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15 Anos de MADEIRADiG

O Verdadeiro Sentido do Luxo

Na Estalagem da Ponta do Sol, Valeriu Borcos, da banda Karpov not Kasparov, toca piano; a audiência descontraída ouve, aprecia. Lá fora, músicos e público olham para o pôr do sol relaxados.

À chegada, várias pessoas circulam pelos espaços do hotel, entre eles os habitués: os músicos que nas próximas noites estarão no palco, e que sentem o anonimato que este festival lhes proporciona, e os que chegam pela primeira vez e não conseguem evitar a surpresa. Desta vez a esperada abertura/sunset foi feita na Estalagem ao invés do habitual Centro Cultural John dos Passos.

O MADEIRADiG é uma espécie de bolha, uma sociedade utópica das que só existem na literatura ou no cinema. Nesta sociedade em que músicos convivem intimamente com a sua audiência, tudo parece perfeito e irreal. E assim se desenrola uma história que apesar de parecer onírica, é real e decorre ao longo de quatro dias. Como já referi em artigos anteriores, o MADEIRADiG acontece nos primeiros quatro dias de dezembro e resulta de uma parceria esforçada entre quatro entidades: APCA (Associação para a Promoção da Cultura Atlântica), Digital in Berlin, Estalagem da Ponta do Sol e MUDAS – o espaço onde os concertos têm lugar.

Para a maioria trata-se de uma agradável rotina e os que vêm pela primeira vez, começam desde logo a planear a do ano seguinte. A programação com a co-curadoria entre Rafael Biscoito (APCA) e Michael Rosen (Digital in Berlin) começa a ser feita com uma grande antecedência, mas só muito perto da data é que os nomes estão validados para colocar online. Numa época em que o género assume uma relevância determinante, este ano a predominância foi feminina: onze artistas femininas e nove masculinos num cartaz bastante equilibrado e eclético a nível de sonoridade, estética e identidade. Na opinião de Nuno Barcelos, responsável pelo marketing e pela programação da Estalagem, é este o caminho. “É preciso desafiar a mente das pessoas. São já quinze anos e os programadores não podem ter medo de arriscar e têm que se desafiar a si próprios. Acho que arriscaram mais este ano e o resultado foi bem conseguido”.

As after-sessions na Estalagem também superaram edições anteriores, muito devido aos dois live-acts de Karpov not Kasparov e Baby Dee (entrevista em breve). Se por um lado o duo romeno colocou a audiência a vibrar com a sua música “cheia de sentido de humor e de influências ciganas”, nas palavras de André Diogo (co-proprietário e diretor da Estalagem da Ponta do Sol), a intensa e visceral Baby Dee deu um espetáculo marcante. “Senti algo cada vez mais raro em mim. Acontece quando ouves determinada música, ou vês determinado filme, fotografia ou obra de arte. Não é uma sensação nova para mim, mas é cada vez mais rara, e foi o que senti ao ouvir Baby Dee. Aquele misto de alegria e de tristeza, nostalgia e felicidade” contou Rafael Biscoito. A carga emotiva assumiu proporções ainda maiores pelo facto de Baby Dee ter revelado que seria um dos seus últimos concertos pois vai-se reformar. O mundo precisa da sua música, mas sente-se cansada das viagens, da vida de aeroporto, e sente ter chegado a hora de se reformar. “Agora vou-me embora e não tentem impedir-me” diz-nos a rir na altura em que faz o check-out do hotel.

Enquanto vagueio pela Estalagem ao sabor de um chino matinal (segundo os madeirenses trata-se de um café grande sem leite) ou de um copo de vinho ao pôr do sol, vou conversando com os artistas. Este ano, entre muitos outros músicos tive a oportunidade de estar com Ana da Silva e Phew (ler entrevista) e Maja Osojnik (ler entrevista). Ambos os concertos, emotivos e intimistas, representaram para muitos, pontos altos no Festival. Ana da Silva “por todas as razões e mais alguma”, disse Rafael. É madeirense, fundadora da banda The Raincoats e tem uma grande importância na cena punk. “E depois a Phew, uma artista que eu admiro e conheço há muitos anos. Tê-las juntas nestas circunstâncias, a apresentar o seu novo álbum Island, foi para mim foi muito especial”, contou Rafael. Num regresso à Madeira esteve também a dupla Rui P. Andrade & Aires (Vítor Bruno Pereira) do Coletivo Casa Amarela (ler entrevista) o que acabou por ser nas palavras de Maria Fernandes, responsável pela comunicação do Festival, “um encontro de gerações, e isso é interessante e gratificante para nós”. O concerto de Maja foi sublinhado pela sua autenticidade, poder da spoken word, e pela forma como as suas mãos “dançavam” nos instrumentos.

