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Espaço Real

Desde os 13 anos que Gonçalo Conde sente a necessidade de estar ligado às artes. A sua paixão maior é a moda, mas a porta de entrada para esse mundo foram as antiguidades que coleciona desde os vinte anos. A vida levou-o a optar por medicina dentária, mas os sonhos não ficaram esquecidos. Em 2005, foi para o curso pós-laboral de joalharia contemporânea da Ar.Co com o objetivo de absorver informação que lhe permitisse concretizar uma ideia que tinha na cabeça há quatro anos: abrir uma galeria de arte. Esse sonho tornou-se realidade a 16 de fevereiro de 2019 e chama-se Espaço Real.

O nome da galeria não é apenas uma alusão ao sítio onde está localizada – Príncipe Real. É o espelho de uma intenção. Aqui pretende-se criar um espaço de liberdade, distante da rigidez do pensamento científico que ocupa metade do dia-a-dia de Gonçalo Conde. Um lugar que acolha a necessidade de desformatação e de se despirem de rótulos que sente por parte dos artistas que o rodeiam. “E isso faz todo o sentido no contexto contemporâneo, onde vemos uma necessidade de mensagem, de experimentação. Não há materiais, não há regras estéticas rígidas. Há a necessidade de romper padrões. Neste espaço, é isso que eu pretendo”, diz com um sorriso tímido.

Essa timidez é uma constante na conversa, tentando sempre certificar-se de que passa a mensagem certa. Não acha que o Espaço Real vá dar aos artistas mais do que as outras galerias já dão. Cada uma tem o seu papel. “Mas eu senti que há uma urgência em comunicar e quem comunica tem um espaço maior”, explica. Há uma necessidade em aproximar a arte do público, tornando-a menos hermética através do discurso direto dos artistas. “O Espaço Real é isso. Um espaço real, de comunicação real, de comunicação acessível. Não acho que haja necessidade de digerir a informação e dá-la já mastigada, mas é preciso ser disponível e próximo para que as pessoas pesquisem por si e desenvolvam interesse”, conclui.

 

Coração real

A seleção dos artistas presentes na galeria tem um critério emocional. “Não sei se isso é bom ou mau, mas quero dar voz aos que me acolheram, que me ensinam e me constroem”, diz Gonçalo Conde. Figura central neste grupo é a joalheira Inês Nunes. Foi sua professora na Ar.Co e o fascínio foi imediato. “Eu era um mau aluno, confesso. Ia com o objetivo de criar este espaço, ia absorver. Eu sentava-me e só queria ouvir a Inês falar. A Inês tem sido uma guia. É ela que me explica o universo da arte contemporânea, a necessidade da mensagem que ultrapassa a técnica, que ultrapassa tudo. Este espaço tem muito da Inês”, diz.

Na verdade, o Espaço Real é uma identidade em transformação. As antiguidades marcam presença em paralelo com as peças de arte contemporânea. Dentro das antiguidades, metade do acervo é da coleção privada de Gonçalo Conde e a outra metade são peças da Fundação Ricardo Espírito Santo (o Espaço Real é a primeira galeria a representar a Fundação). Mas se ao início as antiguidades foram a muleta necessária para dar este passo, começam a parecer cada vez mais dispensáveis. Neste momento, faz sentido caminhar na direção de um espaço só de arte contemporânea. “As antiguidades são muito impessoais e estáticas. A felicidade que me trouxe a inauguração do espaço e a forma como todos estivemos nesse processo deu-me uma noção muito mais humana da arte que as antiguidades não dão. É tão mais rica esta ligação ao artista ou ao curador que trabalha a obra de um artista que já cá não está. Essa ligação humana vem também muito da minha profissão. Eu adoro pessoas, tratar pessoas. É isso que absorvo da Saúde: tratar e cuidar”, explica Gonçalo.

No entanto, o caminho faz-se caminhando e sem pressas. Para alguma surpresa (e satisfação) de Gonçalo Conde, muitos dos artistas que entram na galeria querem propor trabalhos em comunicação com o espaço, em diálogo com as antiguidades. E isso só pode querer dizer que alguma coisa está certa. A 3 de Maio inaugurou a exposição A God Called Money, de Fábio Colaço, que trouxe instalação, vídeo e fotografia para a conversa com as antiguidades do Espaço Real. A curadoria é de Carolina Quintela, outro dos pilares de Gonçalo Conde na construção deste projeto, que voltará em nome próprio à galeria em setembro com uma exposição que marca o seu regresso à escultura.

Antes disso, em junho, é a vez de Diogo Ramalho expor no Espaço Real com Inês Nunes a sair do seu papel de artista e a vestir a pele de curadora. “Isto também é uma desformatação. Trazer um artista para fazer um trabalho que não é o seu, que não está na sua zona de conforto. Porque podem e sabem fazê-lo”, explica Gonçalo.

Em todos os casos diz que nunca interfere na liberdade criativa e expositiva. Todos os artistas estão à vontade para mexer, acrescentar e retirar o que quiserem. O Espaço Real é um lugar de liberdade absoluta, porque é um reflexo da evasão que Gonçalo Conde sempre procurou para si próprio. Estar cada vez mais perto desse objetivo é algo que se sente no batimento cardíaco das paredes. Aqui é possível respirar fundo e exalar sem pressas.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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