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Hunger (2008), de Steve McQueen

Ao contrário do poema de Mário de Sá Carneiro Quasi, a Steve McQueen não lhe faltou o golpe de asa. O cineasta britânico conta já no curriculum com duas obras notáveis, Hunger (2008) e Shame (2011).

Quando se trata de Steve McQueen, as expectativas são sempre elevadas. Não foi o caso, na minha opinião, do aclamado 12 Years a Slave (2013), provavelmente, porque o tema em causa tem sido demasiado explorado ao longo da História do Cinema. McQueen convence mas, infelizmente, não surpreende. O realizador acaba de lançar o seu último filme Widows, já em exibição nas salas portuguesas.

O que mais impressiona na sua cinematografia é a violência física e psicológica, filmada sem filtros, que se tornou uma das marcas distintivas. Outro denominador comum é Michael Fassbender.

Mas o foco do meu texto transporta-me para a estreia de McQueen com Hunger que conquistou, em 2008, a Caméra d’Or no Festival de Cannes, um prémio que distingue o melhor primeiro filme.

Baseado numa história verídica, Hunger mostra-nos a crua realidade de um dos períodos mais negros da Irlanda do Norte quando, em 1981, os conflitos políticos e religiosos atingiram o auge, causando efeitos devastadores.

A ação decorre no estabelecimento prisional de Maze, onde é iniciada uma greve de fome pelos reclusos, membros do grupo paramilitar IRA (Exército Republicano Irlandês), liderada por Bobby Sands (Michael Fassbender), contra as condições desumanas como eram tratados.

O grande objetivo da luta de Sands era obter o estatuto de prisioneiros políticos para os ativistas do IRA, tendo morrido após 66 dias de greve de fome, sem que Margaret Thatcher cedesse às suas reivindicações, acabando por se transformar num símbolo da luta armada do grupo.

Em Hunger, o espetador experiencia o verdadeiro terror. McQueen filma diversas sequências de imagens, recorrendo a planos longos para ilustrar a violência bárbara a que eram sujeitos os presos pelos polícias, reflexo de uma amoralidade institucionalizada que permitia a prática de crimes sem qualquer tipo de punição.

O cenário é dantesco. As celas gélidas, sujas, um ambiente nauseabundo. A primeira vez que vislumbramos Bobby Sands é absolutamente aterrador. É levado de rastos pelo chão, nu, para cortar o cabelo e, de seguida, é atirado para uma banheira. A cor da água fica vermelha, causada pelo sangue que escorre do seu corpo, cravejado de feridas.

A certa altura, a câmara foca a objetiva numa sala, em que estão sentados frente a frente Bobby Sands e o padre da prisão (Liam Cunningham) que conversam sobre o objetivo da greve de fome que está prestes a iniciar e respetivas consequências. O padre confronta-o com o facto de este não estar suficientemente lúcido para tomar tal decisão e que a greve de fome é semelhante a suicídio. Sands mostra-se irredutível.  Perante as suas convicções inabaláveis, o olhar do padre vai, lentamente, esmorecendo. No decorrer desta cena, com a duração de cerca de 15 minutos, Sands recorda um episódio em particular da sua vida, ainda jovem. O que, à partida, pareceria um diálogo simples, este revelar-se-á exatamente o oposto. É obrigatório absorver cada palavra, cada gesto, cada expressão, com a dignidade que este momento impõe.

A interpretação de Michael Fassbender é colossal. Surge transfigurado, já que teve de perder muito peso para encarnar o papel de Bobby Sands, conferindo grande realismo ao personagem. No entanto, este elemento, por si só, não seria suficiente. O ator vai muito mais além, demonstrando uma enorme mestria na arte de representar.

O tema retratado em Hunger não é de todo linear, ou seja, a despiedade com que os presos são tratados faz com que esqueçamos que não estamos perante uma dialética entre o bem e o mal, mas, estamos sim, diante da punição de atos hediondos com outros atos do mesmo tipo.

As crenças e as contradições do Homem numa luta pela sobrevivência, sobretudo, moral. Um filme memorável.

Apesar da sua Licenciatura em Gestão de Marketing, o seu percurso nunca foi linear. Detesta as rotinas entorpecedoras e a escrita é seu refúgio. Quando inicia as suas deambulações por esse universo fica completamente alienada do mundo. Nunca se levou muito a sério. "Depus a máscara e vi-me ao espelho. — / Era a criança de há quantos anos. / Não tinha mudado nada... / É essa a vantagem de saber tirar a máscara. / É-se sempre a criança (...)" – Fernando Pessoa. Uma das suas principais características é criar empatia com todo o tipo de pessoas. A sua maior paixão é o Cinema e, sempre que pode, não abdica de longas tertúlias com os suspeitos do costume, com os quais partilha os seus estados de alma. "I try to get closer to reality, to get close to the contradictions. The cinema world can be a real world rather than a dream world.” – Michael Haneke

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