Top

Entrevista a Filipa Oliveira, curadora do Navigator Art on Paper Prize 2019

Filipa Oliveira é a curadora da segunda edição do Navigator Art on Paper Prize, um prémio que procura distinguir o que de melhor se produz em papel do ponto de vista internacional.

A arte contemporânea estimulou a experimentação e a hibridização de técnicas e meios, e longe vai a associação imediata de que o papel é o suporte do desenho. Como a curadora refere, o papel “é uma forma de pensar o mundo” e nele cabe o desenho, a gravura, a pintura, a fotografia ou a impressão. A bidimensionalidade também foi questionada e o papel serve agora de base para trabalhos que rompem a planaridade e se expandem no espaço tridimensional.

Anunciados os finalistas, Filipa Oliveira fala-nos do prémio, da evolução da utilização do papel, do seu lugar na arte contemporânea, ao mesmo tempo que sistematiza o que de mais relevante há a sublinhar em cada um desses finalista, com percursos e abordagens muito distintas.

A 2ª Exposição Navigator Art on Paper Prize decorre de 17 de maio a 1 de junho, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e os interessados podem acompanhar todos os desenvolvimentos do prémio na conta do Instagram ou no site respetivo.

 

José Pardal Pina – O papel está muito associado ao desenho, mas não é exclusivo ao mesmo. É um material quente, com muita versatilidade e uma grande variedade de texturas e tonalidades. Qual é a verdadeira importância do Navigator Art on Paper Prize para a arte contemporânea e a arte feita em papel?

Filipa Oliveira – Concordo inteiramente que apesar da associação imediata e óbvia do papel ao desenho, trabalhar sobre papel não é apenas desenho: é escultura, fotografia, pintura, gravura. É um outro campo de trabalho e de pensamento. A importância do Navigator Art on Paper Prize é exatamente valorizar a arte que é feita com papel. Dar-lhe uma nova visibilidade, apoiar os artistas que escolhem este meio e mostrar ao público que o papel não serve apenas para escrever, imprimir ou tirar fotocópias. O papel é um elemento absolutamente único e com uma ligação à criatividade como quase nenhum outro material. E é também por esse motivo, por valorizar o papel como um suporte de excelência para a produção artística, que o Navigator Art on Paper Prize é um prémio único no panorama da arte contemporânea, enriquecido pelas diferentes vozes dos artistas nomeados que permitem conhecer novas abordagens, novas visões sobre o papel, num incentivo à valorização dos seus percursos e do seu corpo de trabalho.

JPP – Durante muito tempo considerou-se o desenho uma fase intermédia de obras posteriores de pintura, escultura ou arquitetura e, como tal, foi subvalorizado. Esse estigma foi completamente ultrapassado?

FO – Eu acredito que o desenho já não é o parente pobre da arte, contudo, em termos de valor de mercado, as obras sobre papel são geralmente menos valiosas do que uma pintura a óleo, por exemplo. Nesse sentido, penso que ainda há muito caminho a fazer para valorizar o desenho. Mas há cada vez mais colecionadores interessados neste meio, cada vez mais feiras dedicadas ao desenho e cada vez mais galerias e museus que mostram e valorizam o desenho como medium.

JPP – A expansão do desenho trouxe uma liquefação dos conceitos e das fronteiras do que pode estar, por exemplo, entre um desenho e uma pintura. Neste contexto, é importante questionar: o que é exatamente um desenho, ou o que faz de determinada obra um desenho? A materialidade? A linha? O ponto? Podemos ver o problema neste ponto de vista tão simplista?

FO – Acho que as divisões das disciplinas deixaram de ser tão fáceis de determinar e cada vez mais se justapõem, fazendo com que por exemplo a pintura se transforme em escultura ou a escultura em desenho. Rosalind Krauss, num ensaio de 1979, afirmou que a escultura produzida naquela época se encontrava no que ela definiu como o campo expandido. Esta expressão foi adaptada e é amplamente utilizada para caracterizar, como refere muito bem, a essa liquidificação das fronteiras que hoje está presente na arte contemporânea. O desenho é linha e é ponto, é figuração e abstração, mas é para mim muito mais do que isso, é uma forma de pensar o mundo.

JPP – Na pintura, a arte contemporânea pugnou-se pela hibridização dos media. Muitos artistas exploraram a pintura para lá da sua planaridade, com aproximações, por vezes, à escultura. É possível pensar de forma análoga para o desenho?

