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Sindicato dos Pintores: Diálogos sobre pintura

“A pintura começa onde já não se pode falar dela, onde as palavras fracassam e vogam à deriva.”

Júlio Pomar

Pintores a falar de pintura, um diálogo aberto, é o que propõe o conjunto de exposições de pares de pintores que integram o Sindicato dos Pintores, organizado pela pintora Mariana Gomes. Iniciado em dezembro 2018, conta já com duas edições e anuncia outras, em datas por definir.

Joana Duarte – Enquanto pintora e organizadora, como surgiu o Sindicato dos Pintores?
Mariana Gomes – Andava com vontade de falar com pares de pintores, pois penso que nós temos uma maneira de estar no atelier muito mais recolhida, cada pessoa está envolvida no seu trabalho. Por vezes, falar sobre pintura é algo que nos ajuda muito a pensar a nossa própria pintura, a descobrir coisas uns com os outros, a estabelecer um diálogo. Para além disso, penso que não tem havido assim tanto espaço para a pintura como poderia haver.

JD – Porque achas que isso está a acontecer?
MG – Penso que há muito receio de ver uma imagem parada. Só que a pintura não tem que ser uma coisa em movimento, não tem que ser uma coisa interativa. Uma pintura é uma pintura, que é descoberta ao olhar para a própria imagem estática.

Talvez nos tempos que correm seja mais fácil expor algo que use a tecnologia, que seja interativo. Até as próprias montagens de exposições de pintura têm um certo lado cenográfico, “instalativo”, jogando muitas vezes com papéis de parede, etc. Não é exposto apenas o trabalho, mas sim algo que torne o trabalho mais apelativo, como se ele não fosse já suficientemente apelativo. Talvez por isso a pintura fique um pouco para trás em comparação com a instalação ou com o vídeo.

JD – O que é afinal o Sindicato de Pintores, com presidentes que são no fundo os pares de pintores de cada uma das exposições?
MG – A ideia de cooperativa e até de movimentos, que já se tentaram fazer, não é uma coisa nova, apesar de, regra geral, tudo acabar por se dissolver. O Sindicato dos Pintores insere-se num universo um bocadinho jocoso já que cada pintor, cada artista, quer ser o único artista, por mais que sejamos interessados no trabalho dos outros, estamos sempre focados no nosso especialmente. No fundo o projeto do Sindicato dos Pintores tem esse lado irónico de ser um pouco o oposto.

Por outro lado, existem muitos pintores, especialmente de faixas etárias mais elevadas, que noutros países não têm o tratamento que têm aqui em Portugal. Não há espaço para sair do circuito, para mostrar pessoas de todas as gerações, tipos, origens, públicos, influências, etc. Ninguém quer saber de uma série de pintores que tiveram carreiras brilhantes. A escolha das gerações tem também a ver com isso, já que há trabalhos tão bons de pessoas que têm muito pouca visibilidade.

Logicamente que a ideia de sindicato é algo reivindicativo, de direitos, etc. E o Sindicato dos Pintores também tem esse lado humorístico, de reivindicar um espaço da pintura, que existe, mas que está mais reduzido. Os pintores participantes são os presidentes de cada edição e o facto de colocar a fotografia do par à entrada da exposição é no fundo o “dar a cara” pela escolha deles, pelo diálogo deles. É uma espécie de foto de família da exposição.

JD – Em relação ao público alvo, este conjunto de exposições é mais voltado para os próprios pintores ou para outro tipo de público?
MG – Não é apenas voltado para pintores. A minha ideia é trazer para fora a conversa que normalmente fica dentro de paredes, dentro do atelier. De abrir as portas para esse universo da pintura, de quem a vive. Porque é uma doença!

JD – Porque optaste por escolher pares?
MG – No fundo eu só faço a mediação. São os pintores que escolhem os trabalhos e que decidem o que querem fazer na exposição. E achei que para já, tendo em conta que a minha disponibilidade como organizadora não é assim tanta, pensei que duas pessoas para entrarem no universo uma da outra, seria mais fácil.

JD – Selecionas apenas pintores portugueses?
MG – Para já sim, queria que estas primeiras edições fossem com artistas portugueses, precisamente porque temos tantos e tão bons! Apesar de que se surgir a possibilidade de integrar um pintor estrangeiro, e fizer sentido para aquela edição, não direi que não.

