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Coletivo Casa Amarela

com Rui P. Andrade & Aires (Vítor Bruno Pereira)

O palco do MUDAS encheu-se de plantas para receber a música de Rui P. Andrade & Aires, stage name de Vitor Bruno Pereira, ambos madeirenses e cofundadores do Coletivo Casa Amarela (CCA). Em concerto apresentaram Dreaming of Sailing Further West, um álbum onde é possível sentir o território insular através de sonoridades ambient, drone e noise. O título do álbum tem origem num artigo ilustrado datado do séc. XIX, em que se refere a presença de Colombo na Ilha, no âmbito dos preparativos da viagem que levaria à descoberta do continente Americano.

Por norma, a música eletrónica experimental é abstrata. No entanto, no álbum Dreaming of Sailling Further West, do vosso projeto Ulnar, existem referências fortes ao território, em faixas como Sapphire Harbor, Volcanic Ash e Camberra, onde segundo referem é possível perspetivar o território insular com referências explícitas à ilha e aos movimentos migratórios. Gostaria que comentassem.

Bruno – As referências mais explícitas à Madeira estão mesmo nesse disco e trata-se de uma espécie de “cantatálogo” da região.

Fizeram uma espécie de mapeamento dos sons da ilha?

Rui – Não lhe chamaria um mapeamento. Simplesmente tínhamos o gravador connosco em algumas ocasiões e fizemos gravações de vários sons, desde uma levada na costa norte, ao som do mar no Funchal. O ponto de partida foi aleatório e percebemos que conseguíamos agregar os sons de uma forma coerente, nas faixas em que estávamos a trabalhar. Não foi calculado, surgiu de forma natural.

O MADEIRADiG, como festival de referência internacional na ilha, contribuiu de alguma forma para a vossa música,?

Rui – Contribuiu indiretamente. É a primeira vez que o Bruno vem ao Festival, mas eu já tinha estado em 2011. Já lá vão sete anos. No entanto, é a primeira vez que estou a experienciar o festival neste contexto. Na altura, nem tinha idade para beber uma imperial, vinha de boleia com a minha mãe e a seguir aos concertos ia para casa. Não tinha noção do restante panorama do festival, que é incrível. Deve ser dos poucos, a nível mundial, que consegue reunir esta intimidade entre artistas, promotores, público e imprensa.

Bruno – Eu vivo em Lisboa há doze anos e, por esta altura (final de novembro, início de dezembro), nunca estou na Madeira. É a primeira vez que estou livre para vir ao Festival. Claro que músicos como Tim Hecker ou Ben Frost são uma influência para mim, ou os Damien Dubrovnik, fundadores da editora Posh Isolation, que muito admiro e que vão tocar amanhã. Nós crescemos na Madeira e sabemos o deserto que esta ilha pode ser, portanto ter um festival como o MADEIRADiG, que reúne na ilha o topo da música eletrónica experimental, acaba por ser uma influência indireta.

Sendo vocês da Madeira e considerando o festival um selo de qualidade, como receberam o convite de Rafael Biscoito e como foi atuar no palco do MUDAS?

Bruno – Foi o topo de tudo o que fizemos até agora. Foi talvez o palco mais importante e a validação mais significativa. Somos de cá e tocar no mesmo palco onde tocaram grande parte das nossas influências é muito significativo. Especialmente porque o diálogo com o Rafael não começou este ano, já começou há algum tempo e agora foi possível.

Como surge o Coletivo Casa Amarela?

Bruno – Surge em 2014 e no início a ideia era criar um misto de editora/plataforma digital de opinião crítica cultural. No entanto, percebemos que queríamos acima de tudo ser uma produtora/editora e trabalhar nos nossos projetos, tendo a parte de crítica e de opinião ficado completamente de parte. Começámos com quatro pessoas e agora somos três, eu, o Rui e a Mafalda, que é responsável pela parte gráfica. Editamos essencialmente em formato digital e cassetes. A cassete voltou definitivamente e fazemos edições de 50. Tem uma textura única e uma sujidade que nos interessa. No entanto o meu formato favorito é o MP3. Tenho 31 anos e toda a música que consumo é em MP3.

