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Rita GT ou a importância de lembrar/esquecer

É a partir da sua condição de mulher, portuguesa, branca e privilegiada, que vive na era pós-colonial, que Rita GT, atualmente a residir entre Viana do Castelo e Luanda, teoriza e desenvolve a sua prática artística. Um corpo de trabalho consistente e reconhecível que se materializa no recurso, simultâneo, a diferentes media: da escultura à fotografia, passando pelo vídeo e, quase sempre, inevitavelmente, pela performance.

A exposição (Re)membering / (For)getting, que tem patente na Galeria Belo-Galsterer é um reflexo disso mesmo, da referida multiplicidade de suportes a que a artista recorre para consolidar um discurso sustentado num ativismo feminista, contestatário, politicamente empenhado e comprometido, sobretudo, com a defesa da necessidade de se proceder a uma revisão da história colonial –focando-se a sua atenção nos meandros do imperialismo português. Revisão histórica essa que Rita GT considera ser não só imprescindível, como conduzirá à rescrita dos anais do colonialismo nacional. Os discursos de poder, elaborados, difundidos e impostos por homens, ocidentais e brancos, de génese paternalista e etnocêntrica, devem dar lugar a outras narrativas: a dos escravizados, oprimidos e esquecidos, trazendo assim visibilidade a todos aqueles que a história decidiu camuflar, incluindo-se nesta categoria as mulheres.

O conjunto de trabalhos inéditos que Rita GT apresenta, com curadoria do zimbabueano George Shire, tem na cerâmica um denominador comum que ultrapassa a dimensão da própria materialidade das obras que a evocam ou integram de forma mais ou menos explícita (no caso das esculturas juntamente com outros materiais como corda, madeira ou plástico). Todas as peças em exposição, esculturas, fotografias e vídeo, foram produzidas num mesmo local: uma fábrica de cerâmica, desativada, em Viana do Castelo, a que a artista acedeu faz cerca de três anos, e onde tem instalado, temporariamente, o seu ateliê. Rita GT foi ainda mais longe na reabilitação que fez da cerâmica que Shire associa à escrita da história no feminino. A artista apropriou-se, literalmente, de algumas das peças que, com cerca de 20, 30 ou 40 anos, carregadas de memórias e significados, habitavam esquecidas o espaço da antiga fábrica. Resgatou-as, reciclou-as e deu-lhes uma nova vida ao integrá-las em algumas das suas composições escultóricas, nomeadamente em Mulheres Vudu. Esta obra é composta por um conjunto de bonecas de cor branca, dispostas em cima de um escadote (também retirado do local), sobre as quais a artista fez escorrer, na zona do rosto, tinta negra. Não se trata de uma evocação da questão racial; a utilização de tinta negra sugere, antes, o ato de queimar e, como consequência, o de renascer. Destaque ainda, no âmbito da composição desta obra, para as braçadeiras de plástico transparente que envolvem parcialmente os corpos destas bonecas/mulheres, sugerindo aprisionamento e necessidade de libertação, bem como a força que decorre da união entre as mulheres.

Ao resgatar, de um ponto de vista crítico, técnicas ancestrais, materializadas em peças decorativas e utilitárias – consequentemente associadas ao artesanato – Rita GT tem a intenção de contestar o compartimentação estanque entre a arte e o artesanato, estruturando a relação entre ambas numa hierarquia que privilegia a primeira em detrimento da segunda. A artista dá continuidade à batalha travada pelo movimento Arts & Crafts transportando-a para o domínio dos estudos pós-coloniais e abordando-a a partir da constatação de que se trata de uma classificação exclusivamente ocidental/europeia; em África, por exemplo, não existe a noção de “arte utilitária”. Outra das suas lutas é continuar a desenvolver uma prática artística assumidamente inclusiva, preocupação que se materializa num dos projetos paralelos que desenvolve – Escola ao Lado – de carácter itinerante, implica uma forte cooperação com a comunidade em que se instala.

No dia da inauguração Rita GT apresentou uma performance em que surgiu a carregar uma pilha de louça que destruiu atirando-a para o chão (destroços enquanto memória da performance permanecem dispostos no piso da galeria). O ato de destruir não deve ser entendido como uma evocação do fim, mas antes como um processo revitalizador, potenciador de resgate (nomeadamente de memórias) e renascimento. Por vezes é preciso recordar que os ciclos nunca se fecham definitivamente, que é necessário expor, desconstruir, quebrar, estilhaçar para, depois, a partir dos fragmentos, se encetarem novas narrativas. Narrativas que, não renegando o passado, se metamorfoseiam no contexto da contemporaneidade.

 

Licenciada em História Moderna e Contemporânea, possui uma pós-graduação em Gestão Cultural e outra em Jornalismo. Fundou, coordenou e foi redactora da revista Artecapital. Foi redactora principal da revista Artes & Leilões e correspondente da revista Arte y Parte. Actualmente trabalha como mediadora cultural sobretudo no Museu Gulbenkian.

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