JD – A duas edições do Sindicato dos Pintores contaram com os pares de pintores Carlos Correia e Pedro Calapez e Pedro Chorão e Sérgio Fernandes. Fala-nos destes pares.
MG – No caso da primeira edição, o Pedro Chorão é um pintor que eu gosto muito, que tem um trabalho de pincelada, como ele diz, muito atuante. É alguém que vive e que é muito genuíno em relação àquilo que faz. Achei que o Sérgio era a pessoa indicada para dialogar com o Pedro, porque também é uma pessoa muito genuína em relação àquilo que faz e é um pintor que não tem tido tanta presença em Lisboa e que tem um trabalho muito bom. Por fim, não sei bem explicar, tem haver com intuição, pensei “isto vai resultar e vai ser bom!”. E assim foi. Espetacular, correu tudo muito bem e penso que ambos os pintores ganharam um com o outro.

A segunda edição foi diferente já que teve um diálogo construído a partir do que era para ter acontecido. Ou seja, o Pedro Calapez foi contatado pelo Carlos Correia, antes de falecer, e esse encontro foi sendo adiado. Quando falei com o Pedro acerca de fazer uma edição do Sindicato, ele imediatamente referiu que o queria fazer com o Carlos Correia.

Neste sentido, o trabalho que o Pedro desenvolveu, vai de encontro ao trabalho do Carlos, sendo, portanto, um tipo de diálogo completamente diferente e que não deixou de ser uma celebração do trabalho do Carlos. Mostrou-se o trabalho dele, porque o trabalho dele é que ficou.

JD – Qual a duração e estrutura de cada edição do Sindicato dos Pintores?
MG – A duração de cada edição depende do tempo que o espaço onde acontece está disponível. Poderá ser um mês e meio no máximo e 1 semana no mínimo. Poderá haver exceções: se por exemplo houver oportunidade de uma exposição acontecer num espaço extraordinário que só possa ser ocupado durante dois dias, porque não avançar? Há espaço para tudo, desde que faça sentido.

Quanto à estrutura de cada edição, no arranque há sempre uma inauguração. Poderá depois organizar-se uma conversa de encerramento, normalmente mediada por outro pintor convidado. Na primeira edição, a conversa entre o Pedro Chorão e o Sérgio Fernandes foi moderada pelo pintor Paulo Brighenti. As conversas, assim como os vídeos de conversas de atelier vão ser colocados online. A ideia é fazer uma compilação de documentos sobre pintura e sobre pintores.

JD – As últimas duas exposições aconteceram em sítios diferentes, onde serão as próximas edições?
MG – O Sindicato é um pouco itinerante, ou seja, pode acontecer em qualquer lado, dentro do possível claro. No caso dos espaços que até agora acreditaram no projeto e abriram generosamente as suas portas para o acolher, foram o Armário e a Appleton – Associação Cultural, ambos em Lisboa. Não significa que as próximas edições se realizem nos mesmos espaços, já que o Sindicato não tem um sítio fixo e é um projeto aberto a propostas colaborativas.

JD – Quantas exposições do Sindicato dos Pintores haverá e quanto tempo durará o projeto?
MG – Neste ano galerístico, acontecerão quatro exposições, ou seja, serão expostas obras de oito pintores. E talvez em setembro ou outubro haja outra exposição. Para o próximo ano talvez mantenha o ritmo deste ano.

Eu gostava que o projeto não tivesse fim, mas não sei se isso será possível.

E depois há a questão da caderneta… Quando a caderneta ficar completa vamos tentar fazer uma publicação e quem sabe uma exposição coletiva com os pintores que participaram e outros pintores convidados. Assim… uma festa da pintura.

JD – Fala-nos da caderneta e dos cromos que acompanham cada exposição.
MG – A caderneta foi uma ideia que eu tive para fazer, uma espécie de documento da exposição, mas que funciona igualmente como um livro de artista coletivo, de múltiplos. Sendo um Sindicato, esses múltiplos teriam que ser acessíveis para serem comprados e colecionados. Neste sentido, surgiu a ideia de cada pintor conceber um cromo no âmbito da sua exposição, que pode ser adquirido pelo público. Como não existe uma galeria, o dinheiro da venda dos cromos é para os artistas e o que resulta da venda da caderneta destina-se à produção.

JD – Trata-se, portanto, de um projeto não financiado.
MG – Sim, faço-o por “amor à camisola”. Resolvi começar o projeto para ver se resultava, sem pedir apoios, de modo a conseguir apresentar algo palpável, que penso agora já ter.

Ensaios sobre pintura e sobre a natureza do olhar, um olhar de pintor, poderão ser vistos na próxima edição do Sindicato dos Pintores, em julho.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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