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Entrevista a Gabriel Abrantes – As dúvidas de Diamantino

Gabriel Abrantes é, para além de cineasta, artista plástico. À semelhança da personagem do seu último filme, Diamantino, não se limita a rótulos. Entrevistá-lo é perceber esta vontade por tudo aquilo que está no limbo. Interessa-lhe retratar um mundo “mais cinzento” ou, por outras palavras, mais aberto à ambiguidade – onde a arte é também “uma ferramenta para desmontar preconceitos”. E é isso que vemos na sua primeira longa-metragem. Diamantino troca-nos as voltas, baralha conceitos e levanta outras dúvidas.

A primeira longa metragem realizada por Abrantes e Daniel Schmidt (que conquistou Cannes com o Grande Prémio 57ª Semana da Crítica e estreia agora em Portugal) é liberdade e libertadora. Chega-nos como uma lufada de ar fresco, permitindo que a leveza da comédia se misture com a frontalidade daquilo que se quer dizer. As notas que permeiam o filme, aqui e ali, trazem para cima da mesa temas sociais e políticos de inegável pertinência. Estamos perante um Portugal distópico, das questões de género, da clonagem, até à crise dos refugiados, a orbitar em torno da estrela Diamantino. Tal como os tempos em que vivemos: uma amálgama de referências que se vão sobrepondo, misturando referências do plano real ou imaginário e cruzando cultura popular e erudita.

Contudo, no final, Diamantino é também a descoberta do amor. Um amor que “tem razões que a própria razão desconhece”. E não que isto seja uma novidade, tão pouco uma constatação brilhante, mas é nessa simplicidade que reside a beleza (ou tragédia) desta personagem principal. Talvez seja este desfecho – a celebração amorosa (a)típica de um conto de fadas – metáfora para algo maior. Algo que envolve tudo o resto e nos deixa ambíguos.

 

Carolina TrigueirosDiamantino introduz logo no início paralelos com o mundo da arte. Já não há pintores como Miguel Ângelo? Parecer haver aqui uma metáfora para o estado da arte e uma comparação com o mundo do desporto. Como vês isto?

Gabriel Abrantes – Eu pintava quando era miúdo. Comecei aos 7, e aos 13 estava sempre a pintar. Em 2016 quando cheguei a Lisboa fiz duas exposições [de pintura]. Tal está presente em alguns dos meus vídeos, como Olympia, que alude à pintura de Manet, ou o de Brancusi [A Brief History of Princess X]. Sempre tive uma relação forte com as artes plástica nos meus filmes. E sempre questionei qual a relevância das artes plásticas, da pintura, da escultura, para um público mais alargado. Se é que há alguma relevância… Se o que se mostra, e faz, em museus e galerias realmente chega a um grande público, para ter um impacto maior. A questão em Diamantino é diferente. Na Renascença as pessoas ficavam muito fascinadas com a capacidade técnica de Miguel Ângelo ou de Bernini, que parecia quase sobrenatural. Faziam algo que a maioria dos humanos não conseguiria – aquela obra perfeita. Tinham uma capacidade de concentração muito particular e uma proficiência muito específica. Hoje em dia é diferente. Hoje em dia, o lado técnico das artes está menos em evidência, já não há esse choque. A maior parte dos artistas são animais sociais. Então, isso transferiu-se um pouco para o desporto. Quando se vê um desportista a fazer algo que parece impossível ao comum dos mortais, cria-se essa possibilidade de um ato estético, genial.

 

CT – Sobre a relação do génio estético e o desporto, li que Diamantino foi inspirado em textos de David Foster Wallace. Wallace escreve que o segredo do génio é o vazio. E há aquela frase durante o processo de colagem que descobrem que Diamantino “é vazio”…

GA – O Wallace está a falar sobre uma tenista, Tracy Austin, que tinha a mesma idade que ele e [também] jogava ténis. Ambos tinham 15 anos, mas ela era muito melhor. Aos 14 apareceu na capa da Tennis World e aos 16 foi campeã da US Championship. Mas [ela] teve um acidente e deixou de jogar. Então escreve uma memória, uma autobiografia. A crítica de Wallace é que todo o livro são frases feitas, cheias de contradições. Ficou desesperado com o conteúdo, e chega a esta ideia de vazio. Diz que para reagir a bolas de ténis vindas do lado oposto da quadra – com milhares de pessoas a observar – numa fração de segundo, é preciso qualquer coisa… Há também um artigo que sobre Cristiano Ronaldo que diz que ele não sente pressão. Ou o documentário sobre o alpinista Alex Honnold, que faz escalada sem cordas, e as ressonâncias magnéticas revelaram imagens assustadoras. Todos estes nomes, e o Diamantino, aqui, à sua maneira, têm um “espaço” qualquer que é diferente da maioria das pessoas.

