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(sunsight!)/(sunclipse!), de Carlos Noronha Feio

As artes manuais artesanais entre as quais se encontram a tecelagem e a tapeçaria, têm um longo passado de relação direta com a produção artística. Os chamados lavores manuais, sempre foram uma atividade doméstica e feminina. Já Homero descreve na Odisseia: Penélope esperava Ulisses e como forma de fugir à horda de pretendentes que a queriam desposar e de onde ela deveria escolher o futuro marido, remeteu essa decisão para a finalização de um tapete. Mas Penélope não queria outro que não fosse Ulisses e assim, desmanchava de noite o que tecia de dia.

Os tapetes de guerra do Afeganistão e os tapetes de Arraiolos portugueses têm uma origem árabe comum. Os primeiros, tecidos pelas mulheres há milhares de anos, mudaram a sua temática naturalista em 1979 quando a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nessa altura passaram a figurar motivos de guerra. Os tapetes de Arraiolos têm a sua origem, pensa-se, na expulsão dos árabes para o sul de Portugal no reinado de D. Manuel. Os tapeceiros de Arraiolos aprenderam então esta tradição e conciliando a decoração oriental com um ponto cruzado de mais fácil execução, desenvolveram esta produção artesanal.

Carlos Noronha Feio apropria-se destas tradições milenares que tiveram um passado comum num dado momento e num dado local, para provocar novas reflexões sociais e artísticas. Eleva-os à condição de obra de arte de galeria, retira-lhes a função prática e decorativa, dispondo-os na parede, mas em locais diferentes e segundo a disposição do sol representado, altera o formato e de certa forma conceptualiza-os.

Tal como fizeram esses antigos tapeceiros de Arraiolos no século XV, Noronha Feio emprega cores e padrão dos tapetes afegãos, mas através da técnica de arraiolos e utilizando artesãos portugueses, transporta-os para o nosso contexto de produção e para uma tradição que ganhou fôlego no século XX como forma de identificação social, (era a classe média alta que comprava os arraiolos). No fundo, da mesma forma que os tapetes de guerra se tornaram inacessíveis para a população afegã, deixaram também os de Arraiolos de estar ao alcance económico da população portuguesa menos abastada (a não ser os que já existiam e que foram passados de geração em geração). Em (sunsight!)/(sunclipse!) esse carácter de exclusividade e de unicidade é reforçado.

Do ponto de vista da temática, o artista imprime um cunho globalizante, pois as representações são do sistema solar, embora mantendo alguns elementos orientais, como estrelas de oito pontas ou mísseis. Tal como as representações bélicas afegãs criticavam a invasão soviética, Noronha Feio faz, com as suas tapeçarias uma reflexão sobre a existência do sistema solar e da Terra e do Ser Humano em particular. As frases e palavras em aço dourado dispersas pela galeria, reforçam esta dúvida existencial acerca da existência humana e da qualidade dessa existência no futuro, nomeadamente da estrela que nos rege, o sol.

O artista não tece, transforma-se num artista teórico e não manual, mas idealiza e desenha digitalmente as suas obras que são executadas por tecelões. Podemos remeter este modelo de produção para um modelo típico do renascimento, em que os ateliers dos artistas eram habitados por assistentes que executavam as obras artísticas que os seus mestres idealizavam.

As frases ou palavras em aço dourado que refletem a nossa imagem, acompanham os tapetes e propõem uma reflexão, em alguns casos mais imediata do que as tapeçarias. Quando subimos as escadas que nos transportam de novo para o piso da entrada da Galeria 3+1, pela moldura da porta, tudo o que conseguimos ler da frase (even if at heart we are uncertain of the will to connect, there is a common future ahead!) é uma parte da palavra common e future ahead!), no que parece uma espécie de mensagem positiva e animadora. No fundo, ainda que as questões levantadas pelo artista digam respeito ao futuro do universo e do Ser Humano e que não tenhamos grandes motivos para acreditar que será risonho, Carlos Noronha Feio, deixa-nos uma mensagem optimista de que o futuro é comum, comunitário, talvez espacial e que de certa forma, depende de nós a sua qualidade.

Na 3+1 Arte Contemporânea, até 22 de junho.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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