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Fauna, de André Romão

A exposição Fauna, do artista André Romão, estabelece um ambiente misterioso, noturno e onírico, com a cumplicidade de Pedro Lapa, curador da mostra, no Museu Coleção Berardo. Concebida como um cenário imersivo dividido em quatro atos, apresenta vários tipos de instalações, suscitando uma profusão de experiências sensoriais e reflexões filosóficas acerca das condições relacionadas com sobrevivência física e cultural no mundo contemporâneo.

Começa por recriar o pôr-do-sol no interior de um grande modelo em acrílico de um telhado fabril, iluminado por uma luz paulatinamente escurecida. Termina com uma instalação vídeo intitulada Sunrise, evocando os derradeiros momentos da noite, quando os primeiros raios do amanhecer alteram progressivamente a luz ambiente para uma tonalidade menos escura. Esta cenografia enfatiza a atmosfera onírica da exposição e reflete a sequência surrealista composta por cenas e momentos não relacionados entre si, aliados a uma bizarra justaposição ou fusão de espaços distantes e objetos heterogéneos, que tantas vezes caracterizam o reino dos sonhos. Após o primeiro momento, no qual o sol se põe sobre a fábrica e algumas acácias que representam o comportamento invasivo e agressivo no reino vegetal, segue-se uma instalação sonora com quatro canais em que Penny Rimbaud e Eve Libertine interpretam, cada uma, dois trechos das Metamorfoses de Ovídio. Focados na figura dramática e proteiforme de Aqueloo, os fragmentos do texto de Ovídio evocam, por analogia, noções de “mutabilidade, adaptabilidade e resistência; contudo, revela uma qualidade predatória e viral análoga aos processos económicos”, segundo Pedro Lapa. Mas acima de tudo, o que o texto explora é a “fluidez entre o Homem, a Natureza, o animal, o mineral e o vegetal, entidades abstratas e habitantes efetivos da terra”. A imaterialidade e a fluidez da luz e som dão depois lugar à natureza estática de artefactos artísticos e de dispositivos de fabrico humano. Colocado no espaço entre as duas primeiras e últimas salas, um frigorífico grab-and-go revela pequenas figuras arqueológicas do antigo Egito, Grécia e Império Romano, as quais integravam a coleção pessoal da artista Ana Hatherley. Numa alusão ao espaço institucional e às práticas de conservação do museu, ou ainda à indústria de consumo cultural, a inclusão deste objeto no espaço do museu, ladeando um gerador elétrico, uma caixa de cartão, mexilhões e aloé vera, aponta também para o processo de “artificialização” que transforma a não-arte em arte; uma reflexão que parece acompanhar toda a exposição.

O terceiro momento apresenta várias esculturas com diferentes dimensões e formas. Estes objetos sumptuosos e sofisticados alimentam uma impregnação mútua de formas artificiais e naturais, virada para os temas da hibridização e miscigenação, ao mesmo tempo que faz referência à mistura espontânea ou arquitetada de matérias orgânicas, bióticas, minerais e artificiais, que surgem na natureza, nos ateliers ou em laboratórios. Por conseguinte, a questão da interconectividade na dimensão material e simbólica da arte é atravessada por uma reflexão acerca da transformação significativa que ambas encetam entre si. De facto, o processo de artificialização, do transformar a não-arte em arte, tem uma ligação especial ao espaço do museu. Como Duchamp demonstrou com o seu exercício readymade, às formas materiais são atribuídas uma nova presença, significados, estatuto e valores por parte das dimensões contextuais e simbólicas. Este processo dinâmico funciona nos dois sentidos, já que o contínuo aparecimento de novas obras de arte e sua exposição podem igualmente desencadear, por sua vez, processos de mutação dentro das próprias instituições artísticas. Por fim, o quarto ato apresenta Sunrise, uma instalação em vídeo projetada num grande ecrã e com banda sonora. Organizada ao ar livre, mostra a vida de alguns furões em estado selvagem, os seus movimentos na relva e nas folhas, e as suas “interações” despreocupadas com um pedaço de gesso deixado no chão. O objeto estranho representa um fragmento aberto de um tronco, reminiscente de um corpo morto ou de algum tipo de ruína artística. Será que este “pedaço de civilização”, caído e rasgado, parte da trajetória misteriosa e quase invisível da vida selvagem, é uma metonímia do destino da arte ou, quiçá, de todo o empreendimento humano? Entre uma estranheza e um tipo de poesia formal, o cenário é banhado por uma espécie de sacralidade irreligiosa.

Katherine Sirois é historiadora de arte e autora freelance canadiana nascida em Montreal. Formada em Estudos de Artes na UQÀM (Mtl), onde foi assistente de ensino e de investigação, foi doutoranda na EHESS (Paris), com a orientação de Daniel Arasse, e no Departamento de Estética da Universidade de Paris I-Panthéon Sorbonne. Está actualmente associada ao Instituto de História da Arte da Universidade NOVA de Lisboa. É co-editora e curadora do e-magazine de arte contemporânea Wrong Wrong e é membro da equipa de curadoria do projecto Ymago. Foi recentemente incluída na equipa dos colaboradores da Umbigo.

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