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Os problemas da curadoria

Uma exposição feita contra os artistas e contra o espaço que reclamam para o seu trabalho está fadada ao insucesso.

Uma exposição que expande o seu reportório para lá de uma centena de autores, não muito distante de duas centenas, está destinada ao fracasso.

Uma exposição que articula em si um sem número de expressões assaz distintas, ainda que dentro de uma técnica ou prática específica, vai encontrar dissensos justificados no caminho.

Uma exposição que não compatibiliza as várias escalas de cada artista num discurso ou percurso coerente incorre numa assimetria insuportável.

Uma exposição que exige ao visitante e espetador um esforço físico hercúleo, percorrendo maratonas de salas e galerias em vários níveis, vai ter que suportar a desistência e o cansaço alheio.

Uma exposição que comporta em si um diálogo derivativo vai semear contradição.

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A persistir no caminho que tem vindo a tomar na última década, a curadoria deve ser uma disciplina de consenso interno, de mediação e de coerência, procurando nos artistas que expõe os seus maiores aliados na procura de soluções espaciais e teóricas corretas. Tão mais importante se revela esta questão quando se está perante temáticas complexas, que envolvem vários quadros e técnicos das mais variadas áreas.

A curadoria é a prática da seleção e não da adição; do pragmatismo e não da indefinição. E, portanto, é a prática treinada do saber dizer não, ou, num ponto de vista teórico ou académico, a prática da crítica e da autocrítica.

Recusa-se, todavia, a análise destrutiva e a crítica cínica. Por mais insatisfatório que seja o resultado, é importante cultivar-se também a justeza. Há sempre uma obra que compensa a visita, a contemplação e o esforço ascético da abstração envolvente e ruidosa. Há sempre um artista que agrada revisitar, uma solução espacial, material, artística que merece ser olhada e refletida.

Vêm estas palavras a respeito da exposição Studiolo XXI – Desenho e Afinidades, na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, com a curadoria de Fátima Lambert, que reúne cerca de 180 artistas. Deste modo, se tudo o que inicialmente foi referido é verdade – o excesso de nomes, a escassez de espaço para os acolher, o percurso e o discurso labiríntico, etc. –, notar que há obras e experiências relevantes que importam ver é também importante.

Mas se a linha curatorial convidava a entrar no estúdio de cada artista, o resultado é ambíguo, uma vez que a exposição, na sua aparente infinitude incremental de nomes, não atende à diversidade da obra que poderíamos encontrar em cada um desses artistas. Temos acesso apenas a uma pequena amostragem dentro de um campo que é o do desenho. E é com base nessa pequeníssima seleção dentro do corpo de obra de cada autor que a exposição se detém. Ou seja, esta é mais uma exposição sobre a dilatação da prática do desenho e menos sobre o universo privado, íntimo e sempre expansivo do estúdio ou do atelier.

A exposição é completa, há que reconhecer, na inventariação das várias expressões do desenho: do esquiço ao esboço, do arquitetónico à cartografia, da instalação à escultura, do vídeo à performance. A catalogação destes registos sumariza o que se poderia designar por desenho alargado, como Rosalind Krauss propôs para a escultura. Deste modo, Studiolo XXI opera na noção de campo expandido do desenho, mostrando o desenho nas suas afinidades para com outras práticas, no fundo, o que se poderia também designar por hibridização de media e conceitos.

Miguel Ângelo Rocha propõe a expansão da linha curva no espaço. Rita Gaspar Vieira estimula a descoberta e a curiosidade ao esconder o desenho, desafiando, assim, o visitante, ao mesmo tempo que sugere uma inversão de planos e eixos ao fazer recurso da textura do pavimento em madeira. Pedro Valdez Cardoso trabalha a linha e o desenho no seu conceito, para lá da habitual materialidade da grafite ou do papel, fazendo recurso de materiais do quotidiano como um pano de limpeza e as linhas de costurar. Jorge Pinheiro desenha uma nova linguagem ao sugerir o que pode resultar de uma súmula entre a escrita musical, matemática e literária. Ana Vidigal conduz-nos ao imaginário infantil dos desenhos animados.

Noutros casos, sobressai o desenho espacial e a sua relação com a arquitetura do espaço. São disto exemplo as obras de José Pedro Croft, Catarina Leitão ou Flávia Vieira, mas também Mauro Cerqueira, Raul Mourão ou Rui Matos – todos eles com materialidades e dimensões muito diferentes.

O desenho como construção de paisagens (naturais, animais, oníricas) é ensaiado por Gabriela Albergaria, Suzanne Themlitz, Martinha Maia, Alice Geirinhas e Rita Carneiro, mas também Daniel Caballero, João Jacinto e João Queiróz. Numa aproximação à paisagem natural e às componentes botânicas, pode ver-se, antes, Prudêcia Coimbra.

Na figuração, Adriana Molder olha para o rosto como primeiro desenho a reconhecer. A fisionomia é uma composição de linhas e expressões que Molder trabalha entre o desenho e a pintura. João Fonte Santa propõe um olhar crítico sobre a paisagem industrial, ao representar uma série de reatores nucleares.

Rosana Ricalde e João Louro propõem uma reflexão sobre a geografia e a construção abstrata do mundo.

O desenho gráfico e geométrico é explorado por vários artistas: Fernando Lanhas e António Quadros Ferreira

O desenho na sua relação com a performance tem o núcleo mais arejado de todo o conjunto, com obras de Thierry Ferreira, Beatriz Albuquerque e Graça Pereira Coutinho.

Etc. Etc. Etc.

Dos nomes elencados, muitos ficaram de fora por fadiga e por falta de acesso direto às obras (a obra de Nuno Sousa Vieira só pode ser devidamente apreciada em determinados dias). Por mencionar ficaram artistas incontornáveis na história da arte portuguesa moderna e contemporânea: António Palolo, António Olaio, Ana Hatherly, Nadir Afonso, Nikias Skapinakis, Jorge Martins, Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, Lurdes Castro, Gerardo Burmester, Júlio Pomar e muitos, muitos outros.

De facto, o caráter monográfico e totalizador da exposição acaba por comprometer uma vontade futura de explorar cada afinidade ou relação entre o desenho e as outras expressões da arte. Cada núcleo poderia valer uma única exposição, onde cada tema seria dilatado, aprofundado, sem encerrar nem categorizar as obras numa determinada temática.

Afinal, esta é uma exposição de muitas exposições possíveis, impossível de resumir sem se ser simplista, sob pena de até quem sobre ela escrever incorrer num perigo semelhante quer por cansaço, quer por excesso informativo (11 folhas de sala, mais texto curatorial). Os artistas dos primeiros núcleos ocuparam um espaço na memória que os seus congéneres dos últimos espaço já não conseguiram – por esgotamento físico – conquistar.

Studiolo XXI – Desenho e Afinidades pode ser vista até 29 de setembro, no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, Évora.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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