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Francisco Tropa, O Pirgo de Chaves

Diálogos: o Pirgo de Chaves, um objeto proveniente de uma escavação arqueológica, dá o título à exposição de Francisco Tropa no Museu Calouste Gulbenkian. Contudo, são os diálogos propostos que dinamizam esta exposição. Não só o diálogo que Tropa, como sempre, cria entre o antigo e o contemporâneo, entre a arqueologia e a arte, como o que é criado entre um dos curadores, o arqueólogo Sérgio Carneiro, e o próprio artista (amigos de longa data), aos quais se juntou Penélope Curtis, diretora do Museu Gulbenkian e também curadora desta exposição.

O jogo, que é, a par da conversa, uma atividade desde sempre praticada entre amigos, lança o mote. Como podemos constatar na explicação presente no próprio plinto, o Pirgo é uma pequena torre em bronze que servia para lançar os dados sem que fosse possível fazer batota. A partir daqui Tropa reúne uma série de peças assistidas pela lógica de jogo e manuseamento, o tal movimento que podemos ver ou pressentir em algumas das obras expostas através de memórias que Tropa deixa dos deslocamentos de translação, rotação ou ainda de simples deslizes como em Quad (2008) uma obra baseada numa peça televisiva de Samuel Beckett. Aqui, o movimento de cubos negros sobre uma flanela também negra é marcado pela existência de areia que cria um rasto das quatro posições dos cubos. Este rasto deixado pela areia forma um desenho antropomórfico.

É o próprio artista que escolhe a disposição das suas peças. É um ato que reforça a autoria, mas que, ao mesmo tempo, retira o acaso, elemento essencial ao jogo. E essa disposição pensada e escolhida é também um ato performativo do artista com a sua obra.

Gigante, um esqueleto de bronze que para Tropa mais do que o próprio Pirgo, é a obra de onde deriva toda a exposição, faz a ligação às duas figuras encontradas a jogar nas escavações das termas de Chaves. Tropa assume que já escolheu outras disposições para os ossos que compõem este esqueleto. E ainda que civilizações antigas usassem ossos como dados em jogos de sorte, cada osso desta escultura está posicionado de forma meticulosa e calculada.

Assim o faz, de igual modo, com as várias componentes de uma das obras da série Scripta, em que peças de fruta estão dispostas sobre uma superfície têxtil, como se fosse uma toalha de mesa posta para almoçar, uma espécie de natureza morta tridimensional. Também aqui, parece haver um acaso, um jogo de sorte as frutas terem rolado por cima da mesa, mas temos a certeza de que foram meticulosamente dispostas sobre as riscas da lona colorida.

A arqueologia tem um lugar importante no mundo da arte moderno. Até meados do século XX, sempre que há fases de grandes descobertas arqueológicas (Herculano e Pompeia, Túmulo de Tutankamon, etc.), vemos esses momentos plasmados em diferentes manifestações na História da Arte. Ainda hoje, qualquer artefacto proveniente da mais recente escavação arqueológica origina eventos e tem repercussões sociais e artísticas à escala mundial. Continuamos fascinados pelo passado. Mas em Tropa a arqueologia é o ponto de partida habitual para um novo trabalho. E os seus trabalhos são de conjunto e o seu pensamento faz-se em termos expositivos.

Para além da arqueologia, Tropa convoca inúmeras referências artísticas, cinematográficas e literárias como Beckett, Lygia Clark ou Giorgio Morandi, homenageando esses artistas ao mesmo tempo que cria camadas narrativas nas suas peças.

Assim, enquanto lança a dúvida no visitante sobre o que é artefacto arqueológico ou o que é obra de arte criada por si próprio, perpetua esse movimento de jogo ou de diálogo entre artista e visitante. E a brincadeira vai mais longe com a cumplicidade do próprio Museu Gulbenkian, extravasar o seu local de acolhimento no piso inferior, com duas das suas obras expostas na sala Greco-romana da Coleção do Fundador.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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