 

CT – Mas nesta representação há também muitos clichés. O filme tem esses elementos da telenovela, do conto de fadas. Há ideias ou constatações banais que pela voz de Diamantino tomam outra dimensão. Como se a sua ingenuidade – ou, por outro lado, genialidade – permitisse que estivéssemos mais abertos e prontos e desculpar todas as suas falhas, distrações até.

GA – Esta personagem “infantil” libertou-nos para sermos quase melosos ou “clichés”, e atravessar essa fronteira. Ao sermos sentimentais noutro filme poderia ser irónico, mas na voz do Diamantino é sincero. Eu e o Daniel precisávamos deste personagem para dizer estas frases. Conseguimos projetar no Diamantino uma sinceridade. Diamantino permite experimentar coisas para as quais nenhum de nós teria disponibilidade. A ideia partiu de querer fazer uma paródia, uma comédia sobre a ideia de um desportista um bocado ingénuo, mas, ironicamente, isso transforma-se no superpoder dele. Essa ingenuidade e consequente falta de preconceitos deixa o Diamantino muito mais aberto a uma variedade de interpretações e experiências do mundo a que muitas pessoas fecham as portas. É muito fácil ridicularizar a personagem do futebolista, e não era isso que queríamos. O filme está sempre a colocar fronteiras à volta dele, quer a fronteira nacionalista, a fronteira de género, sexualidade, o que seja. E ele vai sempre rompendo com tudo isso. Isto liberta. E isso é que é bonito. Há um Diamantino em todo nós.

 

CT – Ele vai se deparando com uma série de problemáticas, essas tais fronteiras. Desde questões de ecologia, aos refugiados, à adoção. Há mesmo uma amálgama de referências. Como lidam com este excesso de informação?

GA – O filme é uma reação ao excesso de informação com que lidamos todos os dias. Os feeds das redes sociais, as notícias. Há um excesso de crise, de ansiedade, de medo criado pelos media. O que se chama “news cycle”. A cada 24h vai-se perdendo uma crise e começando outra para as pessoas ficarem interessadas. E nós queríamos replicar um bocado a ansiedade que temos em relação a isso. Diamantino é um excesso de problemas e ao mesmo tempo uma moral muito simples. Um personagem que atravessa tudo isto, que é de certa forma alienado do news cylcle, mas no fim o que lhe importa é o amor. Um amor que a maior parte dos espetadores não esperava que um futebolista, estrela máxima, icónica, venha a aceitar e a curtir. Um novo tipo de amor que é um final sólido e emocional.

 

CT – Amor para quebrar estereótipos?

GA – O Diamantino é isso. Nos primeiros minutos podemos pensar que é um personagem heteronormativo, macho, engatatão. Mas rapidamente percebemos que é quase o inverso. E isso também fala no preconceito que temos dos futebolistas.

 

CT – Usar o humor para falar de coisas sérias.

GA O filme está sempre a atirar coisas à cara, mas é uma comédia. É um filme que é feliz, mas ao mesmo tempo é libertador de alguma maneira. E isso tem uma política atrás. Eu e o Daniel vemos isso como uma mensagem política, pelo menos. Uma comédia romântica que não respeita todos os standards de relações tradicionais. E o que me motiva é encontrar e desvendar os falsos preconceitos. Em Diamantino, o final amoroso quebra um estereótipo. Eu sempre vi a arte como uma ferramenta para desmontar preconceitos.

 

CT – E é isso que atravessa todos os teus filmes?

GA – A mensagem que atravessa todos os meus filmes é uma mensagem de ambiguidade. Querer que as pessoas consigam ver o filme de uma forma mais cinzenta. Diamantino é um bocado isso. Podem ser fronteiras estéticas. Os meus filmes são uma mistura de cinema experimental, de autor e popular, mas também falam muito de fronteiras e tentam romper essas fronteiras.

 

CT – Antes de terminar, o que estás a preparar neste momento?

GA – Estou neste momento a fazer um filme, uma curta. É uma animação e a curta mais ambiciosa que fiz até agora. Filmei no Louvre, em Paris, e é sobre uma escultura que acorda à noite quando o museu está fechado. Está farta de ser escultura, objeto meio decorativo, então foge do museu e junta-se a uma manifestação que está a acontecer. Mas aquilo corre um bocado mal… Também estou a escrever um filme de terror. Ainda está muito no início, mas será outra longa. E por cá [Lisboa], tenho em novembro uma exposição individual na galeria Francisco Fino.

Carolina Trigueiros vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Comunicação Cultural (2013) entre Lisboa e Barcelona e com uma pós-graduação em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa, tem vindo a trabalhar na área da curadoria, produção e escrita.

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