FO – O desenho, como a pintura, saiu também do plano bidimensional. Há muitos exemplos disso quer na história moderna quer na contemporânea. Estou, neste momento, a preparar uma exposição para a Casa da Cerca de mulheres que do final dos anos 60 até ao início dos 80, em várias geografias, transformam radicalmente a linha do desenho em esculturas tridimensionais. Uma delas é a nossa Helena Almeida, que usou a crina de cavalo para fazer a linha do desenho sair do plano.

JPP – O desenvolvimento tecnológico trouxe uma nova forma de desenhar: o desenho vetorial ou computacional, trabalhados com o auxílio do computador e de ferramentas que não obedecem exatamente à pulsão física do corpo e do gesto. O Navigator Art on Paper Prize consegue comportar todas estas novas formas de expressão que transitam da arquitetura, da ilustração, do design, para o desenho e para o papel?

FO – O desenho digital é cada vez mais presente no trabalho de inúmeros artistas. Estas novas dimensões do desenho, quando aplicadas sobre papel, são claramente passíveis de serem consideradas para o prémio. Basta um membro do júri nomear um artista que as utilize.

JPP – Consegue traçar-nos o perfil geral de cada finalista e o que de relevante trazem, em termos técnicos e concetuais, para a arte contemporânea?

FO – Neste momento, já são conhecidos os cinco finalistas do Navigator Art on Paper Prize que terão os seus trabalhos em exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes, de 17 maio a 1 junho. São cinco, todos eles extraordinários com uma carreira de mais de 10 anos, condição de participação neste prémio que destaca o percurso do artista e não apenas uma obra em si.

Abu Bakarr Mansaray (n. 1970, Tongo, Serra Leoa) estudou, de forma autodidata, matemática, ciência, física, engenharia e eletrónica. Com estes conhecimentos engendra desenhos que se assemelham a esquemas e diagramas de construção de máquinas por ele inventadas, as quais podem produzir desde fogo, a luz, frio, vento ou água. São desenhos únicos, invulgares, que juntam uma estética simultaneamente futurista, bélica e de ficção científica.

Andrea Bowers (N. 1965, Wilmington, EUA) é uma feminista e ativista cuja obra se debruça sobre temas da política contemporânea (em particular a situação norte-americana) servindo-se do protesto, da procura por uma justiça social e da desobediência como ferramentas para a prática artística. Nas obras que teremos presentes na exposição Bowers questiona o que é o desenho, levando ao limite a exploração do médium, transformando o papel, por exemplo, numa escultura de luz.

Catherine Anyango Grünewald (n. 1982, Nairobi, Quénia) tem como um dos temas centrais do seu trabalho o espaço público e como este é afetado por acontecimentos traumáticos; como este mesmo lugar também é símbolo da opressão sistémica, histórica e económica dos marginalizados. A artista trabalha maioritariamente com lápis de carvão sobre papel por causa do caráter democrático desta ferramenta, comummente utilizada, e, em particular, em contextos não artísticos. Assim exporemos desenhos de grande formato, onde é possível encontrar uma técnica exímia de desenho para falar de temas da política atual mundial.

Maria Berrio (n. 1982, Bogotá, Colômbia) cria grandes colagens, feitas através de uma escolha minuciosa de papel de fontes diversas, que exploram a diversidade das cores e texturas. Construindo narrativas surrealistas, as obras de Berrio inspiram-se na mitologia e no folclore sul americano, bem como na sua própria biografia. Nestes trabalhos encontramos uma outra forma de trabalho sobre papel. Aqui já não explorando a noção de desenho, mas de colagem.

Mateo López (n. 1978, Bogotá, Colômbia) cria desenhos tridimensionais, para serem explorados fisicamente pelo corpo dos visitantes. São esculturas feitas inteiramente de papel que se assemelham de uma forma precisa a objetos do quotidiano, questionando a fronteira entre a arte e a vida. Mais do que uma disciplina artística, o desenho é para López uma ferramenta para habitarmos o mundo.

JPP – Como curadora desta segunda edição – e referindo-me agora mais concretamente ao exercício de curadoria –, é difícil conciliar exercícios e artistas com práticas tão distintas, dentro de um discurso coeso, que fuja à habitual “exposição de concursos”? Será efetivamente o material, o papel, a unir todos esses artistas?

FO – Essa tarefa é de facto difícil, porque à partida há pouco que aparentemente una estes artistas. Contudo, sinto que em todos há uma preocupação política (mais evidente em uns do que noutros) que serve para mim de linha de narrativa. Navega-se entre personagens imaginadas e figuras da história contemporânea para se falar em resistência, em novas possibilidades de discurso político e na forma como a arte pode combater as invisibilidades da história.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

Assine a Umbigo

€24

(portes incluídos para Portugal)