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Voltar ao Arquipélago

Voltar aos Açores é tão natural como forçoso, uma vez conhecida a terra. Já tinha escrito aqui [Umbigo #65] que há qualquer coisa naquela atmosfera que nos prende. Mais: que nos estremece. Uma dimensão tamanha, um silêncio profundo e poético. Talvez seja exatamente esta incapacidade de apreender a sua complexidade. Talvez seja a diferente pressão no ar, ou carga energética que nos chega ente nuvens, fumos e neblinas. Fala-se do jogo de atração, entre a terra, o céu e o mar. O visível e o imaterial. Entre a gravidade, e as montanhas que a ela tentam escapar. Aqui, neste mundo atlântico. Como se fosse possível aceder à génese do misticismo, da magia, da criação. A natureza esmaga-nos, mas também regenera.

Voltar aos Açores é também sinónimo (pelo menos para mim) de voltar ao Arquipélago, centro de artes contemporâneas. Um projeto arquitetónico bem conseguido que permite uma viagem no seu interior, tal como numa peregrinação cuidadosamente engendrada. Mais do que um espaço com uma programação completa e invólucro a atividades várias, estamos perante um templo de sensibilidade maior.

Nesta conjuntura, o projeto aqui inaugurado no ano passado, Geometria Sónica, é naturalmente singular. Depois da Exposição-Índice, com a apresentação da obra dos treze artistas convidados, bem como as questões que permeiam os seus trabalhos, encontra-se agora patente o segundo momento que compõe os três ciclos expositivos. Com curadoria de Nicolau Tudela e Nuno Faria, os artistas Miguel Leal, Pedro Tudela, Mike Cooter e Tomás Cunha Ferreira apresentam, individualmente ou em colaboração, o resultado da residência na ilha, o contato com o arquivo de imagem e som da RTP, Rádio e Televisão de Portugal e desafio proposto.

Tal como na exposição inicial, a declinação atmosférica é notória ao percorrer as salas do edifício principal e a cave da antiga Fábrica de Tabaco. Parece, inclusive, que a experiência requer uma espécie de contemplação ativa, dada a índole acentuadamente sensorial dos objetos. As obras cruzam memória (e história), arquivo, paisagem, território, e propagam-se como espirais, como ondas que atravessam o tempo e o espaço. Como trata Nuno Faria, “nada no projeto Geometria Sónica é linear; tudo parece desenvolver-se numa lógica de circularidade”. Assim, é neste fluxo que circulamos pelos pisos e que se toma consciência da porosidade inerente às propostas, às pesquisas, ao contexto que circunda o nosso campo de visão e nos chega pelas janelas em vidro.

Perante esta nota, também certas obras parecem envoltas de uma camada una, por vezes opaca ou nublosa. Camada essa que pode ser a chave para muitas outras reflexões: para envolver ideias, afetar ou relacionar temáticas, como acontece com o biombo (2018) de Mike Cooter e Tomás Cunha Ferreira – que agrupa trabalhos, empréstimos e outros tantos objetos. O mesmo sucede com o vídeo Astra (fumo) (2018) de Miguel Leal na cave das arcadas que regista este nevoeiro, característico do arquipélago, e parece querer alastrar o fumo pelo espaço. Também as instalações sonoras de Pedro Tudela contaminam as esculturas do sub-piso, e vice-versa. A imagem penetra na escuridão e a luz emana nos recantos mais sombrios (como na instalação composta de janela e esferas de vidro Há lágrimas das coisas, 2018), remetendo à introdução de Nicolau Tudela “O universo é uma emanação da luz – Lux ex Tenebris (a luz a partir das trevas)”.

A par, todas as transformações (adaptações ou apropriações) aplicadas ao arquivo em questão ecoam diferentes olhares ao nosso passado, presente, e possíveis implicações, ou leituras futuras. Como se trabalhar a memória fosse indispensável para ajustar o presente, para curar. Nesta exposição podemos ver a mutação de uma (ou várias) prática(s) artísticas em relação e diferentes níveis de experiência. Pessoal, mas, acima de tudo, coletiva, de relação ou de contato com. Tal como lembra Nuno Faria quando evoca Édouard Glissant, “a noção de identidade de Glissant é construída em relação e não em isolamento; relação, em todos os sentidos, dizer, ouvir, ligar, e a consciência paralela do eu e do contexto, são a chave para a transformação e a reconstrução/reformatação das sociedades”.

Apesar disso, e como escreve o artista Miguel Leal, “do resultado de tudo isto, depois se verá”. Por agora, 2º Ciclo do projeto Geometria Sónica para “ver até dia 13 de janeiro no Arquipélago [São Miguel – Açores, Portugal]. A inaugurar dia 26 deste mês, e até 14 de abril 2019, acontece o terceiro e último ciclo com Jonathan Uliel Saldanha, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Ricardo Jacinto e Pedro Tropa.

Carolina Trigueiros vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Comunicação Cultural (2013) entre Lisboa e Barcelona e com uma pós-graduação em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa, tem vindo a trabalhar na área da curadoria, produção e escrita.

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