Let’s Play Chess?

“Costumamos estar um pouco nervosos antes dos concertos e acho que é importante sentir esse receio, ajuda-nos a conectar com a audiência e a emoção é necessária” confessou Valeriu Borcos, dos acima referidos Karpov not Kasparov. Conversámos na tarde que antecedeu o concerto da banda romena. “Geralmente dizemos ao público que caso não se aproxime e dance começamos a tocar pior”, disse Eduard, entre risos. Detestam laptops e chegam mesmo a dizer que “é inaceitável para nós usá-los em palco”. “From Bucarest not Budapest” – como referiu Valeriu na noite do concerto -, são peritos no jogo disputado entre bateria e sintetizador e fazem música com base nas regras e estratégias do xadrez, misturando música tradicional, folclore oriental, disco e dance music dos anos 80. “Em primeiro lugar o nosso conceito está relacionado com o xadrez, tem um papel central na nossa música e é através deste jogo que criamos correspondências. Em segundo lugar, com a nossa região e território onde crescemos, a Roménia. Temos essa mescla muito variada de culturas ocidental, oriental e latina e temos também uma tradição muito forte de músicos ciganos e folclore”, disse Eduard Gabia. “Tudo funciona como se fosse uma mesa de xadrez em que a melodia é o ponto de partida para nos movermos. Não é uma fórmula matemática muito rígida, mas sim mais filosófica”, diz. Fazem brainstormings antes do processo criativo, por vezes discordam, mas gostam de pensar que são dois hemisférios do mesmo cérebro. Ao longo dos últimos quatro anos, têm tocado bastante pela Europa e para eles o MADEIRADiG foi uma experiência inacreditável. “Nós não sabíamos o que esperar e está a ser ótimo, diríamos até irreal”.

Art Oriented Resort

No MADEIRADiG não há como pensar em atuações ao vivo sem pensar nelas como uma experiência de vida. Na última noite os dinamarqueses Damien Dubrovnik subiram ao palco para um concerto noise pautado por uma forte apresentação visual, que faz aliás parte da sua identidade enquanto banda e enquanto editora, a Posh Isolation. Em férias com os pais, Christian Stadsgaard já tinha visitado várias vezes a ilha e quando recebeu o convite para atuar no palco do MUDAS, disse automaticamente a Loke que era algo que deveriam definitivamente aceitar. “Por vezes não acredito que voámos da Argentina para a Madeira para tocar. Somos tão privilegiados.” Antes haviam tocado num grande festival no México, de seguida voaram para a Colômbia, Chile e Argentina, onde supostamente iriam tocar, mas o concerto foi cancelado devido à cimeira do G20. “Basicamente foi o Donald Trump que nos cancelou” disse Christian.

No seu trabalho como editores, Christian Stadsgaard e Loke Rahbek foram fundamentais para a implementação da comunidade noise e punk, não só em Copenhaga, como a nível mundial, tendo feito 220 lançamentos ao longo de dez anos. “Gostamos de ter um contacto próximo com as pessoas com quem trabalhamos. É por isso que não somos uma editora tradicional a quem se entrega uma demo. Talvez se deva ao facto de termos vindo de uma cultura punk, onde toda a ideia de unidade e comunidade era importante. Gostamos que as pessoas assumam a responsabilidade do seu trabalho, que sintam fazer parte de uma família e de um rótulo”, conta Christian.

Apesar de cansados da viagem e do jet-lag não deixaram de conviver com a grande família DiG e de falar sobre o seu processo criativo e forma como as imagens os influenciam. Vivemos numa cultura extremamente visual e para a dupla: imagem e estética são inerentes ao seu processo criativo. Daí terem criado uma identidade tão forte que se reflete no merchandising da editora. Christian tem um mestrado em cultura visual e Loke queria ser artista visual quando era mais novo. “Viemos de um contexto em que não estávamos interessados ​​apenas em música, mas também na apresentação e representação visual. E essa também tem sido uma das nossas caraterísticas no trabalho em conjunto. A partir daí vimos a editora crescer para além da música, para um mercado completamente novo, de pessoas que se identificam com Posh Isolation”, revelou Christian.

