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FEA: um festival que é de todos e para todos

A caminho da sua segunda edição, que se realiza de 14 a 18 de maio, o FEA (Festival dos Espaços dos Artistas de Lisboa) assume-se como uma janela panorâmica sobre o mundo da arte contemporânea em Lisboa. Pretende alcançar mais do que os espaços institucionais e as galerias privadas. Aqui o olhar recai sobre os locais onde todos os dias se faz arte de forma independente e privilegiam-se os projetos geridos de forma autónoma por artistas que são também habitantes ativos da cidade e que reconhecemos como vizinhos e membros da nossa comunidade. Este reconhecimento permite desenvolver uma relação mais próxima e real entre o quotidiano e a arte contemporânea. Sendo coerente com este objetivo, o FEA é gratuito para os participantes e para o público, não querendo que o fator económico seja uma barreira no acesso à arte.

A Umbigo falou com Rebecca Moccia, diretora do FEA, que aprofundou estes conceitos e entreabriu a janela para a 2ª edição do Festival.

 

Explica-nos um pouco mais sobre o FEA e o porquê de se realizar em Lisboa. Vives cá?

O FEA Lisboa é um festival de exposições de arte contemporânea, artist-run e não lucrativo. Não, não vivo permanentemente em Lisboa (embora parte da nossa equipa viva aqui), mas tenho aqui muitos amigos e tenho visitado a cidade com frequência ao longo dos anos. A cena artística em Lisboa sempre me entusiasmou muito. Enquanto estava a participar no ARCO Lisboa há 3 anos percebi que estava na altura de transformar a experiência do Studi Festival, que estava a desenvolver há 3 anos em Milão, em algo novo aqui em Lisboa. Senti que estava na altura de oferecer ao novo público nacional e internacional, que estava a começar a ver Lisboa como uma das principais capitais artísticas europeias, o ponto de vista de quem já fazia arte aqui há algum tempo com um espírito independente e quase heroico. Amplificar o ponto de vista de um contexto local para um global. Também constatei, ao mudar o festival de Milão para Lisboa, que esta necessidade de práticas mutualistas alternativas não é particular, mas sim comum no sistema artístico como está configurado hoje. Para evitar o isolamento dos artistas perante um sistema baseado em interesses comerciais e numa forma distópica de trabalhar, é preciso redescobrir a importância das comunidades artísticas locais que podem ser uma fonte contínua de apoio e motivação para os artistas continuarem a sua pesquisa.  Por esta razão, decidimos que este ano o FEA seria registado como Creative-Common, dando acesso gratuito a todo o material necessário para reproduzir o festival (plano de angariação de fundos, materiais gráficos, planos de comunicação) em qualquer cidade do mundo.

 

O FEA pretende unir o mundo da arte mais institucional ao circuito alternativo e independente? Não apenas no sentido de mostrar o panorama completo do que está a acontecer artisticamente em Lisboa, mas também no sentido de criar pontes e sinergias.

Correndo o risco de não ser viável a longo prazo, o FEA pretende chamar a atenção para a importância da auto-organização coletiva e da produção autónoma para o desenvolvimento da pesquisa artística contemporânea. Acreditamos realmente na importância do festival para o desenvolvimento artístico deste território; para além do crescimento do mercado e das novas galerias nacionais e internacionais que têm surgido, é a importância de criar algo alternativo que possa “proteger” os espaços e as iniciativas não comerciais dedicadas à pesquisa independente. Acima de tudo, o FEA é feito essencialmente pelos projetos, pelo envolvimento e pela entrega que os artistas decidem dedicar ao festival, partilhando dos seus valores. Sendo assim, vejo o FEA como um festival artist-run coletivo no qual nós, o comité de organização, fazemos convergir práticas individuais numa estrutura coletiva; através de uma rede virtual de contactos, oferecemos uma estrutura de apoio assente em mecanismos de comunicação e de organização. Temos a esperança de que estas práticas de pesquisa significativas e experimentais chamem a atenção do mundo artístico mais “institucional” e que se tornem interessantes para o mercado de arte. Mas primeiro é preciso dar-lhes a possibilidade de emergir, de serem mostradas e apoiadas de forma independente.

 

Como funciona a Open Call? Quem pode submeter projetos e de que forma é feita a seleção?

