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Rui Chafes, Desenho sem fim

O desenho é o princípio. Antes de saber escrever, desenhamos, mesmo que de forma rudimentar. É o início normal de todos os percursos artísticos, é o método auxiliar da criação artística, é, muitas vezes, o apoio da obra de arte nos bastidores, onde serve o propósito de deixar a obra crescer e evidenciar-se. Mesmo na pintura, o desenho é utilizado como um arranque, é o rascunho. Nos últimos anos tem sido cada vez mais comum os artistas partilharem estes desenhos, pois contêm em si mesmos a linguagem plástica própria dos artistas, mas permitem-nos, muitas vezes um olhar diferente sobre a obra ou sobre o seu processo de criação.

Desenho sem fim é a primeira exposição antológica dos desenhos de Rui Chafes que teve uma primeira apresentação no Centro Internacional das Artes José de Guimarães e pode ser vista agora em Almada, na Casa da Cerca. Para quem esteja familiarizado com o seu corpo de obra, é tanto um reconhecimento como uma surpresa este conjunto de obras em papel. Ao contrário do purismo das suas esculturas, que é dado tanto pela forma como pelo uso recorrente do ferro como matéria-prima, os seus desenhos não são feitos apenas com instrumentos de escrita. Chafes utiliza diversos suportes, incluindo papel kraft e materiais quotidianos, como flores esmagadas, remédios, pó do chão, chá, café e todo o tipo de colagens, numa atitude muito experimental que imprime nalguns desenhos essa qualidade de rascunho ou estudo para obras posteriores. Todos eles contêm o universo de Chafes: a prótese, a doença, a mutilação, o universo feminino.

Confirmamos em Desenho sem fim, que o desenho é uma constante na prática artística de Chafes, que o acompanha, não apenas como técnica adicional de suporte às esculturas, mas quase como uma espécie de diário gráfico que o artista trabalha constantemente quase como quem rabisca, onde conseguimos descortinar nas obras com inscrições manuscritas de pensamentos, confissões ou impressões, a sua cronologia de vida como nos desenhos feitos durante o seu tempo de estudo na Kunstakademie Düsseldorf onde pressentimos o desconforto do estrangeiro: alguém que está longe da sua origem e das suas rotinas.

Há corpos femininos que se transformam em flores e o contrário, como se fossem herbários de órgãos. Há vísceras visíveis, pedaços de corpos, uma moleza malsã e a doença que alastra na série O Pavilhão das Cancerosas (1989) como diz Maria Filomena Molder: “Se o seu grande tema é o da relação entre o corpo e a alma, entre a matéria e o espírito, ou dito de outro modo, entre um abrigo e um que se esconde sempre, o seu lugar natural é o saber do apodrecimento do corpo, da sua tortura, do seu abandono, uma piedade insondável.”[1] É esta relação entre o corpo e a alma que perpassa toda a sua obra, numa espécie de processo xamânico, que era tão caro a Joseph Beuys, e que Chafes admira.

Sentimos ainda um profundo trabalho de mise-en-scène, nestes desenhos que revelam figuras femininas, tanto em O Pavilhão das Cancerosas como na série Nie Wieder (1990-91). Aquelas mulheres estão expostas na sua fragilidade, mas essa exposição é pensada e trabalhada. O traço é depurado e preciso, meticuloso como todo o trabalho escultórico de Chafes. Mesmo as suas colagens ou as obras em que utiliza pó apanhado do chão, têm uma depuração e uma organização que nunca se apresenta casual. Assiste-lhe a mesma intencionalidade das esculturas: essa quase teimosia em domar o ferro.

Não que nesta exposição se pretenda criar esse paralelismo entre as suas esculturas e o seu trabalho sobre papel. Aqui trata-se de mostrar uma faceta menos conhecida do artista, mais íntima, e ajudar-nos a criar uma imagem mais abrangente sobre a sua prática artística e o seu corpo de obra. Entendemos que há em Chafes uma voragem artística que ultrapassa o trabalho escultórico, mas uma voragem que é metódica, minuciosa e delicada. Há em Rui Chafes uma ideia de contenção que em Desenho sem fim, se torna uma convocação de intimidade. O silêncio das suas obras, ainda que contenham pensamentos gritantes e combativos, mantém-se.

 

[1] Molder, Maria Filomena, Matérias Sensíveis, Lisboa, Relógio D’Água, 1999, p.95

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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