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Carlos Bunga

Carlos Bunga (Porto, 1976) apresenta em Lisboa e em simultâneo duas exposições: Where I Am Free, na Fundação Carmona e Costa, e The Architecture of Life. Environments, Sculptures, Paintings and Films, no MAAT. Estas exposições resultam de uma parceria e complementam-se. Where I Am Free tem curadoria de Inês Grosso e é dedicada exclusivamente aos seus trabalhos em desenho. No Maat, a curadoria é de Iwona Blazwick e podemos ver os seus trabalhos escultóricos, vídeos e instalações. Ambas as exposições nos mostram o seu percurso artístico sob diferentes suportes e expressões, mas sob a mesma batuta: a arquitetura efémera ou permanente e a relação entre o sujeito e a sua habitação, sendo que esta habitação, para Carlos Bunga, é de sentido muito lato.

Em Nomad, livro publicado no âmbito destas exposições, Bunga expõe a sua história e pensamento e escreve: “As demolições sempre me acompanharam.” O primeiro desenho é de uma mulher grávida que o artista considera que foi a sua primeira casa, de onde viajou para Portugal. Este carácter nómada, e de alguma forma desenraizado, comum a muitos emigrantes e aos retornados da guerra colonial, acompanha toda a sua obra e toda a sua reflexão artística. Na Fundação Carmona e Costa, em obras com bastante humor, vemos os esquiços das casas que habitou em diferentes fases da sua vida, incluindo a vida adulta. Bunga andou com a casa às costas em Autumn Red #7 e andou com elas na cabeça na série Nómadas. Estes desenhos são habitações perspetivadas que servem de cabeça a corpos humanos em diferentes posições.

Mais do que um relato vivencial de um indivíduo, há um relato partilhado por toda uma geração (talvez sejam duas) que foi obrigada a sair do seu país e a vir para o país colonizador. Assim, abriam-se prisões e hotéis com quartos e celas partilhados por estas pessoas que tudo o que queriam era ver chegar o resto da família e poder voltar para o seu país de origem, em tudo tão diferente do nosso.

Bunga trabalha, portanto, sobre uma experiência pessoal enquadrada e replicada historicamente: a ocupação comum de edifícios, a construção de habitação própria, muitas vezes efémera, a habitação social, a habitação emprestada. Este nomadismo, idêntico a tantos artistas ao longo da nossa história mais recente e que os fez debruçarem-se sobre a questão da habitação, como Ruy Cinatti, por exemplo, mantém-se de certa forma em Carlos Bunga, que agora vagueia pelo mundo em diversas residências artísticas incluídas no seu trabalho e nas questões que levanta sobre a vivência de um espaço. Mas desta vez, acompanhado pela família.

E se, com este preâmbulo quase se esgota o espaço para escrever sobre as exposições, é porque consideramos essencial o entendimento profundo do âmbito do trabalho do artista. Pois se em Where I Am Free os desenhos nos revelam esta reflexão que pontua o seu corpo de obra, no MAAT já nos podemos perder na vivência das suas instalações sem que sintamos necessidade de aprofundar as questões que elas levantam.

Carlos Bunga trabalha muito sobre materiais efémeros: o cartão, a cola, a fita-cola, que utiliza como suporte de instalações por vezes de grandes dimensões, ou simulações de habitáculos e que destrói (registando esse momento) com tanto empenho como o que põe a construir. Podemos ver no MAAT alguns filmes que testemunham quer a construção das suas obras de grandes dimensões (monumentais na sua escala relativa) quer a destruição de outras. Os filmes mostram-nos sobretudo a destruição. Carlos Bunga trabalha a arquitetura e a construção do ponto de vista do reaproveitamento. É assim o efémero: aproveitam-se os materiais existentes, constrói-se para usar e destrói-se no fim. Assim fazem os nómadas e a isso obrigam as guerras.

Light Inside (2019) obra site-specific é uma instalação construída em cartão, cola e tinta que, com um pé direito muito alto e frestas de luz que provocam reflexões luminosas e angulosas, nos transporta para a nave central de uma catedral românica. Ao mesmo tempo, podia ser um daqueles jogos infantis em que empilhamos formas geométricas e simulamos habitações. Em alternativa, o trabalho que esta obra tem de cor e luz (semelhante em Polychromatic Environment), aproxima-se muito da pintura e de um certo cubismo ou geometrismo abstrato com a cor e a luz a provocar a refração geométrica do espaço.

O cartão também permite a Bunga trabalhar sob pequenas dimensões como as maquetes ou até usá-lo como suporte para pinturas.

Carlos Bunga não teme a dimensão. Trabalha a escala apenas como um meio de expressão. Como o suporte ou as diferentes ferramentas que necessita, a dimensão é para ele algo que induz no espectador uma mensagem ou uma fruição específica manipulada pelo artista. E isso está presente nos dois espaços expositivos que o seu trabalho ocupa neste momento. Aliás, até estes espaços seguem essa lógica: o MAAT, open space de grandes dimensões com obras expostas a mais de 2 metros do pavimento, a Fundação Carmona e Costa, com os seus espaços mais controlados, mais intimistas em que a distância a que estamos das obras é também mais próxima.

Carlos Bunga, trabalha assim sobre a arquitetura, mas negligenciando propositadamente as três condições para a boa arquitetura propostas por Vitrúvio: a firmitas, a utilitas e a venustas, para tomar a seu bel-prazer uma ou outra na construção das suas obras.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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