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Sobre o presunto e o vinho que não sabemos se Júlia teve no final dos dias

Naquela noite de S. João, estávamos na Suécia de August Strindberg, no final do séc. XIX. A menina Júlia decidira ficar a dançar com os criados no casarão, a ir com o Conde, seu pai, visitar as gentes das suas relações.

“Esta noite somos todos apenas pessoas a divertirem-se numa festa. Não há classes sociais”, dizia ela a João, criado da casa, desafiando-o a dançar e a entregar-se às suas ordens. Aquilo a que hoje chamariam “abuso de poder”, porventura apelidado de “assédio”, pelas mãos de uma jovem patroa ruiva e provocante, movida pelos estímulos da juventude. Cristina, noiva de João e cozinheira da casa, à espera, naquela que dizia ser a sua posição, o “seu lugar”. Copo após copo e de provocação em provocação, nessa “noite de prazeres inocentes”, Strindberg tira Júlia e João de cena para nos dar a imaginar o que terá sido um momento de sexo entre os dois. Ao voltarem, Júlia implora por uma solução que a leve para longe da vergonha e da humilhação do que se acabara de passar. João propõe-lhe que fujam. Que partam de comboio até ao Lago di Como, em Itália, à beira do qual abrirão um Hotel. “É um excelente negócio”; casais em lua-de-mel “assinam contrato por seis meses e ao fim de três semanas vão-se embora. Zangam-se, é claro. Mas como tinham pagado adiantado… É um entra e sai constante, porque o mundo está cheio de amor, o que tem é que não dura muito”.

Ele tinha o sonho, ela tinha o dinheiro. “Hoje sou criado, para o ano que vem serei proprietário, dentro de 10 anos terei feito fortuna (…) e hei de fazer-me condecorar”. A ela nada disso interessava, uma vez que era a tudo isso que estava a renunciar. Ela queria porventura a aventura de partir.

Sob argumentos cruzados e a pressão da incerteza, a dicotomia de classes é substituída pela dicotomia de sexos. Se, por um lado, a convenção social não permite que João diga que ama Júlia sob aquele tecto, ou tão pouco tratá-la por “tu”, por outro o sucedido permite-o de imediato colocar-se na posição de homem que ordena, falando com a dureza de quem a considera uma puta por se ter insinuado a uma homem como o fez naquela noite, com ele. As ordens eram agora dadas por ele, e estas “nunca podem ser dadas amavelmente”. A personificação de superioridade passa da patroa sobre o criado, para o homem sobre a mulher. Não há um tempo de passagem entre uma coisa e outra, nem lugar para aquele espaço de igualdade que se cria quando duas pessoas se amam.

A discussão termina com o dia a nascer, o Conde a aproximar-se, e com a didascália que encerra a obra – “Júlia sai com um passo firme” – há 130 anos a ser interpretada como o suicídio de Júlia.

No Teatro D. Maria II, Tiago Rodrigues propõe Um outro fim para a menina Júlia. Revela-nos um João (Manuel Coelho) e uma Júlia (Paula Mora) por volta dos seus 60 anos, no seu Pequeno Hotel do Lago, à beira de uma estação de comboios e não do Lago di Como. João não realizou o sonho de forma exata, mas faz questão de nos explicar a diferença entre ser-se feliz e realizarem-se os sonhos. Ambos insistem repetidamente: “somos muito felizes”. Como se tivessem dado corpo a uma das muitas acusações que João fizera a Júlia naquela noite: “foi atrás de uma loucura qualquer e agora para remediar o seu erro tenta convencer-se de que me ama”. Ali estão finalmente os dois, ao final dos dias, a comer presunto e a beber vinho, enquanto dobram guardanapos para o dia seguinte. “Felicidade é isto”, dizem.

As horas passam entre copos e dedos de conversa, quando Cristina (Lúcia Maria) irrompe pela noite e pelo hotel dentro, prestando contas sobre o passado. Com ela traz as memórias da noite de S. João de há 32 anos atrás, quando todos eram jovens, personificadas por Helena Caldeira (Júlia), Vicente Wallenstein (João) e Inês Dias (Cristina). Para falar da personagem Cristina e da excelente representação de Inês Dias, seria preciso um segundo texto.

A ação formada por este outro fim para a menina Júlia surge como um segundo layer no que à fidelidade ao texto original diz respeito, e ao próprio Tempo da ação e respetivas vicissitudes. As personagens originais e criadas, os jovens e os adultos, são eco um do outro, numa complexa rede pantomínica já antes iniciada por Strindberg. As segundas mostram um casal que podia ser de hoje, que não se teria morto por se terem envolvido numa noite de S. João, mas na verdade preso às hesitações, determinismos e decisões do passado. Porque “podemos apanhar o comboio, mas aquilo que somos vai sempre connosco”.

 

Sim, felicidade pode muito bem ser isto: presunto e vinho ao fim do dia, contigo. Mas até isso é tão frágil.

 

Um outro fim para a menina Júlia estará em cena, na Sala de Cenografia do Teatro Nacional D. Maria II, até 23 de maio.

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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