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Blue Jasmine (2013), de Woody Allen

Woody Allen é exímio na forma como retrata as narrativas que o próprio cria. O humor que sempre imprimiu nos seus filmes é absolutamente magnífico, abordando questões relacionadas com a psicanálise, o sentido da vida, a obsessão pela morte, a paranoia. E é através desta junção de elementos que construiu, ao longo da sua carreira, uma lista infindável de personagens extraordinários, incluindo o próprio na forma como se desmultiplica enquanto ator.

Apesar de se ter aventurado pela Europa, o seu fascínio por Manhattan é contagiante, expondo as suas singularidades em perfeita osmose com os personagens, explorando os cenários deslumbrantes de Nova Iorque, um mundo quase à parte, com uma vida frenética, em que o tempo corre veloz. Annie Hall (1977), Manhattan (1979) e Hannah and Her Sisters (1986) são exemplo de algumas das obras marcantes do cineasta americano cujo pano de fundo é Nova Iorque.

Em 2013, elegeu a cidade de São Francisco para realizar Blue Jasmine, um filme assombroso. Aqui vemos uma nova faceta de Allen. Mostra-nos o lado perverso e cruel da natureza humana.

Jasmine (Cate Blanchett) é uma mulher complexa, profundamente infeliz. Facilmente, os menos atentos, poderão cair na tentação de fazer juízos de valor demasiado simplistas. Consegue ascender a uma classe social que jamais sonhou, imergindo num universo fútil e preconceituoso.

Mas Jasmine é tudo menos fútil. Há nela uma espécie de alienação consentida perante um passado pesado que não esquece. E, por isso, finge que não sabe; finge que não ouve; finge que não vê; finge que é o arquétipo da mulher perfeita que se enquadra numa franja de uma Sociedade elitista, cheia de tiques e “cheia de vazio”.

O seu maior “pecado” foi tentar ser feliz (afinal não é o que todos ambicionamos?). Qual a diferença entre ela e a irmã Ginger (Sally Hawkins), ambas adotadas? Ginger pode provocar uma certa compaixão porque é pobre e humilde. A uma certa altura, a irmã refere que “Jasmine sempre teve melhores genes (…)”. Também Ginger tenta alcançar a todo o custo uma vida melhor.

Jasmine tem plena consciência da turbulência que é a sua vida, onde o caos se instala numa normalidade atípica, arrastando-a para um círculo vicioso. Jasmine é um personagem com o qual facilmente nos podemos identificar quando confrontados com situações extremas.

Cate Blanchett é a essência do filme. Uma interpretação notável, em que representa com enorme realismo os estados de alma que alternam entre delírios, frustrações, angústias, de tal forma intensos, que resultam numa explosão meteórica, para deleite do espectador. Venceu diversos prémios, entre os quais se destacam um Óscar, um Globo de Ouro e um BAFTA na categoria de melhor atriz principal, em 2014.

Blue Jasmine é muito mais do que um retrato social frívolo dos costumes. Representa o colapso moral dos tempos modernos. Allen adota um registo cinematográfico distinto daquele a que nos habituámos, sendo o mais inovador da sua carreira.

Não houve lugar às gargalhadas do costume, houve lugar a uma reflexão menos irónica e mais inquietante.

Apesar da sua Licenciatura em Gestão de Marketing, o seu percurso nunca foi linear. Detesta as rotinas entorpecedoras e a escrita é seu refúgio. Quando inicia as suas deambulações por esse universo fica completamente alienada do mundo. Nunca se levou muito a sério. "Depus a máscara e vi-me ao espelho. — / Era a criança de há quantos anos. / Não tinha mudado nada... / É essa a vantagem de saber tirar a máscara. / É-se sempre a criança (...)" – Fernando Pessoa. Uma das suas principais características é criar empatia com todo o tipo de pessoas. A sua maior paixão é o Cinema e, sempre que pode, não abdica de longas tertúlias com os suspeitos do costume, com os quais partilha os seus estados de alma. "I try to get closer to reality, to get close to the contradictions. The cinema world can be a real world rather than a dream world.” – Michael Haneke

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