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Mãos Negativas, a Gruta e Achados

Uma trilogia expositiva que questiona outra trilogia: Arte, Público e Galeria

O poema Mãos Negativas de Marguerite Duras presenteia o título da exposição coletiva de Hugo Canoilas, Vasco Costa e Filipe Feijão, patente na Galeria Quadrado Azul, em Alvalade. Esta exposição pretende introduzir o projeto artístico coletivo intitulado A Gruta, desenvolvido pelos três artistas, em conjunto com a galeria, que tem como premissa questionar o período atual no qual vivemos. Denominado de Antropoceno por alguns cientistas, este período teve início no final do séc. XVIII e está relacionado com o surgimento das alterações ressentidas na crosta terrestre provenientes da atividade humana. Antropoceno ou mesmo Capitaloceno, termo desenvolvido por Andreas Malm que confronta as alterações climáticas com o capital gerado pela catividade humana inerente aos combustíveis fósseis, é o tema de base deste projeto colaborativo.

Em Mãos Negativas, os três artistas, de linguagem e abordagens artísticas distintas, formam um diálogo introdutório ao projeto a Gruta através de pinturas baseadas em cosmogonias oriundas de povos vários ou de animais em extinção, num discurso quase paleontológico (Hugo Canoilas), em conjunto com esculturas provenientes de banheiras que formam presenças cuja finalidade é questionar a dimensão social do corpo (Vasco Costa), por seu lado confrontadas com a recriação de extratos de uma escultura desenvolvida ao longo de 15 anos exposta à ação das condições climatéricas, como pretexto de um exercício de repetição e diferença entre o original e a cópia (Filipe Feijão).

A Gruta obrigou à criação de um espaço para acolher o projeto concebido com materiais retirados do lixo que ao serem aglutinados, originaram uma crosta tóxica que permite uma analogia à pegada ecológica atual. O espaço apresenta-se escuro e requer ativação por parte do público interessado em participar, na medida em que obriga numa primeira instância, a um olhar atento e orientado para baixo, quase animal, para um acesso seguro e cuidadoso à Gruta. Uma vez no interior, o olhar é orientado para cima, racional e de observação, desta vez com a finalidade de visualizar o filme de Ana Vaz. As propostas artísticas vindouras vão-se sobrepondo entre si, numa relação hierárquica horizontal, colaborativa, na tentativa de evidenciar o desenvolvimento do projeto e a passagem do tempo – aqui abordado como uma potência que não é linear, proveniente do conceito de Gilbert Simondon, associado à ideia de que este (o tempo) vem do futuro e não ao contrário, condição que permite vivenciarmos o presente em pleno, segundo Bernard Asp.

Para Hugo Canoilas, a natureza da obra de arte é a presença do Futuro, sempre. A obra é entendida como um devir: acontece devido ao movimento de retorno do futuro para o presente, permitindo a junção de um conjunto de ideias complexas, traduzidas em camadas que se acumulam e ficam na memória, num jogo de sedimentação da sociedade contemporânea.

O espaço que antecede a Gruta corresponde ao acervo da galeria. De futuro serão apresentadas obras dos artistas convidados a intervir na Gruta com o intuito de contextualizar o público na sua prática artística. Agora, para pontuar a inauguração deste espaço, Hugo Canoilas recorre a artistas representados pela Galeria Quadrado Azul com obras cuja génese manifesta uma relação imediata com a Gruta. Assim, Isabel Carvalho propõe um conjunto de obras que remetem para placas técnicas de obras expostas em museus, cujo conteúdo corresponde a textos poéticos e subjetivos. Ana Santos participa com esculturas que se situam entre o meio natural e tóxico com esculturas de pedra e parafina, Francisco Tropa apresenta desenhos de frottage que evidenciam o movimento do corpo e da mão no desenho (analogia a uma pintura rupestre) e Gonçalo Sena sugere um conjunto de esculturas quase primitivas de resistência ao quotidiano.

O espaço da Galeria Quadrado Azul, ao permitir a convivência de três projetos artísticos em simultâneo – uma obra de arte colaborativa em desenvolvimento e duas exposições distintas –, abraça uma iniciativa de carácter experimental, promovendo a liberdade de expressão artística e questionando a sua posição atualmente associada a uma vertente comercial. O público visitante também é objeto desta experiência uma vez que lhe é proposto um retorno recorrente ao espaço da galeria para acompanhar o desenvolvimento do projeto colectivo da Gruta.

Hugo Canoilas defende a participação em projetos artísticos coletivos como um benefício para a sua prática artística e alega que a heterogenia resultante dessas colaborações pode ser entendida como uma ferramenta de treino do corpo e da mente para uma boa integração no contexto contemporâneo. A heterogenia aplicada ao espaço da Galeria Quadrado Azul como sugestão de uma nova e distinta abordagem à trilogia obra de arte, público e galeria, que poderá ser vivida e experienciada no decorrer de 2019.

Vive e trabalha em Lisboa. Mestre em Arquitetura pela FA-UL em 2010, desenvolveu a sua prática profissional na Suíça entre 2011 e 2016. Em 2017 inicia a Pós-Graduação em Curadoria de Arte na FSCH-UNL, integrando o coletivo de curadores da exposição final ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) e comissariado a exposição do projeto de arte comunitária UM MONUMENTO PARA O LOUSAL. Atualmente desenvolve projetos nos domínios da arquitetura e da curadoria.

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