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A exposição de arquitetura como exercício de investigação

Nenhuma outra profissão está tão exposta às vicissitudes do espaço e do tempo como a arquitetura. A transdisciplinaridade que frequentemente suscita é disso manifesto, ao envolver muitos outros técnicos e conhecimentos, que, a montante e a jusante, são sempre requeridos no escavar e levantar das pedras. Pois uma pedra, por mais inerte que pareça, é sempre testemunho de uma história passada ou em potência.

E porque tem todo o tempo, do ponto de vista concreto a arquitetura é também a disciplina da espera. Da espera entre as burocracias legais do urbanismo, da espera pela solução que não se ilumina, da espera depois dos imprevistos surgidos – lá está – aquando das escavações: uma ossada desenterrada, um objeto que recupera o brilho à luz do dia, um alinhamento de empedrados que sugerem um local e uma vivência extintos pelo tempo.

Nessa demora, para alguns insuportável, desenvolve-se toda a arqueologia intrínseca à arquitetura. Mas tal arqueologia não diz apenas respeito ao que objetivamente foi trazido pelo arqueólogo ou historiador, mas também ao conhecimento que se foi adquirindo e às soluções, gramáticas e linguagens de edifícios anteriores que sobrevivem no edifício que está por se erguer. Do mesmo modo que um desenho pressupõe muitos traços, riscos e manchas anteriores, um edifício contém em si muitos outros edifícios – dos que lhe precederam pela mão do seu autor e dos que lhe serviram de base e de estudo.

Neste contexto, a arquitetura é um exercício de adição e subtração, de construção e escavação, a operar em estratos vários – camadas físicas e metafísicas que se desdobram no espaço e no tempo, em perpétuo continuum, à espera de uma ordem, de uma síntese. Um edifício, muitos museus: Alcino Soutinho e o Museu do Neo-Realismo, com a curadoria de Helena Barranha em estreita colaboração com a Fundação Marques da Silva, é a exposição que faz essa síntese, com o próprio título, aliás, a evidenciá-lo.

 

Percorrendo as várias fases de projeto, e sem esconder as tais vicissitudes do processo construtivo, Um edifício, muitos museus, faz uma pesquisa aturada do Museu do Neo-Realismo e dos vários projetos museológicos gizados por Alcino Soutinho. Porém, a exposição é também uma mostra completa no que constituí o exercício da profissão (algumas já afloradas anteriormente): os antecedentes que informam o projeto, o programa que o baliza, a sua construção e execução finais, com os respetivos imprevistos do passado; as várias cronologias que se consubstanciam num portefólio; e, também, as múltiplas investigações subjacentes à prática.

A tese da exposição é muito simples e não podia estar aqui mais densamente justificada: Alcino Soutinho foi um dos mais profícuos arquitetos portugueses no estudo da arquitetura de museus e da museologia e as suas primeiras experiências académicas já demonstravam um ávido interesse por estas tipologias. Os diversos esquiços e anotações expostos que restaram dos diários de bordo na visita a Itália – com o patrocínio da Bolsa de Estudo da Fundação Calouste Gulbenkian –, revelam um aluno dotado para o pormenor construtivo e para o diálogo entre o edificado e o objeto de arte. As fotografias projetadas fazem o deslindar do conhecimento adquirido, das soluções testadas, das várias camadas de sobrevivências resultantes de investigação após investigação, desenho após desenho. E ao recorrer ao espaço e às paredes opostas, a própria museografia da exposição acaba por sublinhá-lo, confrontando estas projeções com o esquiço que restou do estudo prévio do Museu do Neo-Realismo.

Outro aspeto interessante da exposição é a escolha em não escamotear os projetos não construídos. Com efeito, é através deles que temos acesso a algumas das experiências mais ousadas projetadas por Alcino Soutinho, tanto do ponto de vista formal, como do ponto de vista de divisão dos espaços, propondo, em determinados casos, uma certa hibridização de modelos, em que social, pedagógico e cultural se mesclam com a informalidade da vida cívica. Resta o absoluto domínio das escalas: da implantação urbana dos museus e da sua ligação à cidade, aos espaços expositivos e ao próprio mobiliário.

Contudo, à pergunta de qual dos projetos museológicos construídos por Soutinho constitui o exemplo mais radical e o mais pertinente para o estudo da arquitetura de museus, Helena Barranha não hesita em destacar o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante. O diálogo com o património construído do antigo Convento Dominicano de Amarante, a sistematização das áreas expositivas, de circulação e de serviços e a reinterpretação do que outrora fora um corpo fundamental naquele espaço são características que fazem desta obra uma das mais relevantes no parque cultural contemporâneo português.

De facto, a mostra acaba também por situar o arquiteto Alcino Soutinho como um nome a reter na história da arquitetura contemporânea. A sua ligação à Escola do Porto e a Fernando Távora, os ensaios executados durante o Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal (Museu de Artes e Tradições Populares), o inestimável apoio da Gulbenkian na sua maturação e a sua consagração e maturação plena, respetivamente, com o novo edifício para o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso e o Museu de Aveiro/Santa Joana, são momentos que vão ao encontro de itens vários do que foi a arquitetura moderna portuguesa e do que é a arquitetura contemporânea portuguesa, nomeadamente o seu cruzamento com o património. Complementam-se as viagens a Itália e as teorias da conservação e do restauro, sobretudo do Restauro Crítico, que propuseram um novo olhar e contacto com o património, mediante uma renovada interpretação da dualidade passado-presente.

Uma linha condutora paralela, enuncia outro olhar sobre a obra deste autor. A importância que Soutinho dava ao chamado edifício público era concordante com uma ideia de dignificação da coisa pública e de uma postura (em vias de extinção acelerada) de que a arquitetura pertence tendencialmente ao domínio comum. Porque por mais remota que uma construção seja, a arquitetura radica sempre em atos políticos; por mais privado que seja o investimento, há sempre um quociente que esbarra no domínio comum. E isso é patente não só nas experiências propostas para a criação de espaços cívicos e, portanto, abertos à comunidade e em detrimento de usos rigidamente estruturados, mas também na negociação entre as necessidades do presente e o respeito pelo antigo.

 

Em suma, Um edifício, muitos museus: Alcino Soutinho e o Museu do Neo-Realismo ensaia a exposição de arquitetura como exercício de investigação, evidenciando linhas de pesquisa variadas, sobre um nome da arquitetura portuguesa que encontra aqui o primeiro passo para uma monografia atualizada. Esta é uma das raras exposições que acrescentam matéria ao estudo da arquitetura, ao expor material inédito à luz das exigências da museografia, da tecnologia e dos parâmetros académicos atuais.

 

(Até 26 de maio, no Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira. A exposição resulta de um esforço concertado entre o Museu do Neo-Realismo e a Fundação Marques da Silva, que detém parte considerável do espólio de Alcino Soutinho.)

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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