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You gotta fight for your right to cry

You gotta fight for your right to cry ou, nas palavras de Sónia Baptista, “usar a tristeza para ativar a zanga e conseguir assim lutar por um mundo melhor e mais justo”. Triste in English from Spanish descasca as camadas do filtro da felicidade até conseguirmos ver o que está por debaixo. Da melancolia à tristeza até chegar à depressão com toda a alegria – um sentimento mais palpável do que esse animal mitológico chamado felicidade – que pode existir pelo meio.

 

Does it spark joy?

A peça começa com uma espécie de stand-up de Sónia Baptista em que esta fala sobre “a sua condição”, como diz várias vezes ao longo desta entrevista. Fala sobre reclamar a tristeza como algo que pode e deve ser vivido e, porque não, carpido fora de portas e de segredos; sobre a força de admitir fragilidades e de rejeitar o smiley face que a sociedade nos quer colar na cara. Explica como estar triste é uma coisa e a depressão crónica – a sua condição – é outra. “A tristeza pode ser um motor para a ação, a depressão é o inverso. É a não-ação. A depressão não é mau feitio – eu não sou assim. Eu não era assim. Eu tenho potencial para ser outras coisas, quando não tenho aqui um problema nas sinapses”, ironiza. Em resumo, a depressão é uma doença clínica e a tristeza é “apenas” um sentimento. Correndo o risco de soar a qualquer coisa saída de um livro chamado Depressão para Totós – mas nem todos os conceitos que são claros para uns o são também para os outros – é possível estar triste sem ser depressivo e ser depressivo tendo a capacidade de sentir uma imensa alegria (leia-se aqui o depressivo do ponto de vista clínico e não da forma quase leviana como normalmente usamos a palavra).

Talvez por entender tão bem estes paradoxos, os contrastes são muitas vezes o ponto de partida para os textos que Sónia Baptista escreve. No primeiro rascunho são sempre mais pesados e, aos poucos, começa a trabalhar o absurdo e a leveza que estão escondidos por detrás da seriedade. A dada altura falamos dos espetáculos de stand-up de Hannah Gadsby (Nanette) e de Tig Notaro (Hello, I Have Cancer) e da identificação que sentiu com eles e tudo faz sentido, porque há uma predisposição semelhante para partir da própria experiência, por muito dura que seja, e disseca-la com humor. “A peça tem muita alegria, porque só se percebe a tristeza com a alegria ao lado e vice-versa. Quando é triste, é muito triste, mas eu queria que tivesse muito humor. Não é uma manipulação consciente do público, de todo, mas queria uma montanha russa de emoções, porque às vezes o meu estado, o estado das pessoas que sofrem destas coisas, é assim. É ‘tá-se bem ou ‘tá-se muito bem socialmente e depois vai-se para casa chorar”, diz.

 

O artificial, o superficializar por aí

Partindo das suas vivências, Sónia Baptista encontrou ligações com referências que vão do prosaico ao pop e a tudo o que está pelo meio. Fala-se em Oprah Winfrey, do Instagram, da Dolly Parton e da Victoria Abril, da Emily Dickinson, de música clássica e até da guru da arrumação de objetos e de vidas, a japonesa Marie Kondo (sobre tudo e todos perguntar “isto traz-me alegria?”). Depois do solo inicial, entram em palco as outras seis intérpretes e também cocriadoras do espectáculo: Ana Libório, Carolina Campos, Cleo Tavares, Joana Levi, Márcia Lança e Paula Sá Nogueira. “Em todos os momentos, elas são mais do que meras representações de mim, são outras facetas desta vivência que é minha, mas que também é universal”, explica Sónia.

Ao mesmo tempo que analisa o “superficializar por aí” que caracteriza o dia-a-dia no século XXI, Sónia Baptista oferece-lhe um contraponto com referências ao Ecofeminismo. Esta corrente de pensamento e movimento social denuncia a prepotência e o abuso da sociedade patriarcal sobre as coisas naturais, traçando um paralelo entre as mulheres e a Natureza. Em alternativa, propõe uma reorganização económica e política que proporcione o reatar dos laços entre a humanidade e o mundo natural. “Potencialmente, são as mulheres que vão salvar o mundo. As mulheres que gostam de outras mulheres, que não são inimigas das outras mulheres e que não perpetuam o sistema patriarcal”, diz Sónia. “Mas a sociedade patriarcal é igualmente tóxica para homens e mulheres. Estamos todos reféns desta forma de viver tão consumista. A vida é uma coisa tão misteriosa, tão milagrosa, tão incrível, como é que chegámos a este ponto de achar que o dinheiro, que é uma coisa artificial que nós criámos, é o mais importante? Não, o mais importante é mesmo o amor, viver bem, tratar bem as coisas e as pessoas”.

Como não há coincidências, a próxima peça de Sónia Baptista é sobre a raiva e a gana de mudar isto tudo, um sentimento que anda muitas vezes de mãos dadas com a tristeza.

 

Together we were never sad

Triste in English from Spanish é também uma homenagem à pessoa mais importante da vida de Sónia Baptista, a sua amiga Ana. Diz que ela está presente quase do início ao fim da peça, mas não de uma forma clara. Nunca se refere a Ana pelo nome porque, desta vez, “queria protegê-la, queria proteger-nos”, diz.

Eram vizinhas e conheceram-se quando Sónia tinha quatro anos e Ana oito. Para Sónia, filha única, Ana foi tudo: uma irmã, uma amiga, uma mentora. “Desde que ela morreu, todas as minhas peças têm referências à Ana. Ela sofria de depressão crónica. Nós crescemos juntas e éramos muito felizes. Nunca nos zangámos, riamos muito, passávamos dias juntas, eu lia o que ela lia. Eu nunca soube que ela sofria de depressão crónica e ela também nunca soube que eu sofria de depressão crónica. Nós nunca falámos sobre isso…”. “Porque eram tão felizes juntas que não havia espaço para tal?”, pergunto eu. “Isso. Nós éramos incríveis”, responde Sónia.

De hoje até Sábado e durante o resto da vida, vamos dar o peito à tristeza e repetir como um mantra: you are not the voices in your head.

 

Triste in English from Spanish

De 17 a 19 de janeiro, Culturgest

17 e 18 de janeiro, 21h

19 de janeiro, 19h

A 18 de Janeiro, a peça é precedida por uma conferência sobre Ecofeminismo com Yayo Herrero, investigadora na área da ecologia social. A conferência tem início às 18h30 e a entrada é gratuita (sujeita à lotação da sala) mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 18h00.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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