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Dalaba: Sol d’Exil, de Ângela Ferreira

“Falemos de casas como quem fala da sua alma”.

Esta passagem do poema Prefácio escrito por Herberto Helder em 1961 para o livro A Colher na Boca, ilustra o trabalho desenvolvido por Ângela Ferreira para a exposição Dalaba: Sol d’Exil através do qual convoca a casa em que Miriam Makeba e Stokely Carmichael viveram durante o seu exílio na Guiné-Conacri, a convite do então presidente Sékou Touré.

Trata-se da primeira exposição do projeto Reação em Cadeia comissariado por Delfim Sardo e que resulta da colaboração entre a Fidelidade Arte e a Culturgest. Durante três anos haverá exposições dos trabalhos de três artistas por ano no espaço Fidelidade Arte em Lisboa que transitarão para a Culturgest Porto sofrendo necessariamente transformações e adaptações ao espaço com características muito diferentes do anterior. A proposta passa pelo envolvimento dos artistas na escolha do artista que lhes sucede.

De origem Moçambicana, Ângela Ferreira (Maputo, 1958) viveu e estudou na África do Sul desenvolvendo, face à sua condição de “menina branca”, um trabalho artístico pautado por um contínuo diálogo com a arquitetura enquanto símbolo de determinados contextos político-sociais relacionados com a História colonial, passado “esquecido” durante muitos anos por Portugal, ou com personagens relacionadas com estes contextos.

Miriam Makeba (Joanesburgo, 1932-Castel Volturno, 2008), cantora sul-africana, mulher, ativista na luta pelos Direitos Humanos e contra o regime do apartheid, tornou-se modelo e inspiração na vida de Ângela Ferreira. O seu contributo e impacto motivaram uma homenagem através do seu trabalho, como aliás tem vindo a acontecer em alguns momentos do percurso da artista, citando-se as homenagens feitas ao jornalista Moçambicano Carlos Cardoso ou à poetisa sul africana Ingrid Jonker.

A evocativa história pessoal de Miriam Makeba deu origem ao trabalho apresentado em Dalaba: Sol d’Exil. Nos anos 60, ao sair da África do Sul em tournée é-lhe retirado o passaporte. Forçadamente exilada, fixa-se nos Estados Unidos da América onda acabaria por casar com Stokely Carmichael, membro do Black Panther Party. O seu casamento agudiza a sua politização fazendo com que seja impedida de entrar nos E.U.A. Na altura, Sékou Touré, então presidente da Guiné-Conacri, ofereceu-lhe asilo político.

Dalaba, a cerca de 300 quilómetros de distância de Conacri, com uma paisagem semelhante à de Joanesburgo, cidade natal de Miriam Makeba, foi o lugar escolhido para se fixar. Apesar do exílio, a ligação às suas origens acabaria por estar permanentemente presente. Aí construiu uma casa cuja forma circular remete para a tradicional casa africana, rondavel, e no interior as paredes são revestidas por motivos típicos da arquitetura de Conacri. A escolha em integrar estes motivos na sua casa sugere uma aceitação e envolvimento com a cultura local do lugar que a acolheu perante a sua situação desterrada.

A casa evoca, assim, um solo de exílio. É essa memória que Ângela Ferreira transpõe para a exposição através de um conjunto de três objetos escultóricos metafóricos que remetem para diferentes elementos da casa de Miriam Makeba. A varanda, lugar de onde se avista a paisagem que envolve e contamina a casa em Dalaba com as memórias de Joanesburgo; o alpendre através do qual se tem acesso ao interior da casa, cuja estrutura e configuração remetem para uma arquitetura modernista construída durante os últimos 15-20 anos do período colonial; e a cobertura em cone do espaço central da casa que remete para a sua forma de rondavel, sendo que a terceira escultura não está exposta em Lisboa, integrará apenas a exposição na Culturgest Porto.

Casa e exílio constituem à partida ideias contraditórias. Casa, pressupõem um enraizamento, uma fixação ou estabelecimento num determinado lugar enquanto que exílio implica um movimento de um lugar para outro ou seja, um desenraizamento. Ao desmembrar a casa, Ângela Ferreira torna-a transportável e o gesto de suspender cada uma das suas partes, livrando-as de quaisquer fundações materializa assertivamente esse desenraizamento contraditório da casa.

Perante o espaço fragmentado e a mostra do trabalho de alguém que concebe maioritariamente grandes projetos unitários, houve a necessidade de ligar não apenas os espaços, mas também os vários elementos em exposição. Através de um gesto autobiográfico, Ângela Ferreira concebeu um elemento âncora composto por cabos de aço que atravessam as várias salas e unificam todo o projeto. A peça remete para um imaginário relacionado com mecanismos de transporte e alude à memória do teleférico da Cidade do Cabo, cidade onde a artista viveu.

Ângela Ferreira transporta-nos assim para o universo humorístico de Buster Keaton, das casas que se desmantelam, já que através da imaginação, conseguimos visualizar os fragmentos de casa de grandes dimensões a moverem-se ao longo dos cabos de aço que unem as diversas salas de exposição.

Para além da sugestão de movimento dos objetos escultóricos estáticos, existe ainda um movimento circular implícito no percurso expositivo que é pautado pela cor azul, original dos motivos típicos de Conacri que integram a arquitetura da casa. A exposição arranca com um mural onde Ângela Ferreira desenha com essa mesma cor uma vista do interior da casa onde são visíveis esses motivos e termina com um pano de parede preenchido na totalidade no mesmo tom.

O som da canção A Piece of Ground de 1966 de Miriam Makeba que se refere à perca da propriedade do solo do povo colonizado para o povo colonizador, acompanha e dá sentido à exposição centrada na memória da história de alguém que cria o seu próprio solo, my own piece of ground, através da construção de uma casa num lugar onde não pertencia.

Pegando novamente na citação de Herberto Helder no início do texto, Ângela Ferreira fala da casa de Miriam Makeba como quem fala da sua alma. Da nostalgia triste e feliz, pessoal, histórica e política, embebida na sua arquitetura, que vai para lá da sua interpretação meramente formal e compositiva passando pelas memórias contidas em cada um dos seus elementos, seja um alpendre, uma varanda ou uma cobertura.

 

Dalaba: Sol d’Exil, exposição que assinala o arranque do projeto Reação em Cadeia, poderá ser vista até 17 de maio no espaço Fidelidade Arte em Lisboa e na Culturgest Porto a partir de dia 31 do mesmo mês. A 6 de Junho inaugura no espaço Fidelidade Arte a segunda exposição do projeto com trabalhos do artista americano Jimmie Durham (Houston, Texas, 1940).

Na sequência da sua exposição em 1997 na Galeria Módulo em Lisboa, serão reunidas as peças concebidas em torno o livro de José Saramago O ano da morte de Ricardo Reis, para além de uma nova peça concebida especialmente para esta exposição. Tal como nas duas exposições de Ângela Ferreira, as soluções adoptadas nos espaços de Lisboa e do Porto serão completamente diferentes.

Em conjunto, Delfim Sardo e Jimmie Durham já selecionaram a terceira artista que integrará a programação do projeto Reação em Cadeia deste ano, Elisa Strinna (Pádua,1982). No final de cada ano será lançado um livro que reunirá a memória das três intervenções do ano anterior.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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