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Melancolia Migrante em Las Golondrinas de Maya Saravia na Balcony Gallery

A 13 de dezembro de 2018, uma grande festa no bar Las Golondrinas, instalado no piso inferior da Balcony Gallery, em Lisboa, assinalou a inauguração da exposição de Maya Saravia com o mesmo nome, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues.

Las Golondrinas recria o ambiente de diversos bares frequentados por emigrantes latino-americanos em Madrid, cidade onde a artista de origem guatemalense viveu, que deslocados do seu país de origem, muitas vezes por razões trágicas, sentem necessidade de se encontrar, ouvir e dançar músicas provenientes da sua própria cultura.

Longe do seu país, e inseridos num novo contexto, para Maya Saravia, na sua condição migrante, o seu ponto de contacto é a dança e a memória da sua origem comum. Essa memória constrói uma identidade cultural e resulta numa estética própria assinalada através do bar Las Golondrinas onde cores vibrantes, fumo, espelhos, luzes e elementos decorativos específicos, normalmente escolhidos pelo dono do bar, tais como uma cortina de fitas brilhantes coloridas, compõem os vários espaços. Uma estética que se opõe e resiste à crescente normalização deste tipo de espaços, de paredes brancas e revestidos por materiais falsos, cópia dos naturais, preferidos por uma classe média gentrificada.

O público é envolvido por uma atmosfera melancólica, onde alegria e tristeza se encontram, uma melancolia migrante assinalada pelo néon colocado num dos primeiros espaços do bar e reforçada pelo próprio nome da exposição, Las Golondrinas, que significa as andorinhas, e é o nome de uma canção mexicana do final do século XIX ouvida em momentos de despedida e associada a uma nostalgia envolvente. Para além disto, os copos e garrafas de cerveja, que ficaram espalhados pelo espaço no dia da inauguração, e que passaram a ser parte integrante da instalação, compõem também este sentimento.

Por oposição ao ambiente informal e inesperado no piso inferior, no piso superior as peças de Maya Saravia são dispostas de forma clara nas paredes imaculadas, brancas e neutras. Junto às escadas que unem os dois níveis, o néon Las Golondrinas, e algum fumo branco que trespassa a cortina que divide os dois pisos dá pistas e conduz o público a descer. Esta dualidade de ambientes constitui uma provocação à noção de White Cube e à ideia de espaço de galeria, que procura criar uma arquitetura neutra face à arte, sacralizando-a.

Trânsito, movimento, migrações, dança. A exposição centra-se essencialmente na ideia de movimento, de como esse movimento acontece e de como se pode relacionar individualmente com o corpo de cada um através da dança e coletivamente através de movimentos migratórios.

Maya Saravia regista os traçados de determinados trajetos migratórios e representa os movimentos implícitos nas danças oriundas da mistura de povos que advêm dessa mesma deslocação. Segundo a artista, a chegada de escravos africanos à América Latina durante a colonização portuguesa e espanhola teve particular relevância no aparecimento de novos tipos de música e dança, já que ambos foram instrumentos fundamentais para lidar com a opressão implícita na escravatura, devolvendo a cada indivíduo a consciência do seu corpo e, portanto, o sentimento de si próprio.

Mais tarde, os movimentos migratórios, a evolução tecnológica e dos meios de comunicação, contribuíram para a sua globalização. Neste sentido, a grande maioria da música ouvida hoje em dia, teve origem nos tambores africanos. Jazz, Blues, Techno, House, Calypso, Kuduro, Coupé-Décalé, AfroHouse, Changa, Tuki, Reggaeton, Technobrega, Funk Carioca e Dembow são apenas alguns exemplos de danças que resultaram desse camuflar cultural.

Maya Saravia refere como a história da música e da dança está diretamente relacionada com o trabalho e com os fluxos migratórios laborais. Para além da adoção dos ritmos dos tambores africanos dos escravos que trabalhavam em determinados países americanos durante o período colonial, também o desenvolvimento do maior centro mundial da indústria automobilística no início do século XX, Detroit, fez com que uma grande comunidade negra se instalasse naquela zona e desenvolvesse ritmos baseados nos sons fabris repetidos que deram origem ao Techno.

Interessada pela dança enquanto prática de encontro com o corpo, nomeadamente quando praticada em situações de deslocação, durante o verão de 2018, Maya Saravia conviveu e observou vários dançarinos de rua, na sua maioria descendentes de emigrantes, no centro da cidade de Lisboa. Fruto dessa observação, a artista captou movimentos de seis danças através do sistema de pictogramas, labanotação, concebido pelo musicólogo húngaro Rudolf Laban para registar a posição do corpo e o desenho da coreografia.

Como complemento a estes diagramas, a artista apresenta outros registos que constituem trânsitos territoriais que estão na origem das danças estudadas, tais como a rota marítima do antigo “Comércio Triangular Atlântico” através da qual era feito o tráfico de recursos e escravos entre África, América e Europa e que conduziu à mistura de povos e culturas; o percurso da caravana que atravessa as Honduras, Guatemala e El Salvador passando pela Cidade do México em direção à fronteira Norte-Americana; e um mapa onde assinala a localização de diferentes estilos musicais provenientes desse cruzamento cultural, nomeadamente os desenvolvidos nas antigas colónias, e a sua relação com a atual música africana.

Todos estes registos são apresentados através de diagramas simples, graficamente apelativos, e com uma forte componente didática, à semelhança dos infogramas frequentemente visíveis nos noticiários como representação de determinados acontecimentos. Esta abstração da realidade para efeitos de comunicação é absorvida por parte do público de forma bastante distante do modo como as coisas realmente acontecem, conferindo à informação transmitida uma certa credibilidade. Isto faz com que estas representações comportem um poder convincente que leva a artista a afirmar que “os pictogramas são a nova pintura barroca”.

A liberdade dos movimentos dos fluxos migratórios, que influenciaram e definiram a história da música e da dança, são aqui representados por Maya Saravia através de diagramas nos quais linhas fluídas atravessam quaisquer delimitações terrestres, contraria o fecho de fronteiras a que atualmente assistimos. A dança e a música apresentam-se, assim, como elementos unificadores de culturas, como instrumentos de integração, símbolos de comunidade e de unidade global.

A exposição de Maya Saravia é marcada por uma dualidade absorvente que se situa entre a tragédia e a alegria, entre a emoção e a razão, entre o individual e o coletivo. Uma tensão marcada por um positivismo associado a um fatalismo que demonstra uma profunda humanidade.

Las Golondrinas de Maya Saravia, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, poderá ser vista até 23 de fevereiro de 2019 na Balcony Gallery, em Lisboa.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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