Têm uma estrutura que seguem, tanto musicalmente, como no contexto da performance ao vivo e que vai variando consoante o espaço onde tocam. O MADEIRADiG consideram-no único. “Já toquei em vários locais pelo mundo fora, mas nunca vi nada assim. Parece uma espécie de resort artístico com configurações únicas.”

“Tudo tem uma grande dose de Technicolor”

Hoje em dia andamos tão desconectados de nós próprios e do ser humano em geral, que a cultura apresentada de uma forma tão específica, consegue unir-nos para além do individualismo. “E é talvez esta a realidade que as pessoas procuram quando vêm ao festival. Ter a oportunidade de se conectar e de partilhar esta experiência a nível sensorial e coletivo”, revelou Nuno Barcelos. Vive-se um espírito comunitário onde convivem várias nacionalidades e em que entre 50 a 60% do público repete a experiência, desde há vários anos. Mette Johnsen é uma jornalista dinamarquesa que vive em Londres e que foi pela primeira vez ao festival com o objetivo de escrever para o site Passive Aggressive. “Sinto-me distante do mundo real. Tudo é bonito e intenso: as montanhas, o Oceano Atlântico, a arquitetura paisagística dramática, a experiência da música e o palco dentro do museu de arte contemporânea. Tudo tem uma grande dose de Technicolor e é quase holístico”. Mette soube do MADEIRADiG através de um amigo que tocou este ano nos Concertos L. Acontecem todos os anos na Estalagem e a programação está a cargo de Nuno Barcelos. Existem desde 2008 e decorrem entre julho e setembro numa média entre 12 a 16 concertos por ano. Música, para Nuno, é sinónimo de vida, “salvou-me literalmente e é uma terapia. Aos doze anos ouvia o The Wall dos Pink Floyd e a experiência era quase surreal. Eu tinha um vício tão grande neste álbum que o ouvia em repeat. Acredito piamente que a música é emoção, faz-me sentir parte do mundo”. Programar tornou-se um vício, “posso dizer que me deu um prazer imenso organizar o único concerto em Portugal da Bianca Casady, das CocoRosie, bem como ver a Sevdaliza no primeiro concerto em Portugal no ano passado”. Nuno produziu também durante dois anos o festival Raízes do Atlântico e atualmente está na direção artística, imagem e comunicação do Festival Aqui Acolá.

E assim Mette tomou consciência da existência do Festival MADEIRADiG, quando o amigo lhe disse: “acabei de voltar de um concerto incrível numa espécie de James Bond hotel na Madeira”. Mostrou-lhe as fotografias, Mette apercebeu-se que havia um festival em dezembro, marcou a viagem “e agora que descobri o festival não consigo imaginar não voltar à ilha no próximo ano.”

A nível financeiro este ano foi possível “respirar”, e entre várias outras situações os live-acts nas after sessions apenas foram possíveis devido ao Apoio à Programação e Desenvolvimento de Públicos que obtiveram por parte da dgARTES. Na verdade ao longo destes anos o festival sobrevivido. Segundo Rafael, “acho que pelo menos há uns seis ou sete anos que não temos qualquer apoio público, exceto o apoio que nos é dado pelos nossos parceiros. Tudo o resto é pago pela nossa atividade enquanto associação e pelas receitas que obtemos e que são possíveis de canalizar para o evento. Muitas vezes eu e o Maurício Marques (sócio de Rafael) investimos dinheiro do nosso próprio bolso”. O festival não está ligado a nenhuma empresa ou marca, é internacional e é um festival completamente independente. A bilheteira também não representa uma boa fonte de rendimentos pois a capacidade oficial da sala é para 191 lugares sentados. “Nos últimos anos têm-se manifestado claramente insuficientes. Este ano conseguimos colocar uma fila de 13 lugares à frente e a ocupação passou para 204”, constatou Rafael.

A Estalagem – “Return to the essentials

A maioria das pessoas que visitam o Festival não quer sair da Estalagem. Para além do programa noturno que envolve um buffet de oferta – que se segue aos concertos no MUDAS e antecipa as after sessions – as pessoas podem ainda mergulhar na piscina interior, aquecida durante 24 horas. Ao longo do dia todo o espaço é muito agradável e para além da piscina panorâmica para o mar, têm a possibilidade de ir ao Spa e de fazer a famosa levada ou passeio anual. Este ano foi pelos Caminhos Reais, a norte da ilha. “O Caminho Real não é uma levada, é algo de novo que vai renascer na Madeira. Eram caminhos de acesso às localidades, às povoações, mas também aos fontanários. Estamos a falar de uma das escarpas mais agressivas, uma espécie de Alpes versão portuguesa. O Caminho Real é um ‘passeiozinho’ muito estreito que vai descendo essa escarpa, levando-nos à praia. Por coincidência este ano existiu até uma conferência sobre como recuperar os Caminhos Reais da Madeira”, contou Nuno.

