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Astray (Prologue), de Caroline Mesquita

É possível que, depois de muito tempo a estudar a arte contemporânea, se fique a pensar que existe um certo gesto e jeito formulaico que torna as obras e as exposições vagamente repetitivas e óbvias. Os mesmos temas, as mesmas formas de ocupação espacial, as mesmas palavras e jargões; referências já conhecidas, nomes já falados; os suportes que se repetem com ligeiras variações…

É certo que é uma visão ligeira, mas o sentimento que vai fincando é bem real. A surpresa perde-se.

Não é fácil explicar onde radica exatamente esta questão: se no contexto cultural em que se vive, no qual as imagens se sucedem em catadupa para assim se esvaziarem de conteúdo e surpresa; se nos artistas, que desistiram de procurar a originalidade, ou pelo menos a novidade; se nas instituições, que incapazes de dar muitas vezes resposta à vontade do artista, dão prevalência a soluções fáceis, a par, muitas vezes, de uma sobeja subfinanciação do setor.

Astray (Prologue), de Caroline Mesquita, na Kunsthalle Lissabon, inverte, contudo, esta tendência e é provavelmente umas das exposições e instalações mais surpreendentes e mais radicais nos últimos tempos, em Lisboa. Não só pela obra, mas pela ousadia da instituição em acolhê-la e tudo fazer para que acontecesse.

A descida gradual à cave da Kunsthalle não prepara o visitante para a obra. Somente no último degrau se compreende finalmente a violência da instalação: uma cratera escavada na cave do espaço expositivo, a terra exposta, o mármore do chão partido e colapsado. Está-se perante algo que não devia estar ali, como se uma escavação secreta se tivesse feito à revelia dos olhares da superfície, exposta, agora, sob a luz branca e incandescente do interior. No centro, um tubo gigante, enferrujado pelo tempo, aparentemente uma dessas condutas imensas que transportam os dejetos excretados pela cidade. Mas uma circundação do perímetro deixa-nos na dúvida de não sabermos se começa ali o tubo ou acaba, e as ossadas que se encontram ali depositadas desconhecemos se foram excretadas, se inseridas para uma viagem ao interior visceroso da cidade.

O ambiente é o de um achado arqueológico. A ficção é a de um achado arqueológico e a narração do que se esconde nas camadas mais subcutâneas do habitar, da cidade. É sarcófago, é artefacto, é objeto dotado de uma pretensa carga temporal, cronológica, que nos ultrapassa e nos reduz pelas várias escalas que congrega. E como na arqueologia há sempre um grau de mistério, de assombro, de tocar o que se julgava morto, a obra devolve toda essa atmosfera estranha e mística inerente às matérias deste campo tão fértil – sempre tão fértil – que é, justamente, a arqueologia.

Astray (Prologue) devolve-nos a realidade contemporizadora da cidade, de encerrar em si vários tempos, memórias, esqueletos e histórias/estórias. Devolve-nos o espanto na arte e no tempo.

 

Naturalmente, um gesto destes, que obriga à destruição parcial da instituição acolhedora, requer um compromisso e uma conivência da própria instituição. Em parte, é também uma ousadia sua, mesmo não conhecendo o historial de quase dez anos da Kunstahalle Lissabon e de um largo portefólio de exposições e projetos desafiantes e desafiadores.

Astray (Prologue) é a última exposição até 2020, e até lá o espaço vai ser entregue a outras instituições e plataformas internacionais (Pivô, Basement Roma, Kadist e ICA Philadelphia) para ali exporem projetos e obras de artistas vários. Uma atitude muito curiosa e interessante – corajosa também – de chamar a Lisboa outras geografias e modos de trabalhar e ver, um espaço de acolhimento transitório para a arte contemporânea que, talvez, possa criar raízes e interesse por parte de terceiros. Uma hipótese, ainda, para ensaiar deslocamentos, novos modos de operar e, claro, meditar sobre o papel institucional nas cidades.

Concomitantemente, este é o primeiro momento de um conjunto maior que Caroline Mesquita vai expor na Galeria Municipal do Porto – a introdução a uma investigação mais desenvolvida e aturada sobre o imaginário e a construção arqueológicos, com a curadoria de Sofia Lemos.

Até 8 de fevereiro, na Kunsthalle Lissabon.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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