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COSMO/POLÍTICA #3

O Mundo Começou às 5 e 47 e com ele a promessa de um novo dia.

O Mundo Começou às 5 e 47, com o rasgar do sol no horizonte e o alvor de uma nova esperança.

O Mundo Começou às 5 e 47, em 1946, com uma peça Luiz Francisco Rebelo, e uma reflexão sobre a posição do homem no mundo, da sua condição e as possibilidades da sua volição política – na época de viragem do pós-guerra. Em Portugal, contudo, essa viragem foi tão só parcial e a vontade de uma revolução pela liberdade experimentava-se tíbia, mas resolutamente, nas entrelinhas de um livro, nas manchas de uma tela, nos intervalos e experimentalismos de uma peça de teatro.

Décadas depois, O Mundo Começou às 5 e 47 com a contemporização desta mensagem e segundo a perspetiva crítica e artística de Hugo Canoilas, Miguel Castro Caldas e Tatiana Macedo. E é partindo desta peça de Rebelo, e nesse cruzamento de tempos e visões, que surge a terceira exposição do ciclo COSMO/POLÍTICA, no Museu do Neo-Realismo, com a curadoria de Sandra Vieira Jürgens e Paula Loura Batista.

Hugo Canoilas é talvez o artista que articula toda a exposição, não exatamente pelo conceito da obra, mas pela forma que ganha no espaço. Nesta obra-instalação, Canoilas vai ao encontro da luta de classes retratada e efabulada por Rebelo e da cesura que opera na sociedade. Fazendo recurso da sátira e da crítica vindas de O Mundo Começou às 5 e 47, Canoilas acaba também por aludir à condição precária do artista contemporâneo e de uma comunidade artística também ela dividida por um classismo manietado pelo sistema capitalista. As calças rebaixadas e sarapintadas no chão são um assumido autorretrato de alguém que se vê diminuído e desnudado trabalho após trabalho; os ténis na gaiola negra, uma liberdade capturada, ou, na interpretação do artista, uns pulmões enjaulados; o grito na tela é uma voz suprimida, uma ira que não vibra na atmosfera.

As fotografias de Tatiana Macedo balizam o gesto total de Hugo Canoilas e remetem para um cruzamento de intenções. Ou seja, revelam de que forma é que as intenções de Rebelo vão ao encontro das intenções e da prática artística de Macedo. Mediante o vasto arquivo fotográfico e fílmico que tem juntado ao longo dos vários projetos e viagens, a artista procura nos diálogos da peça preocupações que estão igualmente presentes no seu trabalho, ecos e fluxos (quaisquer que sejam) que se encontram de parte a parte. De igual modo, a artista acaba por sublinhar brevemente o papel secundário que a mulher tem na obra de Rebelo. De facto, homem, aqui, cinge-se ao sexo masculino. E qualquer revolução que venha será por ele conduzida. A mulher é nada mais que um veículo de vontades e ações alheias, alguém que serve apenas para dar à luz o homem novo.

Por sua vez, Miguel Castro Caldas baseia a sua performance exclusivamente na peça. Alicerçado na visão benjaminiana e brechtiana do teatro, Caldas trabalha a metalinguagem escondida na peça e a natureza ambígua da mesma, o que há de encenado e de improvisado, e os eventuais limites da linguagem e da autenticidade. Na perspetiva experimental que O Mundo Começa às 5 e 47 propõe, o autor chamar ao palco uma espetadora, exigir dela uma ação que, afinal, está programada e já incluída no texto, acaba por prefigurar um problema de difícil solução e aceitação. Afinal, o que se faz é substituir a voz da espetadora pela do autor, silenciando-a. Quem é quem para falar em nome de quem? Como podemos dar voz a alguém quando, no final, e na verdade, é a nossa própria voz que fica escrita, desenhada, registada? São estas as tensões e preocupações que Caldas imortaliza em Folheação (primeiro em jeito de performance e, depois, no objeto cénico procedente), mais concretamente na questão de “dar voz” a algo ou alguém. Gravada na pedra, como lápide ou epitáfio, “dá-me voz” configura o problema fundamental e original da arte a favor de uma revolução – uma voz, neste caso, capturada quando as vozes são, por natureza, incapturáveis.

O que resulta da exposição é uma negociação de visões e interpretações várias, de artistas que procuram driblar através da arte as grandes questões da política e da democracia e mediante um desfasamento histórico ou cronológico.

Porque se O Mundo Começou às 5 e 47, não é tão certo e preciso saber-se quando o seu fim.

(Até 31 de março, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.)

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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