“Os clientes não vêm em primeiro lugar, os funcionários, sim. Se você cuidar bem dos seus empregados, eles cuidarão muito bem dos seus clientes”, diz o empresário britânico Richard Branson. É esta a máxima seguida por André Diogo, e é essa uma das razões que leva ao bem estar sentido neste espaço e frequentemente referido pelos “consumidores” do MADEIRADiG. “Aliás tu sentes que as pessoas comungam do festival com os próprios empregados. Não há um apartaid. E as próprias pessoas que vêm ao festival também apreciam esta forma de estar, portanto isso faz parte de uma harmonia. As empresas têm uma palavra muito importante nas comunidades e o seu principal objetivo deve ser ajudar a tornar a vida melhor”, refere André acrescentando que não obstante os espaços terem as melhores condições e o melhor design “no fundo o que faz realmente o ambiente são as pessoas, são elas que marcam a diferença e são raros os festivais que no mesmo espaço juntam os media, a assistência, os artistas e a organização”.

André tem uma filosofia de vida muito específica e quando se fala na gestão do hotel, nem tudo está relacionado com a parte financeira, outros valores se levantam. “Claro que uma empresa tem de ser viável e é importante que seja economicamente estável e forte. No entanto não se pode descurar a responsabilidade social e tentamos dar o máximo possível à localidade em que estamos inseridos, como por exemplo no apoio que damos aos alunos a nível cultural, seja através de viagens ou de outras atividades relevantes”. Há um estimular da economia local, até mesmo nas compras que fazem aos agricultores e produtores da zona. “Hoje em dia a responsabilidade social é muito grande. Ninguém se pode sentir bem num hotel de luxo na Ásia a beber um gin tónico, em que o próprio gin vale talvez o ordenado de uma semana do empregado que o serve. As empresas devem ter essa consciência, não se pode pensar apenas em números”.

André Diogo e Nuno Barcelos são também uma espécie de embaixadores culturais da ilha pois para além dos já mencionados MADEIRADiG e Concertos L promovem também o MMIFF (Madeira Micro International Film Festival) e residências artísticas com o londrino Goldsmiths College. É criado um site para a residência, que dura normalmente duas semanas, onde são produzidos uma série de trabalhos, que depois são apresentados em vários espaços. “A vila é inspiradora e tem excelentes infraestruturas como o antigo cinema art déco, o auditório John dos Passos e algumas casas que poderão servir para residências artísticas no futuro. O próprio Thurston Moore dos Sonic Youth, que também tocou na Estalagem, achou a ideia fantástica e de vez em quando pergunta-nos como é que está a decorrer o processo das residências. Num nível mais amplo, está para além de nós, tem de ser um pouco mais transversal e passar pela Câmara e pelos proprietários. Estamos a três horas e meia do norte da Europa, o clima é simpático e as infraestruturas são boas. Costumo dizer que a Vila da Ponta do Sol é pequena mas pode ser a ligação com alguém de Tóquio. É a parte boa da globalização”, referiu André.

“Return to the essentials”, o slogan da Estalagem, é para André o “tentar pôr de parte o supérfluo, sentir a natureza, a montanha e o mar. O que importa está fora, está na natureza. Com as pessoas acontece o mesmo, e acredito que a Ponta do Sol é um bom sítio para que as pessoas se encontrem e conectem. E o Luxo se calhar é mesmo isso, a facilidade de encontrar pessoas em que tudo flui naturalmente, sem que o artista se sinta pressionado”.

Nasceu em 1976 e é jornalista desde 1994. Fez diversos cursos de Jornalismo no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) e diversos cursos no âmbito da arte contemporânea, sendo o último a Pós Graduação em Curadoria na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro fundador e directora da revista Umbigo com a qual desenvolveu um projecto de curadoria. Júri e curadora da exposição de Joalharia Contemporânea "On the Other Hand", comemorativa do 5.º aniversário da PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea). Ainda para a revista Umbigo fez a edição do livro "Coordenadas do Corpo na Arte Contemporânea", numa recolha que reúne uma série de trabalhos artísticos sendo que muitos deles foram desenvolvidos propositadamente para o mesmo; num conjunto de obras que representam uma pequena amostra das preocupações filosóficas e estéticas de um conjunto de artistas.

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