Rui – (risos) MP3, 190 KB/s.

Vocês também têm vários projetos a solo.

Rui – Sim, temos muito mais trabalhos a solo do que em conjunto.

Bruno – Eu a solo tenho dois alter-egos neste momento, sendo que Aires é o principal. O concerto do MADEIRADiG foi sobre esse alter-ego. Tenho também outro projeto intitulado Gallo’84 com uma estética assumidamente kitsch.

Kitsch em que sentido?

Bruno – Kitsch no sentido em que eu queria pegar em algo assumidamente over the top, e misturar a estética vaporwave com aquilo que eu sei fazer: ambient e drone. Conceptualmente foi criar uma espécie de banda sonora de um verão dos anos 90 onde quase condenso a minha juventude em três ou quatro faixas. Ao mesmo tempo imprimi uma estética vaporwave na capa do disco: um busto de Cristiano Ronaldo em jeito de Deus grego em tons de rosa e azul.

Trata-se de uma admiração por Cristiano Ronaldo ou uma ironia com o CR7?

Bruno – Nem sei, é um misto dos dois, porque ao mesmo tempo não conseguimos fugir. Acho que é um bom alvo para se gostar, adorar mas também para distanciar. E é este o conceito de Gallo. Com o projeto Aires as minhas preocupações são diferentes, um pouco mais sérias, talvez. O último álbum a solo, Naturalismo, saiu em novembro de 2017 e é composto por faixas auto referenciais e meta referenciais entre si. Uma espécie de jogo de espelho entre três canções enormes que se citam entre si. Foi o álbum mais agressivo que já fiz. Anda pelo noise e o ambient é muito denso.

Rui, fala-nos agora dos teus projetos a solo.

Rui – All Lovers Go To Heaven foi o último disco que lancei a solo, a 11 de setembro de 2017, pela ACR, uma editora londrina com quem tenho uma proximidade muito grande. Ultimamente tenho colaborado principalmente no projeto HRNS, uma colaboração entre mim e o Afonso Ferreira (FARWARMTH). Em 2018 lançámos três EP’s, dois deles pela própria ACR e um pela Pale Blue (Estados Unidos).

Porque é que não lançaste pela vossa editora?

Rui – Porque o Coletivo Casa Amarela tornou-se em parte um veículo para o meu projeto a solo ou para os nossos projetos em conjunto. E também porque honestamente nós não temos fundos para lançar tudo o que queremos, da forma que queremos.

Como é que se financiam?

Rui – Os fundos vêm a 100% dos nossos bolsos. Ainda não temos uma estrutura que nos permita pedir apoios estatais.

O vosso trabalho é feito à distância pois o Rui vive no Porto e tu em Lisboa. Como é o vosso processo?

Bruno – Por exemplo, para este concerto já tínhamos uma ideia do que queríamos fazer. Pensámos no concerto da forma mais elegante possível e a partir daí fizemos uma junção que fez sentido no nosso corpo de trabalho. Tivemos a oportunidade de ensaiar três dias em Lisboa e não voltámos a estar juntos até ao sound check.

Quais são as vossas perspetivas atuais?

Bruno – Eu estou a refazer um álbum a solo para lançar em março/abril de 2019. Até lá penso que vamos tentar tocar o máximo possível.

Nasceu em 1976 e é jornalista desde 1994. Fez diversos cursos de Jornalismo no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) e diversos cursos no âmbito da arte contemporânea, sendo o último a Pós Graduação em Curadoria na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro fundador e directora da revista Umbigo com a qual desenvolveu um projecto de curadoria. Júri e curadora da exposição de Joalharia Contemporânea "On the Other Hand", comemorativa do 5.º aniversário da PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea). Ainda para a revista Umbigo fez a edição do livro "Coordenadas do Corpo na Arte Contemporânea", numa recolha que reúne uma série de trabalhos artísticos sendo que muitos deles foram desenvolvidos propositadamente para o mesmo; num conjunto de obras que representam uma pequena amostra das preocupações filosóficas e estéticas de um conjunto de artistas.

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