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Yto Barrada, Moi Je suis la langue et vous êtes les dents

O Espaço Projeto da Coleção Moderna do Museu Calouste Gulbenkian, tem servido de laboratório a obras ou artistas em diálogo crítico com a contemporaneidade ou com a História. Neste caso, há uma história, várias histórias, todas de mulheres, que deram origem a esta exposição. Thérèse Rivière etnóloga que nos anos 30 parte para a Argélia, serve de mote, começando pelo título (Eu sou a língua e vós os dentes), um relato presente num dos cadernos de anotação de Thérèse e que significa uma relação de poder: a língua aparece primeiro e simboliza a linguagem. Esta relação de poder é, no relato, a de uma avó sobre o neto, ou seja, das mulheres sobre os homens e é também uma metáfora para a ocupação colonial francesa da Argélia. Este é o ponto de partida para o conjunto de obras que compõem esta exposição da artista Yto Barrada (Paris, 1971) criada em Tânger.

Segundo a curadora Rita Fabiana, a etnologia foi, durante o período colonial, um instrumento para controlar as populações e considera que Ângela Ferreira tem o mesmo tipo de abordagem que Yto Barrada. Há, aliás, entre Moi je suis la langue et vous êtes les dents, afinidades com a exposição O Pirgo de Chaves de Francisco Tropa (patente ao público no Espaço Conversas da Coleção do Fundador), na forma como convoca uma herança etnográfica e arqueológica que dá o mote para um trabalho que tem uma ligação profunda à antropologia e que nos obriga a reflexões profundas sobre a forma como nos relacionamos, enquanto civilização, com o nosso passado mais próximo ou mais distante.

Mas Yto Barrada não se limita a ser uma respigadora do trabalho alheio. Ela própria faz parte dessa comunidade comum a vários países europeus (como Portugal) de colonizadores que viveram em países de acolhimento (forçado) e cuja volta aos países de origem, parece nunca sarar esse sentimento universal que só tem tradução em português: a saudade. Por isso, as histórias que conta nesta exposição são tanto de Thérèse e da própria Yto, como são de tantas pessoas que cresceram em meados do século XX.

Yto utiliza a sua própria memorabilia e a da sua família e ficciona-as para lhes dar um novo significado. Assim é em Hand-me-down (2011) título que evoca a roupa infantil que vai passando entre as crianças da mesma família. Esta obra mostra um conjunto de filmes caseiros encontrados num arquivo em Marselha, provenientes de várias famílias que viviam em Tânger, incluindo alguns da própria família de Yto ao mesmo tempo que a voz da artista narra a história da mãe, num registo que paira entre o documental e a ficção, pois imagem e voz não têm correspondência. Ainda no domínio das referências familiares The Telephone Book (The Recipe Books) (2010-2018) são as agendas telefónicas (nos dias de hoje já se tornaram raridade) da avó materna, que sendo analfabeta, criou um sistema de símbolos para registar e identificar os contactos dos familiares. A artista fotografou estes pequenos cadernos e imprimiu em grande formato, retirando-lhes a sua função de portabilidade e destacando aquilo que é a sua única herança dessa avó.

Há ainda uma obra Untitled (Bonbon series) (2017) em que Yto referencia Lourdes Castro e as suas colagens de pratas de bombons de 1965 e há uma única obra, ou melhor um conjunto de obras Untitled (after Stella) (2018), que referencia um homem Frank Stella e a sua série de pinturas Marrocos (1964-65). Yto inspira-se nesta série utilizando têxteis tingidos por mulheres a partir de processos artesanais históricos de extração de plantas, que ela própria aprendeu a tal ponto que hoje em dia dá workshops destes tingimentos. A forma como Yto se apropria de uma História que é a da Arte Americana, feita no masculino, para a reverter para uma história que se faz no feminino através de ocupações que são identificáveis como femininas é brilhante como obra e como crítica social e política.

Ainda que Thérèse Rivere dê título e obras a esta exposição, cremos que há muito mais de Yto Barrada que de Thérèse e que a história da etnóloga foi mais o início de um fio que se desenrola e que Yto desenrolou dentro de si própria do que é, efetivamente uma figura central da exposição. Assim, a história de Yto Barrada e da sua família, interessa-nos, tanto no particular, como no que ela ressoa de histórias e filiações comuns a um momento histórico cujo estudo está ainda a ser feito.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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