Qualquer artista que tenha uma ideia para uma exposição, performance ou evento, e um espaço onde o realizar. Pode ser o seu estúdio de trabalho, a sua casa, um espaço coletivo ou independente. Em paralelo, os próprios espaços podem fazer uma proposta de exposição que já envolva artistas.

No que diz respeito à seleção, gostava de realçar que não queremos “julgar” ninguém. Infelizmente, tem de ser feita uma seleção de forma a dar a visibilidade adequada aos projetos envolvidos no FEA. Uma vez que o festival dura apenas cinco dias, não faria sentido nenhum ter uma programação cheia de espaços que ninguém teria tempo para ver.

O júri é composto essencialmente por pessoas que tenham experiência direta com iniciativas independentes e geridas por artistas, que partilham os nossos valores e objetivos e que não estão interessadas na “forma” – no sentido de serem impressionadas por um CV importante ou pelo aspeto gráfico de uma proposta – mas sim no conteúdo dos projetos.

Para além de mim, o comité de seleção é composto pelo duo Sara & André, o jovem curador do Kunstverein München e Matthew Alexander Post (Post Brothers).

 

O FEA é gratuito para os participantes e para o público. Que importância assume, para ti, este aspeto do festival?

O FEA pretende abrir espaço para um novo diálogo entre os artistas e a cidade, realçando a importância de um debate mais “real” entre a arte contemporânea e a sociedade. O que nos interessa a nós, organização, não é só o público internacional atraído pelo ARCO Lisboa. Também nos interessa o público local, os cidadãos que identificam o seu vizinho como artista, que têm um espaço dedicado à cultura independente na parte de baixo do prédio, que andam a pé pela cidade e que entram nesses mesmos espaços, falam com os artistas e descobrem coisas novas. Esta foi a razão pela qual decidimos que o FEA tinha que ser gratuito, removendo assim qualquer barreira que inibisse o público de visitar as exposições. Por outro lado, achámos que os artistas e os espaços deviam ser selecionados democraticamente pela qualidade dos seus projetos e não pelas suas possibilidades económicas. Estas escolhas não têm sido fáceis, tendo em conta que o FEA é uma organização não lucrativa e foi extremamente difícil encontrar patrocinadores e fundos para cobrir apenas as despesas básicas. Temos tentado contornar isto criando colaborações e parcerias técnicas com instituições que partilham a mesma visão, que acreditam que é necessário um projeto independente, não comercial, acessível a toda a gente.

 

Esta é a segunda edição. Estás feliz com os resultados até agora? O que é que te surpreendeu mais e o que é que tem sido mais satisfatório?

Estou muito satisfeita. Primeiro, porque o festival está a tornar-se, gradualmente, num evento marcado anualmente no calendário artístico de Lisboa. Por exemplo, fiquei muito contente quando ao contactar um espaço que tinha participado na edição anterior para propor pensarem numa proposta para este ano, responderam que já estavam a preparar uma exposição a ser realizada durante o FEA! Além disso, estou muito feliz por este ano termos o apoio da Fundação EDP e termos renovado o apoio da Câmara Municipal de Lisboa: estamos muito gratos por terem acreditado neste projeto! Estamos igualmente orgulhosos por termos começado uma colaboração com outros espaços em Lisboa que partilham os nossos valores, como a Carpintaria de S. Lázaro, a escola de artes Ar.Co, a firma de advocacia VCA e, claro, estamos mais do que contentes por poder continuar a desenvolver e a aprofundar as nossas sinergias com a Umbigo!

 

O que é que podemos esperar desta segunda edição do FEA? Alguma novidade que queiras destacar?

Esperamos mais público e mais atenção por parte da crítica e da imprensa local e internacional, em paralelo com o aumento qualitativo das propostas expositivas e dos programas. Este ano, para tornar o festival mais apelativo, decidimos dividir a cidade em várias áreas, cada uma com as suas respetivas inaugurações. Para além disso, a CATL – Contemporary Art Tour Lisbon, com quem o FEA colabora desde o ano passado, vai organizar 3 visitas públicas, também gratuitas, para descobrir e explorar uma seleção das exposições patentes. O programa de exposições vai ser completado por um programa paralelo composto por performances, conferências e eventos especiais focados em aprofundar os temas do festival: autonomia artística, a importância das realidades independentes, a crise das feiras e do sistema de museus e todas as nuances gerais da produção cultural contemporânea.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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