validação. Mariana Gomes transgride a partir de um artifício extremamente astucioso de consciente e consistente desmarcação face ao expectável e enquadrável e fá-lo parecendo a coisa mais natural do mundo. Essa transgressão sente-se em muitas das suas obras que parecem nascer da urgência do fazer, incorporando o erro e o acaso, e não deixando antever, pelo contrário, a existência de qualquer prévio manifesto de intenções profundamente teorizado.

Obviamente, tudo isto não significa que não se possa reconhecer na sua prática que privilegia a desconstrução de paradigmas e que, de certo modo, se enquadra no conceito de “pintura expandida”, relações mais ou menos inusitadas com o expressionismo (olhando para as vanguardas) ou mais recente com o neoexpressionismo, recordando particularmente o corpo de trabalho de Philip Guston. Reportações para o universo da Pop Art são também invocadas sobretudo através da associação a artistas que, não negando a influência do movimento e privilegiando também o pressuposto da comunicação fácil, atribuíram aos seus trabalhos uma dimensão mais introspetiva, menos massificadora, consumista e espetacular. Lembramos, nesta linha, Patrick Caufield e, no contexto nacional, Ruy Leitão, aluno de Caufield na Chelsea School of Art, em Londres. Reconhecemos ainda no corpo de trabalho eclético da artista referências várias ao cinema (film noir, por exemplo), à cultura popular (como o inesperado retrato do cantor “pimba” Marante com semelhanças a Donald Trump), à música, à literatura, ou à publicidade. Quase tudo parece ser suscetível de ser resgatado sem que, no entanto, se estabeleça qualquer pressuposto de hierarquização.

Mariana Gomes, para quem “pintar é representar”, canhota assumida, com esta exposição assume-se como artista que já conquistou, pela sua irreverência e inventividade, o seu lugar inconfundível no meio artístico português. No catálogo produzido no âmbito da exposição, Mariana dedica-a “aos ambidestros de outro mundo” que, de certa forma, acabamos por ser todos nós.

Licenciada em História Moderna e Contemporânea, possui uma pós-graduação em Gestão Cultural e outra em Jornalismo. Fundou, coordenou e foi redactora da revista Artecapital. Foi redactora principal da revista Artes & Leilões e correspondente da revista Arte y Parte. Actualmente trabalha como mediadora cultural sobretudo no Museu Gulbenkian.

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