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Refúgio nos Açores e o EASTMAN

“For me a journey is to return”, escreve Hun Chung Lee. Lembro-me agora quando regresso aos Açores para o reencontrar. Conhecemo-nos em Lisboa quando Lee estava em residência e daí surgiu uma relação de cumplicidade, como é natural, quando se acompanha a produção artística de alguém. Na altura houve a vontade que se repete agora na ilha, fugir da megalomania do seu atelier, ser anónimo. Ter tempo para usar as mãos. Para quem o observa, meditar de forma ativa.

Em Seul não é fácil. Um atelier em grande escala, assistentes e solicitações, chamadas ou reuniões ocupam a maioria do dia. E, na verdade, se há sítio com tal aura contemplativa ou mística é este arquipélago no meio do Atlântico.

Em Lee é muito presente uma vontade por aquilo que está no meio: equilíbrio, balanço, e o processo de tudo isso, tanto no trabalho como na vida. Sendo que uma se funde na outra e a sua casa é, também, a sua obra. A sua prática encontra-se precisamente neste cruzamento de disciplinas, entre ser uma coisa e o seu inverso, sem etiquetas ou ilações finais. Mais do que onde se chega é o caminho que se faz que importa: a viagem. Sempre a jornada. Assim, é neste contexto que chego ao Pico do Refúgio para acompanhar o resultado do seu mês em residência artística. Alojado numa quinta do início do século XVII na costa norte, o turismo rural Pico do Refúgio – Casas de Campo é, efetivamente, também refúgio para muitos artistas.

Como é costume neste programa impulsionado por Bernardo Brito Abreu, a cada nova residência realiza-se um open-day, onde o convidado dá a conhecer publicamente o seu projeto. Projeto esse de total liberdade artística, sem temas nem restrições. Apenas, como me conta, esperando “uma resposta ao lugar”. Desta forma, e depois de uma conversa introdutória, Hun Chung Lee apresenta-nos o momento final da sua estadia: uma queima performativa. Para tal, começa por pedir aos participantes para escreverem num papel uma frase, ideia ou desejo e, só então, caminhamos rumo à colina. Lá se encontra a escultura concebida: EASTMAN. Uma cadeira composta por cimento e vários tipos de argila presentes em S. Miguel, ao lado do molde de madeira serrada que lhe deu forma e onde cada visitante coloca os seus escritos. Por fim, pega-se fogo ao negativo que arde juntamente com os papéis, até se tornar cinza. Tudo isto quando o dia se torna noite.

Momento-performance, o ato de reunir à volta da fogueira, esta ideia de círculo, de propagação é um costume ancestral: de histórias, de ideias, da própria chama. Hipnótico, intenso, celebrativo por vezes, introspetivo outras. É nestes polos que navegamos, assim como já tinha ensinado Lee. Estamos entre a escultura que fica e o molde que já não se vê.

Habituado a trabalhar em cerâmica, é a ação do fogo que torna o trabalho modelado resistente ao tempo e mais belo, talvez. Contudo, dos quatro elementos que intervêm no processo de cozedura só a terra permanece. Tal como agora que apenas resta a obra composta de diferentes camadas de solo. Cada camada com diferentes tipos de histórias, proveniências, épocas. À semelhança da ilha que nos cerca: “um vestígio da acumulação do tempo”. À semelhança da nossa pele. Cada um à sua maneira, a ilha, a escultura, o corpo humano, todos vestígios e todos sujeitos à erosão, ao olhar, à degradação. E, neste paralelismo, EASTMAN somos nós e o fogo, metáfora da própria vida que “não pode ser controlada” e das forças de mudança e transformação que nos rodeiam e conferem, por vezes, solidez.

Talvez seja esta uma das muitas leituras possíveis que escrevo a partir desta “casa de sonhos”, onde se desafia artistas a “deixarem-se contaminar pelo lado humano, pela história, pela memória e pelo território insular, contaminando de volta a paisagem e as pessoas que os acolheram”.

Apenas mais uma reflexão que se desprende como uma centelha do corpo em brasa, e deixa adivinhar o potencial deste território e projeto. No momento de regressar sei que, pelo menos, por mais uns largos tempos poderemos todos observar a escultura de Hun Chung Lee EASTMAN no pico do Pico do Refúgio e, até dia 30 de junho, alguns dos desenhos que lhe deram origem. Desenhos esses presentes na exposição com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, O olhar divergente – As Residências do Pico do Refúgio como património prospetivo, patente no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas juntamente com mais todos os outros artistas que por cá passaram num total de 65 obras em exposição.

 

*Carolina viajou a convite do Pico do Refúgio – Casas de Campo para acompanhar a performance de Hun Chung Lee.

Carolina Trigueiros vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Comunicação Cultural (2013) entre Lisboa e Barcelona e com uma pós-graduação em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa, tem vindo a trabalhar na área da curadoria, produção e escrita.

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