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A Sarcástica Comédia de Diogo Ramalho

Ao passar em frente ao número 30 da Rua do Monte Olivete em Lisboa deparamo-nos, na montra, com um quadro que parece antes um relicário. A relíquia é uma chapa metálica (descobrimos depois que é um cunho de impressão) com uma inscrição ao inverso que exige um pouco de concentração até que se possa ler, por fim, a frase “Trouble in Paradise”. É este o título provocador da exposição do arquiteto e designer Diogo Ramalho, que apresenta no Espaço Real a sua primeira exposição a solo.

“Tudo começou com a intenção de criar um livro,” explica a curadora Inês Nunes, convidada pelo galerista Gonçalo Conde. “Mas a meio do processo o Diogo decidiu desconstruir esse livro para criar a estrutura que vemos aqui.” A estrutura de que a curadoria fala é uma exposição que gira em torno da construção do próprio livro enquanto objeto. Aliás, esse livro-objeto acabou mesmo por ser criado e é a peça central da exposição. Nessa mesma sala podemos ver, nas paredes, três imagens de grande formato que, após mais cuidada observação, nos apercebemos serem três chapas de impressão a preto (branco é a ausência de cor), representando cada um dos três temas da exposição. Por fim temos, ao longo de uma parede, 78 spreads fotográficos, bem como o cunho utilizado para a impressão do título do livro, que toma lugar de protagonista na montra do espaço.

Os temas abordados, inferno, purgatório e paraíso, “são uma referência alegórica à Divina Comédia, de Dante,” diz o autor, “e tanto o livro, como os spreads e as chapas de impressão dividem-se para representar cada um dos três atos.” Nos spreads, que à partida parecem apenas fotografias, podemos encontrar detalhes como “miras de corte e legendas auxiliares, tal e qual como se fossem páginas impressas de livro, mas em bruto, antes do corte e montagem,” acrescenta Diogo Ramalho. No Inferno, o autor procurou retratar “o caos, o exagero da atividade humana.” No purgatório, em contraposição, encontramos “a ausência de pessoas, que são substituídas pela sua obra, a arquitetura, que se impõe como um entre-lugares e cria expectativa.” Por último, no paraíso encontramos “uma representação da presença humana, sobretudo através de estátuas de jardim, como réplica grotesca da humanidade,” explica o autor.

As imagens que constituem o livro (há também spreads que retratam apenas frases, como falas dos anões do clássico da Disney Branca de Neve e os Sete Anões) foram fotos escolhidas do arquivo do autor, tiradas ao longo dos últimos dez anos. São todas a preto e branco “para evitar a distração pela cor” e são frequentemente (se não sempre!) dominadas por um filtro de sarcasmo e sátira social. “Todas as fotografias sugerem uma dúvida geográfica,” explica Inês Nunes, “nunca sabemos exatamente onde estamos e isso foi intencional.” Efetivamente, embora em algumas fotografias se possam perceber as piscinas sobrelotadas dos hotéis de Las Vegas, ou os stands de venda de decoração de jardim que se encontram ao longo de várias estradas nacionais portuguesas, a coerência não passa pela geografia, mas antes pela crítica social que reforça um carácter universal da mensagem.

A exposição, que inaugurou no dia 6 de junho, pode ainda ser visitada até ao próximo dia 6 de julho. Adicionalmente o autor estará todas as sextas-feiras presente a fim de receber e guiar pessoalmente os convidados através destes três atos irónicos, mas cruamente reais da sociedade em que vivemos. No fim não conseguimos evitar ficar com a sensação de que os nossos próprios conceitos de inferno e paraíso se têm distorcido ao ponto de já não conseguirmos distinguir claramente o que é bom ou mau, divino ou profano. Afinal de contas, e como enfatiza Diogo Ramalho, “há coisas bem mais infernais no paraíso do que no inferno, onde algumas coisas até são apetecíveis. Há uma constante contaminação entre as partes.”

Trouble in Paradise, de 6 de junho – 6 julho 2019, com a curadoria de Inês Nunes. No Espaço Real, Rua do Monte Olivete, 30, 1200-424, Lisboa, de Terça a Sábado, das 15h às 20h.

Por Pedro Rei.

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