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João Onofre, Once in a Lifetime [Repeat]

Há alguns anos, um artista só tinha uma exposição antológica quando chegava a uma respeitosa idade. Felizmente, hoje em dia ter uma antológica já não significa que se é um artista idoso, mas sim, que se tem um vasto e significativo corpo de obra. É este o caso de João Onofre (1976), artista que utiliza sobretudo o vídeo como manifestação artística, mas que, como podemos ver até ao final da semana na Culturgest, trabalha sobre outros materiais, como a fotografia, o desenho ou até o som, em obras exclusivamente sonoras. Neste sentido, é bastante interessante a forma como utiliza o som, mesmo nos vídeos. Seja através de um trabalho de folleys minucioso, seja em vídeos musicais, João Onofre trabalha o som: os ambientes ou a ausência deles, até os decibéis debitados estão cuidadosamente estudados (há alguma contaminação sonora entre obras que não acreditamos que seja casual numa exposição desta envergadura).

Onofre utiliza ainda a performance registando-a em vídeo, como podemos ver na obra Untitled (zoetrope) (2018-2019), criada especialmente para esta antológica. A música I want to know what love is dos Foreigner reúne no mesmo espaço uma banda musical, um coro de gospel e uma equipa de rugby. Todos eles tentam, à vez, cantar a música para um microfone suspenso no centro e todos eles são impedidos por placagens dos jogadores. Um plano-sequência “Sukuroviano” de duas horas e meia mostra-nos uma espécie de loop das tentativas de cantar e das placagens, em que o esgotamento físico faz a interferência. Este plano-sequência retira ao vídeo um dos elementos mais importantes de um filme: o processo de montagem, que para Gilles Deleuze transforma a imagem-movimento em imagem-tempo[i], determinando a duração e o ritmo de um filme. Mas Onofre constrói dentro do vídeo esse processo através da repetição.

A repetição é uma constante no trabalho de Onofre. A mais óbvia será o loop do vídeo, mas também existe nas diversas cadências musicais, como nas obras gráficas compostas por diversas séries Running dry series(2005 – 2007), Five Words in a Line series (2006), Degradation (2007) ou a Black monochrome series (2008), em que Onofre utiliza a linguagem não só como mancha gráfica, mas também como base para apagar, colorir ou desconstruir.

A repetição é uma atitude musical. A sistematização de pedaços sonoros, que juntos compõem um tema, vive da repetição desses diferentes pedaços, da mesma forma que vive de um conjunto de notas que dispostas de certa forma originam uma música e dispostas de outra forma originam algo diferente. O conjunto dessas notas pode também ser traduzido em caracteres impressos. Assim o faz Onofre em Untitled (I see a Darkness original vídeo score) (2007), a partitura do vídeo Untitled (I see a Darkness) do mesmo ano: num estúdio de som duas crianças cantam e tocam esta música cujo negrume e letra não se adequam às suas idades. Como Onofre não tem medo de mostrar a imperfeição ou o seu processo (também nos mostra o seu estúdio noutras três obras) vemos uma das crianças a rir-se e a olhar alguém (que podemos imaginar que é o próprio artista ou um parente da criança) enquanto canta “(…) alone or with our wives, and we can stop our whoring and pull the smiles inside and light it up forever (…)” desconstruindo de certa forma a mise-en-scène através da espontaneidade infantil e transformando uma canção suicidária numa versão ligeira e simpática. Essa desconstrução é patente em muitas das suas obras. A mise-en-scène é cuidada, mas é frequentemente desconstruída num processo de exposição cúmplice com o espectador, numa atitude mais conceptual que vem das vanguardas artísticas, mas que enforma os seus vídeos, como considera Wim Wenders “Cada filme é, simultaneamente, também um documentário de si próprio e das suas condições”[ii].

Há uma certa leveza nas peças de João Onofre. Há um piscar de olho ao espectador, uma espécie de cumplicidade que se cria, e embora a morte seja uma temática recorrente, como por exemplo na série Every Gravedigger in Lisbon (2006), nunca o é de forma chocante. Para isso também contribui o seu sentido de humor e uma leve ironia que atravessa as suas obras como o próprio título Once in a life time [repeat], que remete não só para essa noção de repetição musical, como para aqueles momentos em que todos dizemos que são únicos e que na realidade são cíclicos. João Onofre exige-nos disponibilidade temporal, para ficarmos a ver os seus vídeos, mesmo que estejamos de pé, e disponibilidade mental, para embarcarmos nessa viagem subtilmente irónica e contemplativa que é o percurso expositivo pelos seus mais de 15 anos de obras patentes ao público na Culturgest.

 

[i] Deleuze, Gilles, A Imagem Movimento, Cinema I. Lisboa: Assírio & Alvim, 1983, 2ª Edição

[ii] Wenders, Wim, A Lógica das Imagens. Lisboa: Edições 70, 2010, p.18

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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